Apocalipse menor

O quase fim do mundo
Autor: Pepetela
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 382
ISBN: 978-972-20-3525-5
Ano de publicação: 2008
Um dia aconteceu aquilo, a “coisa”, uma “luz intensa, como um flash num céu azul”, sopro de morte a varrer do planeta Terra todos os vestígios de vida animal. Todos, não. Como que por milagre, há quem sobreviva ao súbito desastre, uma espécie de dilúvio do Antigo Testamento mas sem água. Simba Ukolo, médico na imaginária Calpe (dois milhões de habitantes, algures na África Central, perto do Equador), é um dos sobreviventes. De regresso a casa após uma campanha de vacinação, encontra a cidade vazia: automóveis abandonados na rua, um silêncio absoluto, roupas caídas no solo a marcar o sítio onde as pessoas se volatilizaram. A primeira reacção é de pânico; depois chega a certeza de que enlouqueceu. A caminho do hospital, onde tenciona entregar-se aos cuidados de um psiquiatra, pára numa dependência bancária de portas abertas e só então esbarra na realidade. Ou seja, encontra Geny, senhora já entradota, seguidora de uma religião particularmente rígida (a dos Paladinos da Coroa Sagrada), no momento em que os dois se entregam à pouco edificante tarefa de «levantar» dinheiro à borla.
É a partir deste encontro entre náufragos, diametralmente opostos em tudo, mas ambos capazes de violar interditos sociais numa situação-limite, que se começa a estruturar a narrativa do último romance de Pepetela, arremedo de parábola pós-apocalíptica que questiona, por reductio ad absurdum, o estado da Humanidade nos tempos que correm. Para isso, o escritor cria uma pequena tribo de sobreviventes: ao médico e à fanática cristã juntam-se um ladrão pacífico, um pescador agora sem peixes para pescar (a fauna desapareceu quase toda), uma jovem historiadora somali, uma americana que passava meses na selva a estudar gorilas, um electricista nascido no sopé do Kilimanjaro e um sul-africano branco, segurança numa mina de diamantes com pinta de mercenário; entre outros.
O suhaili é a língua franca e eles vão-se conhecendo, confrontando, unindo, desunindo, resolvendo situações, acasalando, medindo forças e conjugando vontades ao sabor de uma dinâmica de grupo algo coxa — já que seriam de esperar, em circunstâncias tão precárias, muito mais conflitos. É notório que Pepetela gosta das suas personagens, às quais atribui por vezes o papel de narrador, cuida bem da prosa (apesar de algumas flutuações estilísticas) e sabe manter o ímpeto do enredo, mesmo se com uma explicação pouco plausível para o grande mistério, simbolicamente encontrada nas Portas de Brandenburgo, em Berlim, ao melhor estilo dos filmes de série B. O pior, porém, são as sistemáticas entorses na verosimilhança (a forma ultra-rápida como Jude aprende a pilotar aviões, por exemplo, ou a manutenção do fornecimento de electricidade em cidades desertas, vários meses após a catástrofe) que nem as liberdades do pacto ficcional conseguem justificar.
Já as reflexões que atravessam as longas conversas filosóficas do grupo, sobre o passado colonial, as diferenças étnicas impostas, o peso da História, a “fortaleza de Schengen” ou o regresso final às origens (para um novo começo da Humanidade a partir do seu antigo berço), conversas que ocupam grande parte do livro, raras vezes ultrapassam a superficialidade das evidências e e dos lugares-comuns.
Avaliação: 6/10
[Versão ligeiramente ampliada do texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
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