Assassinos de colarinho branco

Os Homens que Odeiam as Mulheres
Autor: Stieg Larsson
Editora: Oceanos
N.º de páginas: 539
ISBN: 978-989-2302-37-9
Ano de publicação: 2008
Por muito que se queira isolar a obra de um autor do contexto biográfico, nem sempre o separar das águas é possível. Menos ainda no caso de Stieg Larsson (1954-2004), cuja carreira literária post-mortem potenciou, com a sua aura romanesca, a criação de um fenómeno editorial: primeiro no Norte da Europa, depois um pouco por todo o mundo. Jornalista de investigação, especializado em grupúsculos de extrema-direita e célebre pela denúncia do racismo escandinavo, Larsson começou a dedicar-se à literatura relativamente tarde, a partir de 2001. Escrevia histórias policiais à noite, apenas por prazer, após o trabalho na revista Expo (de que era chefe de redacção). O desprendimento era tanto que só decidiu procurar uma editora quando já tinha os dois primeiros volumes da trilogia «Millennium» completos e o terceiro quase pronto. Mas não chegou a ver nenhum deles impresso, levado por um ataque cardíaco que o transformou num autor póstumo particularmente bem sucedido, cujo património está de resto no centro de uma disputa legal.
O êxito de Larsson, diga-se, é mais do que justificado. Com uma construção narrativa perfeita e um ritmo febril (que cedo transformam a leitura num vício compulsivo), Os Homens que Odeiam as Mulheres lê-se numa penada, apesar das suas mais de 500 páginas. Começa por ser um «mistério-do-quarto-fechado», mas «à escala de uma ilha»: a ilha de Hedeby, reduto do clã Vanger, uma outrora próspera família industrial, agora decadente, ferida por rivalidades e pela sombra de terríveis segredos. Henrik, o patriarca, obcecado com o nunca esclarecido desaparecimento da sobrinha-neta Harriet, em 1966, contrata Mikael Blomkvist para estudar o caso e resolver o enigma, se tal for possível tanto tempo depois.
Blomkvist, jornalista caído em desgraça por ter denunciado, sem provas concludentes, um poderoso escroque da alta finança (Wennerström), alia-se a Lisbeth Salander, uma jovem hacker cheia de tatuagens e problemas de integração social. A dupla funciona às mil maravilhas, resolve o intrincado puzzle dedutivo – em que cada peça corresponde a um crime mais escabroso do que o anterior – e prossegue depois com um não menos exemplar cerco a Wennerström. Castiga-se o mafioso (por entre críticas implícitas à imprensa económica sueca, conivente com os desvarios capitalistas), salva-se do abismo a ameaçada Millennium, revista de que Blomkvist é sócio, e fecha-se com bravura um vasto arco ficcional que aborda ainda, sem falsos moralismos, o problema dos maus-tratos infligidos às mulheres nas sociedades contemporâneas.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no número 72 da revista Ler]
Comentários
7 Responses to “Assassinos de colarinho branco”
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O livro acaba de chegar ao Brasil, mas com uma capa mais inflamável.
1 abraço.
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