A Sua Excelência, o Primeiro-Ministro da República Portuguesa
Caro Eng. José Sócrates,
Como está de férias, não o quero maçar e serei telegráfico. Sabendo que preza gestos simbólicos e medidas que o coloquem na vanguarda da política europeia, sugiro-lhe que pondere bem a hipótese de imitar o seu congénere australiano. Está tudo explicado aqui. E não comece já com o seu sorriso amarelo n.º 14, por favor. Apadrinhar um prémio literário nacional e avaliar todas as obras a concurso é uma oportunidade de ouro de exibir ao país o seu perfil humanista, provando que Sua Excelência não é afinal (como a maior parte dos seus concidadãos julga) um robot político e um tecnocrata obcecado com o défice das contas públicas. Além disso, quem já teve que ler tantos pareceres técnicos, como os do aeroporto na Ota (primeiro) e em Alcochete (depois), despachará decerto numa penada qualquer shortlist de 14 livros (se quisermos seguir o exemplo australiano, claro).
Enfim, pense no assunto. Os seus assessores culturais demonstrar-lhe-ão que estou certo.
Com os melhores cumprimentos,
José Mário Silva
PS – Não se esqueça que Manuel Alegre vai liderar o júri do principal prémio literário português, a atribuir pela primeira vez em Outubro deste ano. Já imaginou o que era bater-se com o seu principal rival partidário no campo dele (a literatura) e talvez vencê-lo em termos de reconhecimento público?
Comentários
6 Responses to “A Sua Excelência, o Primeiro-Ministro da República Portuguesa”
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 29 de Dezembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 22 de Dezembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 16 de Dezembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 9 de Dezembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 2 de Dezembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 25 de Novembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 18 de Novembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 11 de Novembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 4 de Novembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 28 de Outubro de 2016


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Só se fosse humuristico este post tinha algum cabimento.
Gostaria de saber em que medida José Sócrates como juri de um qualquer prémio literário ajudaria no quer que fosse a literatura portuguesa? Tenha dó. Essa venalidade diante dos poderosos é confrangedora mas bem sintomática de uma nova geração que toma de assalto as páginas dos suplementos literários.
Só se fosse humoristico este post tinha algum cabimento.
Gostaria de saber em que medida José Sócrates como júri de um qualquer prémio literário ajudaria no quer que fosse a literatura portuguesa? Tenha dó. Essa venalidade diante dos poderosos é confrangedora mas bem sintomática de uma nova geração que toma de assalto as páginas dos suplementos literários.
Só se fosse humorístico?
Só se fosse humorístico?
Então não percebeu que era humorístico, homem?
Repetindo a fórmula que li certa vez num comentário bloguístico, gostava de lhe apresentar alguém:
– J. Urbano, esta é a Ironia.
– Ironia, este é o J. Urbano.
Lendo o post com atenção só podia ser irónico. Mas veja bem, eu até achei, mesmo atendendo àquilo da Leya e do Alegre, que você estava a levar a coisa a sério mesmo começando o post num tom humoristico. Na verdade seria excessivo. Não teria cabimento nenhum. Pergunto-me como julguei que o José Mário Silva estava a falar a sério. E só tenho uma resposta: o pouco apreço por um certo número de pessoas que escrevem sobre livros e a precipitação. O que não deixa de ter a sua piada.
Tudo bem, J. Urbano. A precipitação faz parte da ‘mecânica’ deste meio e quem não fez juízos precipitados na blogosfera que atire a primeira pedra (ou o primeiro post).
Agora o que me fez rir a bom rir foi a imagem da “nova geração” a “tomar de assalto” as páginas dos suplementos literários. Acredite, meu amigo, que não andamos de lança-rockets ou kalashnikov a tiracolo. E os suplementos literários, infelizmente, são territórios ainda mais pequenos e desprezados do que qualquer metafórica Ossétia do Sul.
Não se tratou apenas de precipitação. Tratou-se antes que o meu inefável subconsciente acreditou que o José Mário Silva tinha realmente podido redigir um post assim. Foi essa a partida. Quanto ao assalto, é obvio que os suplementos dos jornais são quase ridículos, mas é o que temos e nem por isso deixam de ser lugares de um certo circuito fechado, com as suas exclusões e temores, etc. E aqui também incluio uma revista como a Ler. E abstenho-me de falar da política das editoras ou das cadeias de livrarias. Porém acho lastimável que dois autores maiores da literatura portuguesa, e autores vivos, não mereçam da parte de ninguém uma linha sequer: refiro-me a Silva Carvalho e a Vicente Sanches. Ambos vêm-se hoje obrigados a editarem os seus próprios livros.
Quanto a si estou-lhe grato por me ter indicado, há uns anos atrás, a leitura de Bolano. Um autor extraordinário.