Balanço final do Booker 2008

Na noite de terça-feira (14 de Outubro), quando a gala de entrega do Man Booker Prize chegou ao fim, o escritor indiano Aravind Adiga não cabia em si de contente. Aos 33 anos, o seu romance de estreia, The White Tiger (Atlantic Books), acabara de receber o mais prestigiado dos prémios literários de língua inglesa, a que podem concorrer obras publicadas no Reino Unido e na Commonwealth. Além do cheque de 50 mil libras (cerca de 64 mil euros) e da consagração precoce, a vitória no Booker garante-lhe um efeito multiplicador nas vendas capaz de transformar em poucos dias o seu livro, que até ao momento vendera apenas cinco mil exemplares, num bestseller.
Adiga é o segundo mais jovem vencedor de sempre – atrás de Ben Okri, que conseguiu o feito aos 32 anos, em 1991 – e apenas o quarto romancista a ganhar o Booker com uma primeira obra, depois de Keri Hulme (1985), Arundhati Roy (1997) e DBC Pierre (2003). Curiosamente, até chegar ao palco do Guildhall, em Londres, onde levantou o troféu, foi deixando sucessivamente para trás dois pesos-pesados da literatura indiana: primeiro Salman Rushdie, que não passou da longlist de 13 títulos, com A Feiticeira de Florença (já nas livrarias portuguesas, editado pela Dom Quixote); depois Amitav Ghosh, um dos seis finalistas, mas que viu o seu Sea of Poppies (Mar de Papoilas) ser devorado pelo tigre branco.
Ao contrário do que aconteceu noutros anos, esta não foi uma vitória por unanimidade. «Houve luta renhida até ao fim», admitiu Michael Portillo, presidente do júri – de que também fizeram parte Alex Clark, crítica literária e editora da revista Granta; a romancista Louise Doughty; James Heneage, fundador da rede de livrarias Ottakar; e o radialista Hardeep Singh Kohli. A última reunião do júri terá sido marcada por um «debate apaixonado» e «emocionalmente esgotante». Ombro a ombro com The White Tiger esteve «um outro romance», cujo título não foi divulgado, provavelmente A Fraction of the Whole, do australiano Steve Toltz, outro estreante, que para mim era o melhor dos seis romances a concurso. Mais consensual e acessível ao grande público, o livro de Adiga é, ainda assim, uma escolha que se compreende e aplaude.

