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As cicatrizes da memória

O Mundo
Autor: Juan José Millás
Título original: El Mundo
Tradução: Luísa Diogo e Carlos Torres
Editora: Planeta
N.º de páginas: 174
ISBN: 978-989-657-003-3
Ano de publicação: 2009

Há uma imagem que atravessa, com a energia de uma metáfora fundadora, este romance autobiográfico de Juan José Millás. Na oficina das traseiras, onde o pai reparava aparelhos de medicina, o pequeno Juanjo assiste aos testes, em bifes de vaca, do bisturi eléctrico inventado pelo progenitor: um instrumento que garantia ao mesmo tempo o golpe preciso e a sua cicatrização imediata. Anos mais tarde, ao mergulhar nas memórias de infância (desafiado pelo jornal El País, que lhe encomendou uma reportagem sobre si mesmo que nunca concluiu), tornou-se evidente a similitude entre aquele instrumento e uma caneta: «Quando escrevo à mão, num caderno, como agora, acho que me pareço um bocado com o meu pai quando estava a experimentar o bisturi eléctrico, pois a escrita abre as feridas e cauteriza-as ao mesmo tempo.»
As cicatrizes dos primeiros anos – da problemática mudança de Valência para Madrid (onde o esperava a pobreza e o frio) ao desatino adolescente que o levou ao seminário – são justamente a matéria-prima deste livro em que Millás se entrega à reinvenção literária da sua vida. Uma reinvenção feita em estado de transe, tocada por uma espécie de «febre» que transfigura a simples realidade dos factos. Tudo o que se narra pode ter acontecido, mas decerto que não aconteceu exactamente assim. A biografia é apenas a paisagem, o «cenário», o pretexto para a literatura.
Mais do que um romance, este livro é «um processo metabólico», uma coisa arrancada a ferros lá onde mais dói, um testemunho de quem atravessa o espelho sabendo que está a atravessar o espelho. Millás circula pelos espaços míticos da infância (a rua de Canillas, «espécie de maqueta do mundo» que reencontrará noutros lugares; a casa familiar; o imaginado Bairro dos Mortos) e reelabora vários momentos traumáticos (a relação difícil com a mãe; a perda do amigo Vitaminas; os descalabros amorosos; a dificuldade de deitar as cinzas dos pais ao mar). Mas estas deambulações são evocadas com um certo distanciamento, como se tudo aquilo – as euforias e as tragédias – fosse vivido por outrém, por essa personagem que construiu para si próprio e que vai, sintomaticamente, abandonar na última página.
Com a sua «textura onírica», algures entre a normalidade quotidiana e a esfera da alucinação (a «hiper-realidade» descoberta ao espreitar pela janela de uma cave, na mercearia do pai do Vitaminas, e que se tornará um ideal platónico para o narrador), O Mundo alterna estados delirantes, «frágeis como bolas de sabão», e momentos de uma lucidez implacável. Talvez porque é mínima a distância entre os extremos: «Às vezes sonho com uma escrita que me afunde e me eleve, que me adoeça e me cure, que me mate e me dê a vida.» É dessa escrita que se faz este livro magnífico.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]



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