A vida, modo de acelerar

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Esta História
Autor: Alessandro Baricco
Título original: Questa Storia
Tradução: Simonetta Neto
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 293
ISBN: 978-972-20-3212-4
Ano de publicação: 2008

Numa madrugada de 1902, Libero Parri leva o filho, não a ver o gelo (como em certo livro famoso de Gabriel García Márquez), mas antes uma maravilha menos efémera: um automóvel. A visão daquela “coisa estranha” e na altura ainda rara, monstro metálico emergindo de uma nuvem de pó a “velocidade inaudita”, sela o destino da família Parri. O pai, camponês do Piemonte, venderá, dois anos mais tarde, as suas 26 vacas para montar uma garagem no meio do nada, à espera de um futuro em que as máquinas de quatro rodas andarão por todo o lado. E Ultimo, o rapazola de cinco anos, não mais deixará de perseguir aquela espécie de vertigem mecânica.
No entanto, a vida de Ultimo nunca se chega a confundir com a dos pioneiros da indústria automóvel. Mais do que o som dos pistões ou a anatomia dos motores, o que lhe interessa é “a estrada”, a forma dos caminhos que se insinua tanto no “perfil de uma colina” como na “anca de uma mulher”. O seu desígnio, descobre um dia, é “construir uma pista para automóveis de corrida” como ainda ninguém inventou: um lugar fechado onde se anda às voltas e “não se vai a lado nenhum”.
Esta História acompanha a concretização desse desígnio, mas infelizmente a dispersão narrativa de Baricco, empurrada pelos seus experimentalismos formais e por um estilo que abusa das frases de efeito, fura os pneus ao que podia ser um fresco do século XX – ou, pelo menos, uma elegia à aceleração das vidas humanas trazida pelos avanços tecnológicos. Baricco não resistiu a incluir no livro os dramas da I Guerra Mundial (focando-os na catastrófica retirada das tropas italianas em Caporetto) e a centrar o enredo no implausível romance entre Ultimo e Elizaveta, uma aristocrata russa que fixa quase tudo num diário, entre 1923 e 1969. Quando esta consegue, por fim, ressuscitar o circuito com 18 curvas que condensa a vida do amante perdido, um engenheiro pragmático avisa-a: uma tal pista é “intrasitável”. Como este romance, acrescentamos nós, lamentando ver desbaratada de forma inglória uma ideia fortíssima.
Os tropeções e equívocos de Baricco não retiram brilho, porém, ao extraordinário prólogo do romance (Ouverture sobre uma épica corrida Paris-Madrid, em 1903, tão acidentada que não chegou ao fim). Só por estas 14 páginas, exemplo perfeito do que a literatura pode e deve ser, vale a pena comprar um livro que não chega a cumprir o que o seu arranque avassalador promete.
Nota final para a cuidadíssima tradução de Simonetta Neto, capaz de atravessar, sem uma arranhadela, as sinuosas idiossincrasias do estilo de Baricco.

Avaliação: 4,5/10

[Versão ligeiramente ampliada de um texto publicado no suplemento Actual do Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges