A Sua Excelência, o Primeiro-Ministro da República Portuguesa

Caro Eng. José Sócrates,

Como está de férias, não o quero maçar e serei telegráfico. Sabendo que preza gestos simbólicos e medidas que o coloquem na vanguarda da política europeia, sugiro-lhe que pondere bem a hipótese de imitar o seu congénere australiano. Está tudo explicado aqui. E não comece já com o seu sorriso amarelo n.º 14, por favor. Apadrinhar um prémio literário nacional e avaliar todas as obras a concurso é uma oportunidade de ouro de exibir ao país o seu perfil humanista, provando que Sua Excelência não é afinal (como a maior parte dos seus concidadãos julga) um robot político e um tecnocrata obcecado com o défice das contas públicas. Além disso, quem já teve que ler tantos pareceres técnicos, como os do aeroporto na Ota (primeiro) e em Alcochete (depois), despachará decerto numa penada qualquer shortlist de 14 livros (se quisermos seguir o exemplo australiano, claro).
Enfim, pense no assunto. Os seus assessores culturais demonstrar-lhe-ão que estou certo.
Com os melhores cumprimentos,
José Mário Silva

PS – Não se esqueça que Manuel Alegre vai liderar o júri do principal prémio literário português, a atribuir pela primeira vez em Outubro deste ano. Já imaginou o que era bater-se com o seu principal rival partidário no campo dele (a literatura) e talvez vencê-lo em termos de reconhecimento público?



Comentários

6 Responses to “A Sua Excelência, o Primeiro-Ministro da República Portuguesa”

  1. J.Urbano on Agosto 13th, 2008 18:17

    Só se fosse humuristico este post tinha algum cabimento.
    Gostaria de saber em que medida José Sócrates como juri de um qualquer prémio literário ajudaria no quer que fosse a literatura portuguesa? Tenha dó. Essa venalidade diante dos poderosos é confrangedora mas bem sintomática de uma nova geração que toma de assalto as páginas dos suplementos literários.

  2. J.Urbano on Agosto 13th, 2008 18:18

    Só se fosse humoristico este post tinha algum cabimento.
    Gostaria de saber em que medida José Sócrates como júri de um qualquer prémio literário ajudaria no quer que fosse a literatura portuguesa? Tenha dó. Essa venalidade diante dos poderosos é confrangedora mas bem sintomática de uma nova geração que toma de assalto as páginas dos suplementos literários.

  3. José Mário Silva on Agosto 13th, 2008 18:50

    Só se fosse humorístico?
    Só se fosse humorístico?
    Então não percebeu que era humorístico, homem?
    Repetindo a fórmula que li certa vez num comentário bloguístico, gostava de lhe apresentar alguém:
    – J. Urbano, esta é a Ironia.
    – Ironia, este é o J. Urbano.

  4. J.Urbano on Agosto 13th, 2008 23:00

    Lendo o post com atenção só podia ser irónico. Mas veja bem, eu até achei, mesmo atendendo àquilo da Leya e do Alegre, que você estava a levar a coisa a sério mesmo começando o post num tom humoristico. Na verdade seria excessivo. Não teria cabimento nenhum. Pergunto-me como julguei que o José Mário Silva estava a falar a sério. E só tenho uma resposta: o pouco apreço por um certo número de pessoas que escrevem sobre livros e a precipitação. O que não deixa de ter a sua piada.

  5. José Mário Silva on Agosto 14th, 2008 8:04

    Tudo bem, J. Urbano. A precipitação faz parte da ‘mecânica’ deste meio e quem não fez juízos precipitados na blogosfera que atire a primeira pedra (ou o primeiro post).
    Agora o que me fez rir a bom rir foi a imagem da “nova geração” a “tomar de assalto” as páginas dos suplementos literários. Acredite, meu amigo, que não andamos de lança-rockets ou kalashnikov a tiracolo. E os suplementos literários, infelizmente, são territórios ainda mais pequenos e desprezados do que qualquer metafórica Ossétia do Sul.

  6. J.Urbano on Agosto 14th, 2008 9:53

    Não se tratou apenas de precipitação. Tratou-se antes que o meu inefável subconsciente acreditou que o José Mário Silva tinha realmente podido redigir um post assim. Foi essa a partida. Quanto ao assalto, é obvio que os suplementos dos jornais são quase ridículos, mas é o que temos e nem por isso deixam de ser lugares de um certo circuito fechado, com as suas exclusões e temores, etc. E aqui também incluio uma revista como a Ler. E abstenho-me de falar da política das editoras ou das cadeias de livrarias. Porém acho lastimável que dois autores maiores da literatura portuguesa, e autores vivos, não mereçam da parte de ninguém uma linha sequer: refiro-me a Silva Carvalho e a Vicente Sanches. Ambos vêm-se hoje obrigados a editarem os seus próprios livros.
    Quanto a si estou-lhe grato por me ter indicado, há uns anos atrás, a leitura de Bolano. Um autor extraordinário.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges