As cidades visíveis

A Metrópole Feérica
Autores: José Carlos Fernandes (texto) e Luís Henriques (ilustração)
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 88
ISBN: 978-972-89557-9-3
Ano de publicação: 2008

O algarvio José Carlos Fernandes (n. 1964) costuma ser apontado, com toda a justiça, como o mais importante autor de Banda Desenhada português. O seu imaginário fantástico, apoiado numa superlativa qualidade de escrita, permitiu-lhe assinar ao longo dos anos várias obras magníficas, como os seis volumes da série “A Pior Banda do Mundo” ou A última obra-prima de Aaron Slobodj (2004) – ela própria, em nosso entender, uma obra-prima.
Desenhador mediano, Fernandes compreendeu que o seu traço, demasiado rígido e monótono, acabaria por limitar visualmente as suas histórias. Procurou então alguém capaz de mudar mais vezes de estilo do que a Cher muda de roupa durante um concerto ao vivo. No belíssimo Tratado de Umbrografia (Devir, 2006), percebeu-se que Luís Henriques (n. 1973) era o homem certo para a função. Com um talento camaleónico, este ilustrador sugeria atmosferas radicalmente diferentes para cada narrativa, mas com uma adequação estilística (e até cromática) que roçava a perfeição. A dupla regressa agora com A Metrópole Feérica, volume inicial de uma nova série, “Terra Incógnita”, a publicar pela Tinta da China. E o resultado final supera o que haviam conseguido com a primeira colaboração.
Organizado como um Atlas de Criptogeografia, «completo e fidedigno inventário cartográfico de cidades desaparecidas, impérios fabulosos, reinos utópicos & outras ocorrências lendárias», o livro descreve seis urbes soberbamente disfuncionais, modelos perfeitos da catástrofe humana. Em Fílon, «o teatro do mundo», leva-se à letra a ideia shakespeareana da vida enquanto representação num palco, com cada existência a ser determinada pelas deixas de pontos teatrais, escondidos em lugares estratégicos. Em Khamsin, é a circulação dos ventos (ou melhor, as trocas de chapéus por eles causadas) que altera e subverte a ordem social e económica da cidade. Manata, a metrópole feérica do título, sofre uma espécie de castigo bíblico, quando o seu esplendor – ao pé do qual «Babilónia, Alexandria, Roma, Constantinopla, Bagdad, Pequim, mais não foram do que pálidas estrelas» – acaba devorado pelos subprodutos do lixo excessivo que a prosperidade gera. Trabântia, a «sociedade perfeita» desenhada a traço grosso, com manchas de vermelho a emergir de um preto e branco baço, é uma poderosa metáfora sobre o afundamento dos regimes autoritários comunistas, mais os seus esquemas paranóicos de vigilância e controlo dos cidadãos. Com as suas paisagens aquáticas e difusas, Tangaroa, «o umbigo dos oceanos», aparece-nos saturada de melancolia, à medida que as marés de todo o mundo lhe trazem tristes despojos e os «cadáveres incorruptos» dos afogados. E, por fim, em Babel ergue-se a torre impossível que Deus destrói, conforme diz a lenda, para logo a substituir pelo mais irónico dos sucedâneos.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no número 75 da revista Ler]



Comentários

One Response to “As cidades visíveis”

  1. Bibliotecário de Babel – Listas on Janeiro 5th, 2009 1:47

    […] A Metrópole Feérica, de José Carlos Fernandes e Luís Henriques, Tinta-da-China […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges