Anselm Jappe: “Debord tinha paciência e sabia pensar a longo prazo”

Em tempo de celebração dos 40 anos do Maio de 68, a Antígona editou um volume sobre Guy Debord, escrito pelo filósofo Anselm Jappe. O livro analisa sobretudo ideias e conceitos. Quem estiver à procura de pormenores sobre a vida do célebre situacionista deve procurar noutros lados, garante o autor de As Aventuras da Mercadoria.

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Mais do que uma biografia, este livro é o retrato intelectual de um pensador, construído a partir da análise teórica dos textos que deixou. Teve receio de se aproximar do mito criado em torno de Guy Debord?
Digamos antes que não quis acrescentar elementos não conhecidos da sua biografia, como fizeram outros investigadores depois de mim. É preciso ter em conta que a primeira edição deste trabalho surgiu em Itália, em 1993, antes da recente explosão bibliográfica. Naquela época existiam algumas obras sobre os situacionistas, mas o meu livro foi o primeiro especificamente consagrado a Debord. Escrevi-o em 1992, quando ele ainda estava vivo e controlava o seu próprio mito. Só sabíamos da sua vida aquilo que deixava que se soubesse. E era muito difícil encontrá-lo fora dos textos.

Não dava entrevistas.
Não dava entrevistas, estava longe de tudo. Mas como não era a sua biografia que me interessava, nem sequer me esforcei para o encontrar.

Nunca fez uma aproximação?
Enviei-lhe uma vez uma carta, à qual juntei este livro. Ele respondeu a dizer que tinha apreciado a abordagem, ao mesmo tempo que me convidava a colocar outras questões sobre o seu pensamento. Isso foi poucos meses antes da sua morte [em Novembro de 1994], por isso não chegámos a ter tempo para entrar em diálogo.

Quando é que o livro começou a ganhar forma?
O primeiro núcleo nasceu de uma análise comparativa entre Adorno e Debord que eu fizera na universidade. Nessa altura apercebi-me da importância de Lukács e de Lefebvre para a sua formação. Quis sobretudo demonstrar de que forma Debord contribuiu para renovar certos conceitos do marxismo.

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Houve quem visse nele o “mais livre” de todos os homens.
E talvez fosse, se tivermos em conta que conseguiu libertar-se de quase todos os constrangimentos sociais. Nunca trabalhou, não teve formação académica, nem família, nem chefes. Sobretudo, havia nele uma característica que me parece rara hoje em dia: era alguém que sabia pensar a longo prazo. Tinha paciência. Não queria escrever um livro que fosse lido imediatamente e esquecido no dia seguinte. Todos sabemos que A Sociedade do Espectáculo, publicado em Novembro de 1967, teve um enorme impacto imediato. Mas o seu objectivo era que o ensaio fosse compreendido aos poucos. Se o leitor levasse 20 ou 30 anos a descobrir todas as alusões, melhor. Tranquilizava-o escrever para a eternidade, o que de certa forma contrasta com a sua obsessão em viver no presente.

Como é que descobriu a obra de Debord?
Eu fiz o liceu na Alemanha nos anos 70 e politizei-me ao acompanhar, à distância, a revolução portuguesa. Tinha apenas 12 anos e simpatizava com as correntes esquerdistas mais radicais. Um amigo quatro anos mais velho revelou-me a existência dos situacionistas e quando os li fiquei bastante chocado, porque iam contra todas as ideias feitas do esquerdismo, do militantismo, do sacrifício. O que me atraiu mais foi a linguagem, muito polémica mas também muito poética. Alguns anos mais tarde, quando estava em Itália, voltei a interessar-me. Nesse momento, já era quase impossível encontrar um exemplar de A Sociedade do Espectáculo, o livro tinha esgotado. Perguntava às pessoas se conheciam alguém que tivesse o livro, e esse alguém enviava-me para outra pessoa e assim cheguei a Mario Perniola, que era professor de Estética em Roma. Foi ele que me propôs que fizesse uma tese sobre este tema, que viria a estar na origem do primeiro núcleo do livro.