A estrutura narrativa de The White Tiger não podia ser mais simples: um “empresário” espertalhão e sem escrúpulos, chamado Balram Halwai, escreve sete longas cartas ao primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, a poucos dias da sua visita oficial à Índia. Convicto de que os «amarelos» e os «castanhos» vão dominar em breve o mundo, pelo menos no plano económico, ele quer explicar a Jiabao as razões do sucesso dos «empreendedores» indianos, partindo da sua exemplar história de self made man. Exemplar é como quem diz. Halwai sobe a pulso na escala social, de motorista a dono de uma empresa de transportes (ao serviço dos grandes call centers de Bangalore), mas essa ascensão é feita à custa de todo o tipo de atropelos éticos, crimes e gestos amorais.
Nascido no coração da Índia, junto às margens negras do Ganges (negras por causa das cinzas que sobram das piras funerárias), Halwai cumpre o sonho que é negado a milhões de outros miseráveis como ele: sair da Escuridão («Darkness») – onde os búfalos trabalham nos campos, as pessoas morrem de tuberculose em hospitais sem médicos e os caciques fazem o que querem – a caminho da Luz representada pelas cidades modernas, a abarrotar de centros comerciais e empresas informáticas de ponta, cujas acções são negociadas na Bolsa de Nova Iorque.
São estas duas Índias, com os seus contrastes chocantes e os seus pontos de contacto (a corrupção, por exemplo, que surge em todos os níveis da sociedade), são estas imagens extremas de um país contraditório que Adiga explora com uma inteligência e uma subtileza raras, fazendo do seu livro uma parábola, ao mesmo tempo divertida e violenta, sobre o lado mais sombrio do milagre económico indiano.
Foi de resto esta capacidade de fugir à visão de uma Índia tradicionalista e exótica, trocando-a pelo choque frontal com a realidade dos nossos dias, que seduziu o júri do Booker. «Este é um livro que vai até ao limite, mostrando uma face da Índia que muitos leitores ocidentais talvez não conheçam», disse Portillo, destacando ainda o modo como Adiga aborda «temas sociais muito importantes», como o abismo entre ricos e pobres ou a questão das castas (que Halwai, o protagonista, simplifica ao dizer que só existem duas: a dos «homens com barriga grande» e a dos «homens com barriga pequena»).
Arvind Adiga nasceu em 1974, em Madras, viveu na Austrália e frequentou universidades norte-americanas (Columbia; Oxford). Como jornalista especializado em temas económicos, foi correspondente da revista Time e colaborador do jornal Financial Times. Numa entrevista dada ao site BookBrowse, Adiga explicou que a sua experiência profissional lhe permitiu perceber a infinita distância que separa o discurso economês hiper-optimista do quotidiano concreto dos indianos comuns. Ao viajar pelo país, passou horas e horas a ouvir o que as pessoas diziam nas estações de comboio e nas paragens de autocarro: «Quis fixar esse murmúrio contínuo que ninguém se dá ao trabalho de registar. A minha personagem, Balram Halwai, é uma mistura de vários homens que fui encontrando nessas viagens.»
Criado há 40 anos para ocupar no mundo anglófono um estatuto semelhante ao do prémio Goncourt, o Booker Prize é hoje muito mais importante, tanto em termos mediáticos como comerciais, do que o seu «rival» francês, ficando apenas aquém do Prémio Nobel. Esta influência, que reflecte o predomínio cada vez maior da língua inglesa num mundo globalizado, foi notório em 2007, quando metade da shortlist do Booker (Ian McEwan, Lloyd Jones e Mohsin Hamid) já estava editada em Portugal aquando do anúncio do prémio. Este ano, pelo contrário, nenhum dos seis finalistas teve essa sorte, embora se saiba que o livro de Linda Grant será publicado na Primavera (pela Civilização). Quanto aos direitos do romance de Adiga, alguém já os deve estar a negociar neste momento. E ainda bem.

Os finalistas derrotados:


A Fraction of the Whole, de Steve Toltz

O Man Booker Prize deste ano valeu sobretudo pelos dois estreantes. Além de Aravind Adiga, o vencedor, houve Steve Toltz, um genial australiano que resolveu fazer do seu primeiro romance um deslumbrante tour de force: caótico, filosófico, labiríntico, divertidíssimo e sem o mínimo sentido das proporções. Ao longo das suas 710 páginas, acompanhamos a complexa relação de Jasper Dean com o seu pai, Martin, e deste com o seu irmão, Terry (um criminoso que se torna o homem mais idolatrado da Austrália quando começa a assassinar, com requintes de malvadez, desportistas que se deixam corromper). No caso desta obra, qualquer tentativa de sinopse é vã, tantas são as linhas narrativas e os «livros dentro do livro» com que Toltz vai criando um universo proliferante e agónico, em que as tragédias se sucedem e cada uma consegue ser pior do que a anterior. Ostensivamente talentoso, capaz de oscilar entre a melancolia e o sarcasmo num décimo de segundo, Toltz tem uma concepção épica da literatura, como se esta fosse um lugar onde tudo pode ainda acontecer. Se tivesse feito parte do júri, era em The Fraction of the Whole que eu votaria.


The Secret Scripture, de Sebastian Barry

Num hospital psiquiátrico prestes a ser demolido, perto de Sligo (costa oeste da Irlanda), uma mulher centenária começa a desenrolar o longo novelo das suas memórias, um lento exorcismo que a transporta até aos anos duríssimos da guerra civil irlandesa, na década de 20 do século passado, e à raiz do seu trauma psicológico (uma terrível história de exclusão familiar). Em simultâneo, o médico que a acompanha atravessa o deserto do luto, provocado pela morte da mulher, e debate-se com um vazio existencial contra o qual não consegue lutar. No romance de Barry, estas duas vozes desoladas chegam-nos através dos respectivos diários, num processo de aproximação entre dois seres humanos – dois náufragos – que chega a ser arrebatador e comovente, mas perde alguma força devido a um desenlace tão inesperado quanto inverosímil. A escrita deste autor, que já fora finalista do Man Booker Prize em 2005 (com A Long Long Way), faz lembrar, pela limpidez e lirismo, a do seu compatriota John Banville. Seria uma pena que este romance não fosse traduzido, em breve, no nosso país.


The Clothes on their Backs, de Linda Grant

Na Londres dos anos 70, Vivien, uma rapariga que sempre viveu demasiado protegida pelos pais (um casal de imigrantes húngaros, tímidos e paranóicos), começa a acordar para a vida, para o sexo e para a política, centrada por aqueles dias no combate contra a intolerância racista da extrema-direita. Quase por acaso, reencontra um tio proscrito, Sandór Kovacs, em tempos condenado por explorar inquilinos, um homem fascinante e com uma história ainda mais fascinante para contar. Ao entrevistá-lo, com vista a escrever um livro biográfico, é todo o passado escondido da sua família que vem à superfície. Grant assina um ameno e subtil exercício de nostalgia.


Sea of Poppies, de Amitav Ghosh

Tendo como pano de fundo as Guerras do Ópio, Ghosh construiu um romance histórico à moda antiga, com uma investigação cuidada e um enorme rigor nas descrições (seja de uma cidade, ou da vida a bordo de um navio negreiro, ou do calão colonial oitocentista). Só que, por muito exactos e fiéis à realidade que sejam os factos em que Ghosh se apoia para criar a sua ficção, não creio que haja grandes razões para nos congratularmos. Um romance deve ser um espaço de liberdade criativa, não um manual de História. E liberdade criativa é aquilo que mais falta neste livro. Há algumas passagens que nos empolgam? Sim, há. Mas são poucas. O sentimento predominante é o tédio.


The Northern Clemency, de Philip Hensher

A primeira metade desta saga familiar em grande escala (738 páginas) dá a entender que Hensher é um bom escritor, digno do Booker Prize. A segunda metade mostra que Hensher não ganhará o prémio enquanto não tiver um editor mais exigente (capaz de cortar os excessos e as redundâncias da sua prosa torrencial). Centrado em Sheffield, com ramificações em Londres e na Austrália, o livro acompanha pessoas comuns através das suas pequenas e grandes tragédias, das suas alegrias e equívocos, num arco temporal que vai de 1974 a 1994, com os anos Thatcher (e as greves dos mineiros) pelo meio. Podia ser um clássico. Infelizmente, é só um flop.

[Versão revista de textos publicados no suplemento Actual do Expresso de 18 de Outubro]



Comentários

5 Responses to “Balanço final do Booker 2008”

  1. Bibliotecário de Babel – ‘O Tigre Branco’ vai para a Presença on Outubro 30th, 2008 15:02

    […] a Presença acaba de obter os direitos para Portugal do romance The White Tiger, de Aravind Adiga, recente vencedor do Man Booker Prize. Recorde-se que a Presença já assegurara, em Frankfurt, a publicação do outro finalista indiano […]

  2. Bibliotecário de Babel – Sebastian Barry ganhou o Costa Award para melhor romance on Janeiro 8th, 2009 15:22

    […] literários Costa 2008 com The Secret Scripture (Faber & Faber). Sobre o livro, escrevi aqui e aqui. No final de uma das notas, alertei: «Seria uma pena que este romance não fosse traduzido, em […]

  3. O fogo | Bibliotecário de Babel on Fevereiro 11th, 2009 23:43

    […] lembrei-me logo de três magníficas e terríveis páginas do romance A Fraction of the Whole, um dos finalistas do Man Booker Prize, escrito precisamente por um autor australiano (Steve Toltz): «Then I saw it. The sky. Fat cones […]

  4. ‘O Tigre Branco’ (booktrailer) | Bibliotecário de Babel on Abril 3rd, 2009 11:43

    […] Aravind Adiga no romance, premiada com o Man Booker Prize 2008, já anda por aí. A sua leitura é mais do que recomendável, sobretudo na semana em que o G20 se reuniu em Londres para discutir o estado comatoso da economia […]

  5. “I didn’t consciously write these stories to have a message. This is what came out” | Bibliotecário de Babel on Agosto 12th, 2009 8:35

    […] Adiga, autor de Tigre Branco (Man Booker Prize 2008), em entrevista ao The […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges