Algumas micronarrativas resgatadas de uma crónica de jornal (circa 2003)
O PROBLEMA DA INSPIRAÇÃO
Naquele dia, as musas resolveram descer à cidade. Houve quem as visse – luminosas, belíssimas – arrastando longos vestidos, sorrindo muito, pairando numa leveza feita de véus e coroas de flores. No quarto andar de um prédio decrépito, bateram à porta com a insistência convicta das Testemunhas de Jeová, mas também com muito mais doçura. Do outro lado, só silêncio. Quando regressou a casa, dez minutos depois, o escritor apenas sentiu, nas escadas, um perfume desconhecido. Trazia no bolso o maço de tabaco que fora comprar à rua e na cabeça uma dúvida: «será hoje que venço o maldito bloqueio?»
NATUREZA MORTA
Começou por recuperar, à sua maneira, temas clássicos: três pêras e um violino; uma caveira junto a um candelabro; cestos de figos e flores murchas; copos de cristal, um elmo. Depois, aos poucos, foi introduzindo elementos bizarros, combinações grotescas: um cão morto de olhos cosidos, sobre a carcaça de um automóvel; dois pneus a arder dentro de um armário forrado de espelhos; lírios brancos flutuando numa banheira de esmalte cheia de sangue. Passou a viver no atelier, tecendo lentamente a sua loucura. Perdeu os laços com a família, com os amigos, com as galerias. Quando o prenderam, acusado de homicídio na pessoa do amante e modelo, trabalhava na sua «obra-prima». Um quadro gigantesco – seis por cinco metros – inteiramente preenchido pela cabeça degolada de S. João Baptista.
TITANIC
Quando a noite chegou, com a lua brilhante a subir no horizonte tão escuro, ela tirou do baú os sapatos brancos, algumas jóias, o melhor vestido. Caminhou até ao salão, toda veludo e pérolas. A meio do baile, disse-lhe baixinho ao ouvido: «estou grávida». Ele empalideceu, os vidros embaciaram-se, a orquestra atacou uma última valsa. Já no convés, ela decifrou em cada gesto dele, mais do que nas palavras, os sinais claros da decepção. Compreendeu tudo. O olhar que a seduzira numa rua de Viena – há quantos séculos? – era agora de uma frieza que só se encontra no coração azul do gelo.
FIM
O escritor não sabia como concluir as suas histórias. Por isso, numa noite de álcool, insónia e lucidez, decidiu nunca mais correr o risco – pérfido, vicioso – de as começar.
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