As armadilhas de Cronos
As Esquinas do Tempo
Autora: Rosa Lobato de Faria
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 208
ISBN: 978-972-0-04181-4
Ano de publicação: 2008
Num romance inacabado de Henry James (The Sense of the Past), Ralph, um jovem historiador americano, visita em Londres uma casa que pertenceu aos seus antepassados. Nessa casa encontra o retrato a óleo de um homem que se lhe assemelha em tudo, excepto no facto de ter vivido no século anterior. O homem do quadro materializa-se e ambos trocam de época. Projectado para o início do séc. XIX, Ralph substitui o outro como se nada fosse e vive um amor impossível, sacrificado para obter o regresso ao presente.
A história do último livro de Rosa Lobato de Faria é muito semelhante à de Henry James. Também há trocas no tempo entre personagens similares (uma Margarida actual que viaja até 1908 e uma Margarida de 1908 que retrocede até ao consulado do Marquês de Pombal), também há uma casa antiga que pertenceu à família, um retrato a óleo que desencadeia a acção, amores impossíveis e inúmeras questões filosóficas sobre o fluir do tempo. O que separa as duas histórias é o abismo que vai do génio literário de James à prosa desembaraçada, mas tão fácil de ler quanto banal, da autora portuguesa.
Ao montar um enredo com vários eixos cronológicos e certa complexidade narrativa, RLF demonstra mais uma vez que sabe do ofício. O seu problema, o seu calcanhar de Aquiles, é estilístico. Há nesta escrita um tom enfático que cansa. Os lugares-comuns campeiam, o tratamento psicológico das personagens é linear (para não dizer ingénuo) e o foco descritivo estreitíssimo: ficamos a conhecer ao pormenor cada peça de vestuário, cada toalha de mesa, cada lençol bordado, mas não encontramos, por exemplo, um único vislumbre decente de uma paisagem natural. E se os muitos idílios amorosos parecem saídos dos romances de Corin Tellado (com diálogos típicos das telenovelas da TVI), as cenas de sexo, essas, são um desastre. «Fora de qualquer espaço e de qualquer tempo», os amantes entregam-se a «um amor de bichos, um amor de deuses», com beijos «escaldantes» que às vezes sabem «a mel e pimenta», gritos de alegria, abraços de náufragos que desfalecem de prazer.
Outras fragilidades são menos desculpáveis. Ao explicar ao seu amante no passado (1908) alguns milagres tecnológicos ainda por acontecer, a protagonista refere-se às aplicações da electricidade: «Há máquinas para tudo. Fazer torradas, lavar a roupa e a loiça, moer a sopa e, com um toque num interruptor, acendes as luzes que quiseres.» O amante espanta-se, mas só porque não lê os jornais. É que o interruptor eléctrico foi inventado em 1884, a torradeira em 1906 e a máquina de lavar roupa no preciso ano em que esta parte da acção decorre. Uma consulta de cinco minutos no Google teria poupado à autora de A Flor do Sal estes embaraçosos anacronismos.
Avaliação: 3,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
Comentários
7 Responses to “As armadilhas de Cronos”
- Maravilhas da paternidade em 8 de Fevereiro de 2012
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Estou obnubilada, para não dizer abduzida, com esta sua crítica…
[...] As armadilhas de Cronos [...]
Bem, sobre este livro nada tenho a acrescentar porque não o li ainda mas, se a vontade não era assim tanta, e mais pela descrição da acção do que pelos comentários à prosa (esta troca de tempos já foi feito e mais que feito em tudo desde livros a filmes), não o lerei tão cedo.
[i]Cheers[/i]
Lá estou em a enganar-me na tag, ignorem por favor aqueles [i] ali em cima.
Cheers
Em Mau Tempo no Canal, também Margarida Dulmo descobre, numa casa antiga que pertenceu à família (o Granel), um retrato a óleo de uma antepassada que se lhe assemelha em tudo… e que também se chamava Margarida…
Não será também uma fragilidade desenraizar os personagens da mentalidade da sua época – no caso 1908 e actualidade – e querer reduzi-las todas a internautas como nós?…
maria árvore,
Ao falar da consulta ao Google, não me referia às personagens, mas sim à autora.