Atrás do balcão: Pedro Vieira

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32 anos, licenciado em Comunicação e Publicidade, trabalha na maior livraria do país

Depois de seis anos a assinar recibos verdes para a Câmara Municipal de Lisboa, onde trabalhava no pelouro da Juventude, achou que sabia fazer poucas coisas e atravessou o jardim do Campo Grande até à livraria que frequentava na hora do almoço. Por causa de uma carta de motivação escrita em tom atrevido, chamaram-no para uma entrevista na Bulhosa, que lhe deu um lugar na loja do Odivelas Parque. Pensou que seria uma hipótese de trabalho, uma forma de lidar com os livros, de que gostava, e que isso lhe poderia facilitar a integração e o dia-a-dia. Durou um ano e meio, esse período a que Pedro chama a sua “primeira encarnação na Bulhosa”. Seguiram-se mais dois anos e meio atrás do estirador, como designer gráfico, no Centro Cultural Olga Cadaval em Sintra, antes de reencarnar atrás de um balcão em Campo de Ourique. Esteve neste bairro desde que a Bulhosa tomou conta da antiga Barata. Saiu para fazer parte da equipa que abriria em Dezembro de 2007, ali ao lado, nas Amoreiras, a famosa livraria dos 3300 metros quadrados de superfície.

Cartão de leitor nos dias de folga
Os desenhos, a música pop e o jazz, bocados de conversas apanhados ao acaso, um roteiro da cidade em baixa definição — os interesses de Pedro Vieira estão à vista de todos no seu blogue, mas ele assegura-nos que não tem qualquer relação do género passional, com os livros ou seja com o que for. “Não tenho aquele discurso de que os livros são a minha paixão, morria se não os tivesse. Não ponho as coisas nesse pé, até porque acho que entram no campo da caricatura e dá-me vontade de rir.” Com ou sem paixão, irmaolucia gosta a sério dos livros e é isso que o leva, nos dias de folga da livraria, a procurar nas bibliotecas municipais o que não pode comprar. É frequentador assíduo de um edifício com “ar carcomido” na Calçada do Combro: “Tem uma vista espantosa para o Tejo, está sobre Santa Catarina, gosto imenso de lá ir; vou lá buscar aquelas coisas que a pessoa acha ‘se calhar não comprava isto, mas posso ler’ e recorro imenso ao empréstimo domiciliário.” Recentemente, tem vindo a trocar a Biblioteca Camões, no Largo do Calhariz, pela do Palácio Galveias: tem o maior catálogo e agora não se cinge às leituras presenciais. “Faço coisas disparatadas: vejo várias coisas que me interessam levar, sei que não vou ter tempo útil para ler aquilo e vou ter que as devolver. Sou um bocado garganeiro.”

Vampiro voyeur
A experiência no Odivelas Parque serviu para muito rapidamente desfazer qualquer resquício que pudesse ter da ideia romântica de livraria, “aquela história do velhinho de cachimbo, a folhear umas raridades, uma porta com uma sineta por onde entram sempre clientes interessantes”. Realmente isso não acontece. “Os livros estão nas prateleiras, alguém tem que os pôr e somos nós. E carregar com caixas e fazer devoluções não é assim tão divertido.”
Embora tenha ido parar ao negócio dos livros de uma forma circunstancial, imagina-se a ficar pelo ramo durante alguns anos, mas nunca pensou seriamente em fazer carreira dentro das livrarias. Gerir uma loja, por exemplo. “Acontece muito as pessoas que depois têm a responsabilidade de gerência de loja torrarem muito tempo nessas coisas e em burocracias. E isso não me agrada muito. Claro que gosto de acompanhar quando os vendedores vão à livraria e trazem as novidades, mas gosto mais do trabalho corrente, como as marcações de livros, que agora não tenho feito. Gosto disso. E do relacionamento com as pessoas também, embora às vezes funcione de uma forma um bocado vampiresca por causa do blogue. Esse contacto proporciona os momentos mais hilariantes. Alguns em que a pessoa fica zangada, humilhada, irritada, isso acontece-me. Se acontecer duas ou três vezes num dia, achas que nunca mais vai conseguir fazer aquilo, que lidar com o público realmente é uma porcaria. Mas também há coisas compensadoras. E outras em que me consigo abstrair e funciono um bocado como voyeur.”

Duelos na cidade
“Gostei muito de estar em Campo de Ourique. Só havia uma coisa de que eu não gostava particularmente: o negócio de jornais e revistas, porque cria muitos conflitos com os clientes. As reservas dos brindes, das socas da Caras e dos pins, mais os amuletos do 24 Horas e os santinhos. É uma coisa assustadora, mesmo. Fiquei com imensa admiração pelas pessoas que têm os quiosques, que estão sozinhas aí pela cidade.
Percebe-se que em Lisboa a geografia das livrarias conta muito, embora seja uma cidade pequena. Esta é a quarta onde estou. Os públicos variam muito e varia o comportamento das pessoas. Acho que nas livrarias se faz mais finca-pé, talvez para desafiar as pessoas que trabalham lá. Ou testá-las. Pode às vezes nem ser para envergonhá-las ou para humilhá-las, mas para fazer um teste, um confronto. São duelos.”

