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Apolo e Gilgamesh em Vila Real

Comércio Tradicional
Autor: Vítor Nogueira
Editora: Averno
N.º de páginas: 45
Ano de publicação: 2008

Embora nunca seja nomeada, a cidade de província que Vítor Nogueira evoca neste livro é Vila Real (Trás-os-Montes), cujo teatro dirige há vários anos. Quem nunca tenha experimentado os deliciosos covilhetes e cristas de galo da Gomes, mítica pastelaria referida em dois dos poemas, dificilmente identificará o cenário destas deambulações urbanas. Mas isso pouco importa. A Vila Real que o autor descreve é em tudo semelhante a muitas outras povoações do interior do país: lugares onde os hábitos de convivência social se dissolvem à medida que vão fechando as pequenas lojas antigas, esmagadas pela aparição dos centros comerciais contruídos na periferia (junto às auto-estradas e aos IP’s), símbolos de um desenvolvimento económico tantas vezes ilusório.
Na sua «arrastada melancolia», este conjunto de poemas funciona como o canto do cisne de um mundo comercial em vias de extinção. Nogueira vai de porta em porta, da drogaria para o café e do café para a barbearia, etc., aos ziguezagues, encontrando pelo caminho uma galeria de figuras retratatadas a preceito: do emigrante que quer levar couves para a consoada em França aos clientes que entram à procura de um «sabão mais forte» (ou apenas de um golpe do destino que lhes ofereça os milhões da lotaria).
O que se ergue diante de nós, pouco a pouco, é «todo um ecossistema, uma rede infinita / de ligações humanas» que requer um observador sistemático, capaz de enquadrar as fotografias com «atenção aos pormenores». Nalguns casos, o poeta ouve falar da vida «esfregada a pedra-pomes» e do medo do progresso, que gere o mundo com «zeros e uns». Noutros, inventa nomes solenes (Apolo, Aquiles, Gilgamesh) para existências vulgares. Quanto aos versos propriamente ditos, elevam-se quase sempre acima das realidades descritas, oscilando entre a nostalgia e a metafísica, mas sem nunca se levarem demasiado a sério. Não há pathos que resista à urgência de «ir pôr moedas no parquímetro».
No fim, cumprem-se as profecias. Fecha o Excelsior, café dos anos vinte. Fecha a drogaria, «quartel-general» dos sábados. Quem não se resigna, entristece («Feridos abandonados no campo de batalha / despedem-se do chão onde aprenderam a fumar») ou ironiza («Andamos demasiado sensíveis. / Talvez devêssemos cortar na cafeína»). O título do último poema, “Franchising”, é já o sinal de uma derrota previsível, mesmo não sabendo «o que vão ser as cidades amanhã».

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 77 da revista Ler]



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