Mais de quatro décadas após a primeira edição, como é que vê A Sociedade do Espectáculo enquanto instrumento analítico do sistema capitalista?
O que acho mais interessante é a forma como ele retomou alguns temas de Marx, como a crítica do fetichismo da mercadoria, do valor, do dinheiro. Ele foi um dos primeiros a descobrir isto em Marx e a actualizar o conceito. Outro dos aspectos originais da teoria de Debord, com curiosos paralelos na obra de Hannah Arendt, consiste na defesa da vida enquanto possibilidade de criação de uma existência única. Esta é de resto uma das chaves possíveis para compreender a vida de Debord, que quis criar o seu próprio destino, à maneira do ideal dos gregos antigos.

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Concorda que as ideias de Debord tiveram uma influência directa nos acontecimentos de Maio de 68, em Paris?
Em meu entender há influências subterrâneas que são mais fortes do que as influências directas, que se faziam sentir sobretudo no meio estudantil. Mas o certo é que os situacionistas foram os únicos a trabalhar, desde os anos 50, para um acontecimento daquele tipo. Os esquerdistas de outras tendências (leninistas, trotskistas, etc.) também queriam a revolução, mas pensavam-na em termos muito mais clássicos.

É possível repetir Maio de 68 ou a crítica da sociedade contemporânea deve assumir outras formas?
Se houver de facto uma mudança, penso que tomará a forma de algo como o que aconteceu em Maio de 68: uma greve geral selvagem, por exemplo, com dez milhões de cidadãos a paralisarem o país. Passará mais por aí do que pelos partidos ou por eleições. Por outro lado, é verdade que aquele foi um momento muito particular, em que as pessoas ainda não tinham interiorizado completamente o que implica e impõe a globalização capitalista. Foi o tipo de acontecimento que se produz facilmente na passagem de uma época para outra. Hoje, embora continuemos a viver numa era de grande fragilidade, o sistema conseguiu criar, em parte por ter incorporado as ideias de 68, um outro tipo de mentalidade e de subjectividade que me parecem menos mobilizáveis. É evidente que continua a existir muito descontentamento. As pessoas não estão satisfeitas com as suas vidas. Mas tenho a impressão de que se perdeu a capacidade dos indivíduos se articularem. Por isso, arriscamo-nos a que as revoltas sejam cada vez mais violentas e irracionais.

Como nos subúrbios de Paris, com os carros e as bibliotecas a arder?
Sim. Compreendo a raiva dessas pessoas mas ela está nos antípodas do Maio de 68, porque essa revolta é tão degradante como o sistema que a produz.

Está então pessimista?
Não é uma questão de se ser optimista ou pessimista. Assistimos hoje a um empobrecimento total da capacidade de imaginar ou de acreditar numa vida diferente. E esses são factores antropológicos. Por outro lado, como disse recentemente num artigo, durante a História humana houve tantas previsões optimistas desmentidas pelos factos que só nos resta esperar que as previsões pessimistas também o sejam.

[Entrevista publicada no n.º 70 da revista Ler]



Comentários

2 Responses to “Anselm Jappe: “Debord tinha paciência e sabia pensar a longo prazo””

  1. diga cultura on Junho 27th, 2008 11:36

    Anselm Jappe: “Debord tinha paciência e sabia pensar a longo prazo”

    Em tempo de celebração dos 40 anos do Maio de 68, a Antígona editou um volume sobre Guy Debord, escrito pelo filósofo Anselm Jappe.

  2. links for 2008-07-02 - RetortaBlog on Julho 2nd, 2008 10:31

    […] Anselm Jappe: “Debord tinha paciência e sabia pensar a longo prazo” (tags: Livros Situacionismo Ideias) […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges