António M. Feijó: “Nunca se pode organizar uma exposição como esta de um ponto de vista impessoal”

O Bibliotecário de Babel falou com António M. Feijó, o comissário de ‘Weltliteratur – Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o Mundo!‘ (mostra inaugurada faz hoje uma semana, na sala de exposições temporárias da Fundação Calouste Gulbenkian, onde pode ser vista até 4 de Janeiro):

Quando e em que circunstâncias começou a ganhar forma o projecto desta exposição?
Foi há cerca de dois anos. O convite inicial da Fundação Calouste Gulbenkian era muito abstracto, muito difícil e também muito generoso: fazer uma exposição sobre literatura. Só isso. E eu fui tão imprudente que o aceitei de imediato.

Não lhe impuseram um mínimo de coordenadas?
Nada. Não impuseram nada. Podia ser o que nós quiséssemos. Só que falar sobre literatura em geral, já o disse num dos textos de sala, é como beber o Pacífico por uma palhinha. Era preciso circunscrever essa vastidão e nós decidimos rapidamente que a mostra devia ser sobre literatura portuguesa, até porque o recurso a outras línguas requeria traduções e isso levantava um problema muito complicado de mediação com o público. Dentro da literatura portuguesa, embora tivéssemos esboçado outras possibilidades, fomos para um domínio que me parece o mais previsível: a primeira metade do século XX, com Pessoa enquanto figura nuclear de uma geração. Foi um risco assumido: pegar de novo em autores que muita gente julga estafados e partir do princípio de que Pessoa ainda está por ler, Pascoaes ainda está por ler, Nemésio ainda está por ler, etc. E ler é aqui a palavra central. Em vez de mostrar raridades bibliófilas, quisemos pôr textos na parede, textos que o visitante possa descobrir por si e depois integrar numa rede de nexos que inclui quadros, fotografias, filmes, etc. Houve, no fundo, a tentativa de mostrar que a leitura de um texto implica sempre mais coisas do que o simples acto de ler esse texto.

O centro gravitacional da exposição é Pessoa, mas nota-se que foram à procura do Pessoa menos previsível.
Exactamente. Basta ver que os heterónimos, um dos tópicos recorrentes quando se fala de Pessoa, nem surgem enquanto tal. E os poemas que deles escolhemos são pouco conhecidos, quando não obscuros, inacabados, cheios de imperfeições. Mas a partir desses textos fizemos uma série de nexos com outros autores, não apenas portugueses.

Foi depois de fixar quais seriam esses nexos que procuraram as representações visuais capazes de dialogar com os textos?
Claro. Mas algumas dessas representações visuais surgiram desde muito cedo. Logo que me fizeram o convite, a primeira coisa em que pensei foi numa tela do Édouard Manet [O Rapaz das Cerejas] que eu sabia pertencer ao Museu Gulbenkian e que associei logo ao poema em prosa do Baudelaire em que este narra o triste fim do rapaz que serviu de modelo ao quadro.

Algumas das premissas da exposição, como a ideia de colocar Teixeira de Pascoaes no mesmo plano de Pessoa, são no minímo discutíveis. Enquanto comissário quis deixar uma marca autoral, uma expressão do modo como vê a literatura portuguesa do século XX?
Eu tinha que fazer isso, assumir a minha posição. E os consultores que colaboraram comigo também têm uma parte de responsabilidade em todo o processo, claro. Uma pessoa acaba sempre por trair-se. Se tem que fazer escolhas, as escolhas vão reflectir certamente o modo como pensa sobre isto e aquilo. Nunca se pode fazer um trabalho destes de um ponto de vista impessoal.

Houve material que ficou de fora?
Sim, sim, muito material. Não podíamos incluir tudo. E ao fazer escolhas, é óbvio que se fazem imensas exclusões. Felizmente, algum desse material pode ser visto no catálogo da exposição.

Já tinha tido alguma experiência deste tipo antes?
Quer dizer, tive experiências de outra natureza, como fazer uma dramaturgia de Pessoa, por exemplo.

Referia-me a exposições.
Ah, não. Exposições nunca tinha feito. Esta é a única que fiz até hoje e penso que será a última.

[A fotografia que ilustra este post foi captada uns dias antes da inauguração. Agora, as mesmas letras formam, empilhadas umas nas outras, à esquerda de quem entra na sala, a palavra Weltliteratur.]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges