Albert Cossery (1913-2008)

Albert Cossery

Morreu o escritor da preguiça. Uma preguiça langorosa e magnífica.
Eis os parágrafos finais de dois dos seus sete romances, todos editados pela Antígona:

«Si Khalil ouve esta voz que se ergue na noite. É a voz de um povo que desperta e que cedo vai estrangulá-lo. Cada minuto que passa o separa da sua antiga vida. O futuro está cheio de gritos. O futuro está cheio de revoltas. Como represar este rio transbordante que vai submergir as cidades? Si Khalil imagina a casa desabada sob o pó dos escombros. Vê os livros aparecer por entre os mortos. Pois nem todos serão mortos. É preciso contar com eles, quando se erguerem com os seus rostos sangrentos e os seus olhos de vingança.»

[in A Casa da Morte Certa, trad. de Ana Margarida Paixão, 2001]

«Quando Samantar saiu da gruta, o sol levantava-se por cima do mar, fazendo explodir debaixo dos seus raios mágicos todas as cores da paisagem. O verde dos palmeirais, o ocre das extensões arenosas, o azul do mar, apareciam em todo o esplendor da sua frescura primitiva. Era quase um chamamento sensual, uma exortação ao amor que Samantar sentiu com uma indizível felicidade. Então, fez vaguear o olhar maravilhado por toda aquela beleza cintilante debaixo do sol, como uma oferenda àquele que simplesmente quer viver e que a ambição de um homem quase destruíra.»

[in Uma Ambição no Deserto, trad. de Sarah Adamopoulos, 2002]



Comentários

5 Responses to “Albert Cossery (1913-2008)”

  1. diga cultura on Junho 25th, 2008 10:37

    Albert Cossery (1913-2008)

    Morreu o escritor da preguiça. Uma preguiça langorosa e magnífica.

  2. O Salgador da Pátria on Junho 25th, 2008 15:04

    De Cossery li o “Mendigos e Altivos” e relembro o belo momento em que Gohar enchia o seu gato com bolinhas de haxixe. Adeus Albert! Está na altura de ler ainda mais o homem, porque de ócio percebo eu…

  3. fallorca on Junho 25th, 2008 21:01

    Abençoada Antígona, que editou TUDO o que havia para editar do Cossery, sem que a maior parte do público tivesse dado por nada. Deve ser de cagar a rir a vê-los a sprintar a caminho das urnas

  4. Ricardo Cabaça on Julho 5th, 2008 0:18

    De facto um escritor soberbo! Li tudo, à excepção d'”Os Homens Esquecidos de Deus”, infelizmente uma edição esgotada. Ninguém como o Cossery fundamentou tão bem o ócio enquanto filosofia e arte, uma espécie de literatura do povo, onde os heróis são malandros e preguiçosos. Aconselho a conversa com Mitrani, igualmente editado na Antígona. Para o Albert Cossery, que tanto odiava a propriedade privada, espero que a cremação seja o passo final e que todas as suas cinzas se separem, ocupando um interstício do esquecimento de Deus.

  5. Marco antonio raia Nigro on Fevereiro 14th, 2009 18:58

    Descobrir Cossery foi para mim encontrar algo totalmente novo na

    literatura, um descobrimento que renovou meu prazer de ler. Seu texto escrito

    dizem alguns, na base de “uma frase por dia” é fascinante e algumas vezes

    faz com que esqueçamos a estória para nos concentrarmos nele. Algumas

    frases valem por páginas. Obrigado Cossery.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges