As várias faces de um nómada
Anatomia da Errância
Autor: Bruce Chatwin
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 254
ISBN: 978-972-564-727-1
Ano de publicação: 2008
Após o seu desaparecimento precoce, aos 48 anos (e não aos 40, como deixa entender uma das badanas deste livro), Bruce Chatwin tornou-se uma espécie de ícone, um arquétipo do escritor que abandona os confortos da civilização para ir desenterrar histórias nos desertos dos antípodas. Publicada três anos antes da notável biografia de Nicholas Shakespeare (1999), esta compilação de prosas «ignoradas ou inéditas», anteriormente perdidas em «páginas de revistas, catálogos e jornais literários», reforça ainda mais a ideia de um Chatwin obcecado com certos conceitos – a vida nómada, o coleccionismo – e sempre brilhante, tomasse a sua escrita a forma de um ensaio, de um conto ou de uma crítica literária.
A primeira secção, assumidamente autobiográfica, é um bom exemplo de como se pode construir uma mitologia pessoal. Em “Sempre quis ir à Patagónia”, Chatwin resume a sua vida com enorme perícia narrativa: lembra os seus antepassados, evoca reminiscências infantis (a visita ao porto de Cardiff, durante a II Guerra Mundial, para ver o pai num caça-minas) e identifica-se com aquilo a que Baudelaire chamou «horreur du domicile», a necessidade de procurar horizontes para além das paredes da casa. Seguem-se as leituras de juventude, a passagem pela Sotheby’s (onde foi avaliador de arte), a desilusão com a arqueologia, os tempos do jornalismo no Sunday Times, até ao momento decisivo e romanesco por excelência: o do envio de um célebre telegrama («Fui para a Patagónia») que o libertou de todas as amarras. Depois disso, o livro escrito sobre as experiências no extremo sul da América foi só o princípio de um caminho que o levaria a outras longínquas paragens, da África à Austrália. Paradoxalmente, nos dois textos seguintes é de casas que se fala: o pied-à-terre londrino com uma decoração «abstracta» e a torre toscana de Beatrice von Rezzori, numa colina sobre o Arno, onde sempre trabalhou com proveito («e os lugares onde trabalhamos bem são os lugares que mais amamos»).
Na segunda parte reúnem-se quatro contos, dos quais se destacam “Leite” (1977), uma bizarra história de iniciação sexual de um jovem americano, muito loiro, no coração da África negra, e “O Património de Maximilian Tod” (1979), um exercício de estilo sobre os abismos a que pode levar a obsessão coleccionista, tema retomado mais tarde no romance Utz (1988). A terceira parte junta o resumo e esboços de um livro nunca publicado: A Alternativa Nómada. A quarta é uma amostra de Chatwin enquanto crítico literário polémico (por exemplo, vê em Robert Louis Stevenson um escritor inferior, «de segunda»). E a última inclui o melhor texto de todo o volume: “Entre as Ruínas”, uma deambulação pelas villas de «três narcisistas» que viveram na ilha de Capri e respectivos universos mentais.
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no número 73 da revista Ler]
Comentários
5 Responses to “As várias faces de um nómada”
- Melancólicas criaturas em 20 de Maio de 2012
- Primeiros parágrafos em 20 de Maio de 2012
- Um rato através da anaconda em 20 de Maio de 2012
- Os reflexos do mal em 19 de Maio de 2012
- O que aí vem (Esfera do Caos) em 19 de Maio de 2012
- Camané no ‘Avenida de Poemas’ em 18 de Maio de 2012
- Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’ em 18 de Maio de 2012
- Juan Marsé: “Ao romancista não basta a realidade, ele tem de ir sempre um pouco mais além” em 18 de Maio de 2012
- Cinco poemas de Liberto Cruz em 17 de Maio de 2012
- A pirâmide alimentar dos escritores em 17 de Maio de 2012


Receba por e-mail
Facebook
Twitter
Delicious
DoMelhor
feed RSS
email diário






Cada vez mais curioso em relação à obra de Chatwin de que sou um profundo ignorante…
Cheers
Quase tão bom quanto o Chatwin é o Claudio Magris e ninguém por aqui lhe liga um tusto. Você já leu l’Infinito Viaggiare? Mas deixe lá, se se contentar com o Chatwin, já vai magnificamente servido.
Com mil perdões.
M. Garcia, Claudio Magris, «l’Infinito Viaggiare”? Não me soa, mas o título “encorda-me” bem… Zé Mário, tens pistas?
Afinal, alguém que passou a vida a fugir de si próprio, a viver a realidade de longe, mesmo quando estava mesmo ao pé.
Esta “Anatomia da Errância” foi dos livros mais chatos que li este ano, uma completa sensaboria (para os meus gostos, claro); do Bruce Chatwin, o único
que gostei (e não é de viagens) foi “Os Irmãos de Black Will”.
Seve