“Sida e Arte” e a Capela Celestina
“Têm acontecido coisas muito caricatas, como uma que descrevi há pouco tempo: um ex-presidiário foi à procura de pornografia para um seu suposto amigo. Outra: tínhamos um visitante recorrente em Campo de Ourique (um caso de problema mental mesmo sério, que agora parece estar mais controlado, pelo que tenho sabido), uma pessoa que ia lá ameaçar-nos de morte. Com música aos berros, cabelo e sobrancelhas rapados, vestido com uma gabardina, estava sempre a debitar: ‘I have my machine gun, I’m gonna kill you all‘, ‘Are you looking to me, bitch?‘, quando alguém olhava para ele. Mas depois vinha com um discurso articulado ao balcão, o que era completamente desconcertante. Depois, há episódios com clientes difíceis. Às vezes tem a ver com a educação das pessoas, às vezes com os pedidos insólitos e é preciso descortinar de que é que a pessoa está à procura. A coisa mais incrível que já ouvi foi procurarem pelo “Sida e Arte”. Era o Sidharta. As pessoas acabam por reconhecer, mas algumas fazem finca-pé, como a senhora que uma vez me pediu um livro sobre o pintor da Capela Celestina. E eu cometi o erro de emendá-la — percebo agora que, consoante a natureza da pessoa, temos de ser prudentes nisso. Emendei-a e foi como se estivesse a insultá-la, até chamou o marido, que estava no piso de cima da livraria. Acabei por desistir, por enfiar a viola no saco e dizer: ‘Eu realmente sobre a Capela Celestina não tenho nada.’ Depois o marido lá a chamou à razão e ela lá reconheceu. Mas acho que isto tem a ver com o atendimento ao público, não necessariamente com a livraria, com o objecto livro.”

Duas sugestões entre o sabonete e o caviar
“Há dois autores que tento sempre impingir. Um deles não é best-seller a uma escala Rodrigues dos Santos, mas acho que é reconhecido pelas massas: é o [Arturo Pérez-]Reverte. Adoro aquelas aventuras. Tanto as de capa e espada como as que embrulham a História no quotidiano. E então quando o cliente procura alguma coisa para interessar alguém que gosta de mistério, ou que gosta muito de romances que metam História ao barulho, tento desviá-lo dos sucedâneos do Código Da Vinci e tento encaminhá-lo para aí. Acho que ele consegue fazer muito bem essa síntese de História, aventura e mistério. Parece um escritor à moda antiga. Há um livro de que eu sou fã absoluto: A Tábua de Flandres. Para mim foi uma revelação, foi o primeiro livro que li dele e fiquei mesmo rendido. Não é nem sabonete nem caviar, é assim uma coisa que está algures no meio. A minha relação com os livros também é um bocado assim. Nunca tive muita pretensão de conhecer os grandes autores, sou uma nulidade em clássicos, passei completamente ao lado de coisas que são incontornáveis. E por outro lado, acho que consigo fugir ao lixo literário.
Outro autor com quem deliro completamente transformou-se numa espécie de ícone pop. É o Boris Vian. Foi uma descoberta que tento também mostrar às outras pessoas. Não sou particularmente romântico, mas há um livro dele, que é A Espuma dos Dias, que é delicioso. É, sem dúvida, um dos livros que mais gostei de ler até hoje e tento sempre “impingi-lo”. Mas sei que a pessoa pode achar completamente disparatada a cena da enguia que sai de dentro do lavatório ou a do senhor que quer curar a mulher que tem um nenúfar nos pulmões e só o quarto cheio de flores é que consegue fazer com que ela recupere. Quando tenho hipótese de brilhar, são esses dois autores que recomendo.”

[Texto: Margarida Ferra; Ilustração: autoretrato de Pedro Vieira]



Comentários

6 Responses to “Atrás do balcão: Pedro Vieira”

  1. joao leal on Fevereiro 4th, 2008 10:53

    bom, é isso mesmo. Está tudo aí. É mesmo assim a nossa profissão. Há ainda a venda de livros na net, que também tem as suas especificidades dentro do negócio do livro.

  2. Ricardo on Fevereiro 4th, 2008 11:13

    Porque é vcs que bloquearam a leitura integral dos artigos por RSS? Agora só temos direito a duas linhas miseráveis no Google Reader… Poderiam resolver isso por favor? Os vossos leitores agradecem.

  3. maria árvore on Fevereiro 4th, 2008 14:43

    A entrevista está fabulosa na forma humorada como mostra um Pedro Vieira tal como ele é. A leitura quase dá vontade de lhe criar um clube de fãs.

    Pena que não se tenha encaixado também o entrevistado atrás da mesa de mistura de DJ.

    ( e como sou coca-bichinhos, refiro que os nomes são Biblioteca Camões no Largo do Calhariz)

  4. José Mário Silva on Fevereiro 5th, 2008 0:51

    Está feita a correcção, maria árvore.

  5. Papo-seco on Fevereiro 6th, 2008 10:18

    Ai a “Espuma dos dias”

    Que grandes conversas teria o Boris Vian com o Irmão Lucia. E que loucas não seriam

    Está um belíssimo retrato

    Parabéns aos dois

  6. Bibliotecário de Babel » Blog Archive » “Atrás do Balcão” passa a rubrica quinzenal on Fevereiro 11th, 2008 0:16

    […] quem tenha vindo espreitar o blogue à procura da série que estreámos há uma semana, com o perfil do Pedro Vieira, um esclarecimento: por motivos profissionais, a Margarida Ferra só poderá assegurar este espaço […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges