Balanço final do Goncourt 2008

Tal como os homens não se medem aos palmos, os livros não se medem pelo número de páginas. Que o diga Atiq Rahimi, o escritor franco-afegão que ganhou a semana passada o Goncourt, o mais importante dos prémios literários franceses, com Syngué sabour – Pierre de patience (P.O.L.), um romance de apenas 155 páginas, deixando para trás Une éducation libertine, de Jean-Baptiste Del Amo (Gallimard, 431 págs.), La Beauté du Monde, de Michel Le Bris (Grasset, 679 págs.), e Là où les tigres sont chez eux, de Jean-Marie Blas de Roblès (Zulma, 766 págs.).
O triunfo do David sobre os Golias foi anunciado dia 10, em Paris, como sempre depois de um almoço que reuniu, no restaurante Drouant, os dez membros da Academia Goncourt – conclave de que passaram a fazer parte Tahar Ben Jelloun e Patrick Rambaud, em substituição de François Nourissier e Daniel Boulanger, que se demitiram no início deste ano, por razões de saúde.
Rahimi venceu com sete votos, contra três para Michel Le Bris. A presidente do júri, Edmonde Charles-Roux, justificou a atribuição com «as qualidades literárias, o rigor, a precisão e a recusa da ênfase». Enquanto mulher, mostrou-se ainda tocada pelo solilóquio de uma afegã desamparada. «É um livro que defende a causa feminina e o Goncourt também quis recompensar uma obra com mensagem social.»
Ao contrário de outros grandes prémios literários, como o Man Booker Prize (Reino Unido), o Prémio LeYa (Portugal) ou o Planeta (Espanha), o Goncourt não oferece dezenas ou centenas de milhares de euros ao vencedor. Neste caso, o cheque é apenas simbólico (dez euros), mas o impacto mediático do prémio acaba por lançar o livro distinguido para o topo das listas de vendas, durante meses a fio.
Ao saber que tinha ganho, Atiq Rahimi, que esperava pela decisão no célebre Café de Flore, sublinhou o facto de o prémio distinguir o primeiro livro que escreveu directamente em francês: «Para mim, o que é extraordinário é que durante os meus muitos anos de exílio aqui em França [chegou em 1985, hoje tem dupla nacionalidade] nunca me senti capaz de escrever na minha língua de adopção. Foi preciso regressar ao meu país para conseguir isso. No fundo, torno-me mais francês quando estou no Afeganistão, como antes me tornava mais afegão ao vir para Paris.» E sublinhou a sua condição bilingue: «Estou sempre à procura de algo de misterioso que acontece entre estes dois idiomas magníficos.»
Rahimi mostrou-se ainda espantado com o facto de muitos leitores associarem de imediato Syngué sabour ao seu país de origem, quando, ao contrário do que acontecia nos dois primeiros romances (editados em português pela Teorema), «nenhuma das personagens é nomeada, nem a guerra em causa, nem o território». Efectivamente, logo no início do livro há uma frase que localiza a narrativa «algures no Afeganistão ou noutro lugar qualquer», mas, por muito que Rahimi procure uma universalidade para aquilo que conta, a atmosfera do livro remete sempre para uma Cabul em escombros e a dedicatória (a uma «poeta afegã selvaticamente assassinada pelo marido») legitima a associação feita pelos primeiros leitores da obra.
Syngué sabour é, acima de tudo, um «tour de force» narrativo. Muito ao seu estilo, elíptico e poético, Rahimi descreve o quotidiano repetitivo de uma mulher que trata, com mais zelo que compaixão, do seu marido – um herói de guerra que tem uma bala enfiada na nuca e está numa espécie de coma. Embora continue a respirar, não ouve, não vê, não reage a estímulos, nem mesmo quando o quarto é invadido por soldados que lhe esmagam o peito com a bota. A mulher lava-o, alimenta-o à base de água açucarada, enfrenta o silêncio dele e os tiroteios em volta, foge com as filhas para casa de uma tia, mas volta sempre. Volta sempre porque ele transformou-se na sua «syngué sabour», uma «pedra da paciência». Segundo a mitologia persa, esta pedra mágica absorveria, como uma esponja, todos os segredos, misérias e sofrimentos de quem lhe dirige a palavra. Um dia, a pedra racha e com ela desaparecem os segredos, misérias e sofrimentos confessados.
Diante do marido, que a maltratava por princípio e nunca se deixou amar, a protagonista desfia ressentimentos, revoltas sufocadas ao longo dos anos e muitos pormenores da sua sexualidade, com que ele nem sequer sonharia. No fim, a pedra racha, como era suposto, mas a libertação é só ilusória e o livro acaba em tragédia. Uma tragédia teatral, de uma violência explosiva, pouco realista, e que deixa o leitor entre a melancolia e o desconsolo.
Carlos da Veiga Ferreira, editor da Teorema, já tinha comprado os direitos de Syngué sabour há uns meses, antes ainda de o livro ser seleccionado para as fases finais do Goncourt. A tradução portuguesa, já em curso (por Carlos Correia Monteiro de Oliveira), será publicada no início de 2009.

Os finalistas derrotados:


La Beauté du Monde, de Michel Le Bris

Na reunião final da Academia Goncourt, o único dos quatro romances finalistas que deu luta a Syngué Sabour foi esta sólida abordagem ficcional à vida de Martin e Osa Johnson, um famoso casal de exploradores norte-americanos que fizeram furor, nos anos 20 e 30, com uma série de filmes sobre as suas expedições em África e no Bornéu — precursores dos melhores documentários sobre a vida animal. Com uma fluidez narrativa impressionante, Le Bris mergulha-nos no mundo dos «amantes da aventura», obcecados com a descoberta de regiões inexploradas mas também com a glória pessoal que esses feitos lhes podiam trazer. A história é contada por Winnie, uma escritora inexperiente que é contratada para redigir a biografia de Osa, em 1937, logo após a morte de Martin num acidente. Além da minuciosa reconstituição das viagens e deambulações pelo Quénia, à procura de uma beleza essencial e edénica, escondida em paisagens intocadas pelo homem, o livro vale sobretudo pela épica evocação de Nova Iorque nos anos 1920-1921, com o jazz a explodir nos clubes do Harlem e as míticas tertúlias intelectuais do Hotel Algonquin, em que pontificavam Dorothy Parker e Zelda Fitzgerald, a fogosa mulher de F. Scott Fitzgerald.


Une éducation libertine, de Jean-Baptiste del Amo

Quando Gaspard, um jovem bretão de 19 anos, chega pela primeira vez a Paris, no Verão de 1760, encontra um cenário dantesco. Derretida pela canícula, a cidade é o «umbigo imundo e mal cheiroso da França», mas o campónio de Quimper, habituado a criar porcos, não se incomoda por aí além, mesmo quando é forçado a dormir num beco, à mercê de ratos e pulgas. A sua intenção é subir na escala social, o que consegue aos poucos, passando do trabalho mais duro que se possa imaginar, enterrado no lodo do Sena, para o relativo conforto do atelier de um fazedor de perucas, e daí para o convívio com os muito ricos, no fausto fútil e extravagante dos salões aristocratas. Uma ascensão nem sempre fácil, que o leva muitas vezes por ínvios caminhos, incluindo descidas aos infernos do bas fond parisiense, reino dos bordéis manhosos, e uma entrega consciente à prostituição de luxo (pondo o corpo ao serviço da lascívia de condes e barões casados). Surpreendente primeiro romance de um jovem autor de 26 anos, que vive em Montpellier, Une Éducation Libertine revela um enorme talento literário, denso e torrencial. Numa época de conformismos, Del Amo arrisca escrever no fio da navalha, sem medo de perder o pé (o que por vezes acontece). Este desassombro, porém, é o sinal de que pode vir a ser um grande escritor.


Là où les tigres sont chez eux, de Jean-Marie Blas de Roblès

O título do romance gigantesco de Roblès, um especialista em arqueologia submarina que lhe dedicou dez anos da sua vida, foi retirado de uma citação de Goethe usada como epígrafe: «É forçoso que as nossas ideias mudem num país onde os elefantes e os tigres se sentem em casa.» O país onde a acção decorre — o Brasil — não tem elefantes nem tigres, mas a forma como o pensamento se altera nos trópicos está no centro desta engenhosa máquina ficcional, em que as linhas narrativas se multiplicam, nunca deixando de formar um todo coeso. Eléazard von Wogau, um jornalista desterrado nos confins do Nordeste (onde é correspondente de uma agência de notícias francesa), vê um dia cair-lhe nas mãos uma biografia inédita de Athanase Kircher, jesuíta alemão do século XVII, um homem genial que desbravou caminhos em várias áreas do saber. À medida que mergulha no universo fascinante do padre barroco, Eléazard vai-se relacionando com uma vasta galeria de personagens que reflectem as grandezas, contradições e zonas sombrias do Brasil contemporâneo, das favelas de Pirambú aos negócios sujos da política local. Ao contrário dos outros romances finalistas, Là où les tigres sont chez eux não se limita a contar uma história o melhor possível, antes desafia, com erudição e sentido lúdico, os limites do género — razão pela qual lhe atribuiríamos o Goncourt, se nos coubesse votar. De qualquer modo, os vários prémios recebidos pelo livro até agora — Médicis, Jean Giono e Prémio de Romance da Fnac — servirão certamente de consolo.

[Textos publicados no suplemento Actual do Expresso]



Comentários

2 Responses to “Balanço final do Goncourt 2008”

  1. Capa da edição portuguesa do Goncourt 2008 | Bibliotecário de Babel on Janeiro 11th, 2009 20:11

    […] romance Pedra-de-Paciência, com que Atiq Rahimi ganhou o Prémio Goncourt, em Novembro, está prestes a sair do prelo, com chancela da Teorema e tradução de Carlos Correia […]

  2. O inferno dentro de quatro paredes | Bibliotecário de Babel on Fevereiro 21st, 2009 9:18

    […] Nadia Anjuman, uma «poetisa afegã selvaticamente assassinada pelo marido», Pedra-de-paciência (vencedor do Prémio Goncourt 2008) pode ser lido como uma narrativa de denúncia contra os maus tratos a que são submetidas as […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges