Bazófias de um bestseller

A pretexto do lançamento, hoje, do seu último romance (A vida num sopro, Gradiva, 613 páginas), José Rodrigues dos Santos deu uma entrevista a João Céu e Silva que ocupa as páginas centrais do Diário de Notícias. Eis alguns excertos:

«(…) Os meus romances são muito meus. Não conheço nenhum autor que escreva os romances como eu os escrevo(1). Esta escrita faz parte da minha identidade, é como se fosse uma espécie de impressão digital literária. Não quer dizer que não haja influências. Se calhar temos aqui um pouco de Somerset Maugham, um pouco de Isabel Allende, um pouco de Jeffrey Archer, um pouco de Eça(2), mas isso não é consciente.

(…) Sinto-me à vontade com qualquer género, o que importa é que eu e o leitor tenhamos prazer(3).

(…) Desconheço o que seja o famoso bloqueio de escritor. Não estou a duvidar que exista, mas realmente nunca passei por tal experiência(4). Construo o livro na minha cabeça e o problema é os meus dedos serem suficientemente rápidos para acompanhar as ideias que fluem da minha mente(5).

(…) O Codex 632 foi um romance concebido especificamente para o público português. Fala sobre coisas portuguesas partindo do pressuposto de que o público as conhece. Por exemplo, em Portugal eu posso dizer “Escola de Sagres” sem ter de explicar o que era. Mas, para um público americano que não está naturalmente familiarizado com os pormenores dos Descobrimentos, tal referência seria críptica. Tivemos, por isso, de baixar o nível de exigência do texto de modo a que ele fosse mais bem compreendido pelos leitores americanos. Isso foi algo que aceitei como uma evidência(6).

(…) Existe uma elite cultural que não gosta de sexo à portuguesa(7) nos livros e quer agora que isso se estenda a todo o público. Acha essa elite que só o sexo na literatura estrangeira(8) é que é bom.

(…) Lembro-me de há uns três ou quatro anos ter recebido um e-mail de uma leitora que dizia o seguinte: vejo na televisão e nos jornais dizerem que temos grandes escritores, livros e obras, e concluo que os burros devem ser os leitores, porque está toda a gente a ler os espanhóis, ingleses, americanos ou franceses e ninguém pega nos portugueses. Temos supostamente grandes autores, mas ninguém os consegue ler, são intragáveis(9). Mas como ninguém os pode culpar, porque são tão bons que ai daquele que os criticar, a culpa é sempre dos leitores. Grande parte dos escritores portugueses gosta de uma escrita experimental(10), mas a generalidade dos leitores(11) detesta-a. Creio que foram justamente esses leitores que eu fui buscar(12)

(1) Já António Lobo Antunes diz o mesmo.
(2) Isto é, o mais descabelado e intragável pot-pourri da História da Literatura.
(3) Se o orgasmo for simultâneo, ainda melhor.
(4) Tradução: eu sei que há escritores preguiçosos, mas eu não sou um deles.
(5) Nada que a tecnologia não resolva um dia destes.
(6) A evidência de que um autor, para ter sucesso, não precisa de coluna vertebral.
(7) Sexo à portuguesa, para quem não sabe, é uma coisa que pode envolver erecções gigantescas provocadas pela simples sugestão de uma sopa de peixe feita com leite saído directamente das mamas de uma estudante de Erasmus sueca (cf. aqui).
(8) Sexo banal, sem sopa de peixe nem leite Erasmus.
(9) Reparem na deliciosa ambiguidade que nasce de não sabermos se esta frase ainda constava do e-mail da leitora ou já pertence a Rodrigues dos Santos.
(10) Quem me dera. Onde é que eles estão? Como é que se chamam? Nomes, exijo nomes.
(11) Especialmente os que se dão ao trabalho de escrever e-mails.
(12) E quem diz buscar, diz salvar.



Comentários

60 Responses to “Bazófias de um bestseller

  1. Jorge on Outubro 23rd, 2008 16:40

    …a referência à “Escola de Sagres”, ao “críptico”… isso terá algo a ver com a terceira experiência de Encontros Imediatos referida por Hogdman, vivida “na ponta” de Sagres?

  2. Luis Miguel Brocha on Outubro 23rd, 2008 17:26

    Morcón, este Zézinho… Tirem-lhe as peneiras e as câmaras da têbê, e ficam com um Urbano Tabares Rodrigues de pacotilha. E só de me lembrar daquela sopa de peixe com leite de sueca, até me dá bómitos, catano!

  3. gonçalo l.furtado on Outubro 23rd, 2008 18:16

    Concordo com as críticas…entao aquela subtiliza de mistura de quem é quem…:)..este tipo é dos escritores medíocres…dos que sonham em dar uma numa sueca de noite…

    José Mário, tens um grande escritor, e novo por sinal, que começa a ser muito falado pelos meios académicos e não só, dada a sua escrita experimental e apelidada por alguns como sendo “genial”: Nuno Viana. Conheces?
    Eu já li um livro dele e fiquei fã, foi o “Dizer-te Depois do Mundo”. Alucinante.

    Continua com o bom trabalho e com este cantinho de que tanto gosto.
    um abraço.

  4. Eduardo Serra Lopes on Outubro 23rd, 2008 18:19

    o sucesso subiu à cabeça do José Rodrigues dos Santos. Não me referindo em particular a nenhuma passagem, destaco o tom em que ele fala… como se fosse o melhor romancista portugues.

  5. Patti on Outubro 23rd, 2008 18:25

    Já tinha lido a entrevista completa e fiquei abismada com a modéstia do senhor.
    Os pontos 2 e 9, são de tal modo absurdos que ainda na entrevista, voltei a reler tal foi o meu espanto com a ignomínia do sujeito.

  6. fallorca on Outubro 23rd, 2008 19:03

    Phonix! Até te deste ao trabalho de fazer notas de rodapé 😀

  7. Jorge Pereira on Outubro 23rd, 2008 20:31

    Estas criticas nao fazem sentido. Jose Rodrigues dos Santos provavelmente nao sera um grande escritor mas quem ler o Codex entende o que la se passa. Is nao acontece se uma pessoar tentar ler Que Farei Quando Tudo Arde? de Antonio Lobo Antunes. Cada escritor tem o seu valor. Vamos deixar de ser snobs.

    (Desculpem a falta de acentos, estou a escrever num teclado Americano.)

  8. Patti on Outubro 23rd, 2008 20:34

    Jorge Pereira, desculpe que lhe diga, mas se ler a entrevista na íntegra, quem está a ser snob é o José Rodrigues de Santos.
    Aqui não se está a falar só e unicamente do escritor e do que ele escreve mas do que ele disse.

  9. Menphis on Outubro 23rd, 2008 21:53

    A melhor de todos os pontos é o 6 e o título do post é fabuloso.

  10. Jorge on Outubro 23rd, 2008 23:15

    …não comento a obra de quem não leio, mas hoje, na Sábado, uma capa preenchida pelo rosto de José Rodrigues dos Santos, e “A Estraordinária História da Minha Vida”. …por isso, foi fácil sentir empatia com este post. Quanto à história (ou estória)? Ainda a não li. Receio que, por comparação, seja forçado a ter de considerar a minha simplesmente… ordinária.

  11. Luís Graça on Outubro 24th, 2008 0:34

    Sexo e comida? Qual a novidade? Sopa de peixe e leite?
    Olha, olha…
    Lembram-se de “Feios, porcos e maus”, de Scola? De “Nove semanas e meia”? De “A grande farra”, de Ferreri?

  12. Jorge Pereira on Outubro 24th, 2008 2:04

    Patti, eu nao li a entrevista, excepto o excerto neste blog. De qualquer forma, acho esta conversa sem muito sentido. Sera que nos estariamos a discutir isto, se fosse o Jose Saramago, Antonio Lobo Antunes ou a Lidia Jorge que tivessem dado esta entrevista? Ou sera esta conversa o resultado dum certo ciume pelo sucesso do Jose Rodrigues dos Santos? Eu nao estou aqui a defender o homem, so acho que esta conversa e o resultado duma uma certa discriminacao contra o tipo de livros que ele escreve.

  13. João André on Outubro 24th, 2008 7:17

    Jorge Pereira: se fosse qualquer desses escritores, pelo menos existiria um coro de vozes a dizer que sim, eles são excelentes escritores. E não deixa de existir um coro de críticas cada vez que António Lobo Antunes fala da sua escrita ou José Saramago fala seja lá do que for (se ele disser que está a chover logo virão os seus críticos do costume a dizer que ele é um metereologista medíocre porque já o poderia ter previsto antes, saneou jornalistas que o tinham avisado, ainda não se converteu à sabedoria do mercado que diz que tem que se comprar impermeáveis nestas alturas e ainda seria acusado de ter proferido tal afirmação em frases excessivamente longas e sem pontos finais).

    Luís Graça: comparar literatura e cinema directamente não é a melhor ideia. Seja como for, se Rodrigues dos Santos usasse a sopa de peixe numa obra com intenção de chocar para despertar consciências, se o erotismo e a comida e a repulsão fossem instrumentos com um objectivo definido, aí tudo bem. Como o fez para tentar introduzir um elemento de erotismo apanascado (lamento a expressão, mas li-a algures e acho-a irresistível) torna-se inútil.

    Zé Mário, só há uma coisa com que não concordo. «(2) Isto é, o mais descabelado e intragável pot-pourri da História da Literatura». Sê-lo-ia talvez, se não existissem tantos outros candidatos. Fica apenas a questão: será que Rodrigues dos Santos anda a almoçar muitas sopas de peixe com o arquitecto nobelizável que tasmbém é director do Sol?

  14. Pop Paulo on Outubro 24th, 2008 9:41

    Leio aqui acima que se acrescenta à ferocidade da crítica por algum ciúme.
    Mas… os que aqui estamos nesta caixa de comentários, somos todos humanos, verdade? Agimos emocionalmente, espero! Alguém tem dificuldade em lidar com o ciúme do sucesso do JRS? Ainda bem, lidar com máquinas não é a minha chávena de chá (lamento, a expressão tem de existir em português, mesmo que literalmente traduzida).

    Sobre a sopa de peixe, enfim, eu não queria ser involuntariamente encaixado na tal elite; confesso que não me embaraça nada, até me arrepia que alguém se excite imaginando essas experiências mamárias e sopa e peixe, o mais que admito é ser tal culpa das diferenças de latitude, o JRS não estará à latitude escandinava, mas está uns bons dois palmos acima da minha.

    “Lá em cima há planícies sem fim
    Há estrelas que parecem correr
    Há o Sol e o dia a nascer
    E nós aqui sem parar numa Terra a girar

    Lá em cima há um céu de cetim
    Há cometas, há planetas sem fim
    Galileu teve um sonho assim
    Há uma nave no espaço a subir passo a passo…”

  15. M. Garcia on Outubro 24th, 2008 10:33

    Como é que se chama o livro? E o autor? É que eu não quero comprar, mas anda para aí tanta gente a fazer propaganda da “coisa”…

  16. cristina on Outubro 24th, 2008 11:05

    Gosto tanto dos livros dele. E tenho pena que seja assim… Cada vez fico mais espantada com as coisas que diz. Um ego do tamanho do mundo! E claro, influências do Dan Brown, nunca. Mas do Eça, sempre. LOLOL

    Cristina

  17. João André on Outubro 24th, 2008 12:44

    Pop Paulo, antes o JRdS tivesse talento suficiente para reproduzir versos com esses do “Era uma vez o Espaço”…

  18. joao leal on Outubro 24th, 2008 13:44

    Este post, e pelo vistos o autor, e os comentários são do mais cagão (perdoem-me o bom português) que tenho lido nos últimos tempos.

    É tramado que a literatura se tenha democratizado e os leitores aumentado exponencialmente.

    A questão é: conseguiria algum destes altos iluminados que comentaram, e já agora o autor do post, escrever um livro assim como os de JRS? Pois é, não são capazes. Essa é que é essa.

    QUE BANDO DE CAGÕES

  19. Pop Paulo on Outubro 24th, 2008 13:58

    João,

    Não foi um preliminar poético, antes uma associação que não expliquei; isto das latitudes, dos ares de grandeza, da diferença de alturas (exagerada na latitude), e a nostalgia da banda desenhada mais madura da minha infância; saiu tudo num pot-pourri (‘brigado, José Mário, levo emprestado e já devolvo).

    Se me ajudarem, sei que eram cantados pelo meu homónimo de Carvalho, mas quem os escreveu?

    Il Était Une Fois… L’Espace, para mim a série infantil mais sinistra que guardo, isto entendido quando as restantes séries eram bonecos mexendo-se de um lado para o outro com enredos menores e inconsequentes; uma cabecinha a formar-se confrontada com inquietações de não compreender as dimensões do céu, a ansiedade que nunca se completa, e o bicho sem explicação que é o demasiadamente grande ou o ainda mais intimidante infinito. Disto lembro-me, eu cismático, eu apresentado ao Cosmos, eu quase nada e o Cosmos impossivelmente tudo. Mais tarde percebi que sou exactamente nada por arredondamento. A matemática tem destas crueldades. Não espanta, a matemática é também natureza.

  20. Pop Paulo on Outubro 24th, 2008 14:08

    Senhor Leal,

    Sou um grande cagão; grande e orgulhosamente cagão.

    Parabéns pelo seu bom português e pela sensatez em punir a nossa liberdade de expressão, pensávamos poder discordar do valor literário do que escreve o dos Santos, abençoada seja a sua preocupação em desenganar-nos.

    Sabe, não é exactamente uma questão de sermos ou não sermos tão bons escritores quanto o JRS, antes de sermos ou não tão bons leitores quanto o estimado Leal, ou não é exactamente isso que nos quer denunciar?

  21. João Cardoso on Outubro 24th, 2008 14:11

    Boa tarde,

    Obviamente a entrevista é despropositada.
    Obviamente JRS terá um ego desmesurado.
    Obviamente não será sequer um bom escritor.
    Obviamente JMS dever-se-ia preocupar talvez com algo mesmo importante.

    Cést tout!

    Obrigado.

    JC

  22. joao leal on Outubro 24th, 2008 14:26

    Sr Pop Paulo,

    folgo em saber que há ainda gente esclarecida no mundo, como o senhor, para nos iluminar. Mostra-nos por misericóridia o que é bom ou não em termos de literatura. Infelizmente retine quando se critica negativamente as suas escrituras e as suas opiniões, “aqui d’el rei que não nos deixam discordar.”

    É bom leitor. Abençoado seja. Você pertence à elite, parabéns. Que seria de nós, os que só gostamos de ler uma boa história, sem pessoas como v exa para nos mostrarem, na vossa amabilissima bondade, que afinal aquilo é uma merda e que não é suposto gostar-se de coisas daquelas.

    Promove a criação de elites, estrato em que absolutamente está. É bom que nos ponham na ordem. Mil vezes obrigado pela sua cagança.

  23. Pop Paulo on Outubro 24th, 2008 14:54

    Senhor Leal,

    Fico triste pela pouca e má educação que lhe legaram os seus pais.

    Depois de ler o que escreveu, sou forçado a corrigir o que escrevi acima.

    Antes:
    “Sabe, não é exactamente uma questão de sermos ou não sermos tão bons escritores quanto o JRS, antes de sermos ou não tão bons leitores quanto o estimado Leal, ou não é exactamente isso que nos quer denunciar?”

    Agora:
    Sabe, não é exactamente uma questão de sermos ou não sermos tão bons escritores quanto o JRS, antes de sermos ou não tão maus leitores quanto o estimado Leal, ou não é exactamente isso que nos quer denunciar?

    Seja honesto e identifique a origem de “aqui d’el rei que não nos deixam discordar.”

    Bom dia.

  24. Tim_booth on Outubro 24th, 2008 15:11

    João Leal, goste-se ou não se goste é escusado partir para o insulto. E permita-me que acrescente que nem sempre se trata de “não ser capaz de” mas um “não querer”, porque a humanidade, escritores incluídos, são dotados de capacidade de escolha.

    Mais uma vez, o José Mário Silva a semear a discórdia na sua casa… eh eh eh!

    Cheers

  25. joao leal on Outubro 24th, 2008 15:13

    Sr Pop

    A má educação é uma perspectiva sua, obviamente errada.

    Quanto ao aqui d’el rei, era isto “pensávamos poder discordar do valor literário do que escreve o dos Santos”.

    Gostava que percebesse isto: não acho haja bons ou maus leitores, nem bons ou maus escritores. Recuso-me a qualificar a ficção. Recuso-me a alinhar em canones e em tops. Acho os prémios abomináveis invenções da indústria. Acho as elites intelectuais, criticos e academicos, na maior parte dos casos uns profundos parasitas da criatividade dos outros.

    e agora, ao estilo do rapaz que escreve este blogue, ‘c’est tout’

  26. joao leal on Outubro 24th, 2008 15:16

    Tim booth,

    lamento mas mantenho: “é um não ser capaz de” e não “um não querer que”.
    Isso é o que se gosta de acreditar, que é fácil escrever um livro assim. Não é.

    O insulto é bem merecido. É para situações destas que eles foram criados.

  27. Patti on Outubro 24th, 2008 15:21

    Oh pessoal, não era da entrevista do JRS que se estava a falar?
    Pronto, lá está tudo a levar a ‘coisa’ para o lado pessoal.

    Cinjam-se ao post cavalheiros!

  28. Pop Paulo on Outubro 24th, 2008 15:39

    Leal,

    Concordo com parte do que escreveu às 15:13.

    Só.

  29. Luis Miguel Brocha on Outubro 24th, 2008 16:26

    Cambada de inbejosos e morcões, preguiçosos! Ide mas é escreber e aprender a promobereis-bos, em bez de estardes para aqui no ramelanço nos blogues. Fazei como eu, e ainda ganhareis com isso! E deixai em paz quem faz fortuna à custa de tansos e analfabetos funcionais!

  30. Tim_booth on Outubro 24th, 2008 16:49

    João mantenho a opinião de que o insulto é escusado, mas lá está, não passa de uma opinião.

    Deixem-me só acrescentar alguma coisa aqui, se existe um snobismo intelectual, que não estou a dizer que não existe, então também existe um lado mainstream que ataca todos os que se põem do outro lado. Explico, não posso dizer que gosto de Saramago e Lobo Antunes e não gosto de Paulo Coelho e Dan Brown sem me ser colado um autocolante de snob, que é de todo despropositado, pelas pessoas que gostam desses autores. Por outro lado se eu disser que gosto de livros como os de JRS (o que não pode ser verdade porque nunca li) também sou rotulado como um leitor de ocasião. Ora bem, na literatura como em tudo, há um público para tudo, e certamente que o público para que PC escreve não é o mesmo que o de Saramago, por isso vamos lá a ter calma quando começamos a referir elites intelectuais porque há uma diferença entre gostar de autores que as tais elites gostam e sentir-se superior a alguém por isso.
    Eu não me sinto superior a ninguém por gostar de Saramago, antes pelo contrário, às vezes até tenho medo de o dizer para não ser ostracizado… Mas há que reservar um ponto: estou apenas a referir autores que escolhem escrever de uma certa maneira e o fazem bem, porque também os há aqueles que escrevem e o fazem mal e a esses sim, sinto-me superior porque sou perfeitamente capaz de fazer melhor e de escolher melhor para ler. Fim do à parte, voltar à entrevista quem quiser.

    Cheers

  31. Luís Fonseca on Outubro 24th, 2008 16:50

    «Por razões logísticas que não vêm agora para o caso, li A Viagem do Elefante ainda antes de o livro existir materialmente. Para já, posso adiantar que se trata do melhor romance publicado por José Saramago na última década (pelo menos para mim, como tento explicar no número de Novembro da revista Ler).»(post de José Mário Silva)

    O Ego de José Mário Silva, é tão grande como o de José Rodrigues dos Santos.

    A grande diferença, reside nas vendas: o José Rodrigues vende 60.000 e o José Mário vende 6.000(?).

  32. Álvaro Góis Santos on Outubro 24th, 2008 16:50

    Também me lembro de um ou outro escritor que se tivesse o tempo de antena do JRS seria best-seller (e nós a pagar esse tempo de antena). Faz algum sentido que o senhor seja entrevistado no jornal da RTP2 a propósito da saída do seu livro? Quantos autores há por esse país fora que nem um artigo de dúzia de linhas têm num jornal, quanto mais uma entrevista na televisão?

  33. joao leal on Outubro 24th, 2008 17:28

    Sr Alvaro,

    E não refere os escritores de que criticos com o JMS nunca falam?

  34. Álvaro Góis Santos on Outubro 24th, 2008 17:42

    Não referi mas devia referir, tem razão. Embora me custe generalizar, a verdade é que a crítica tem poucas excepções a esta regra da pequena famiglia. E, no fundo, uns pulam da RTP1 para a RTP2, outros aparecem em tudo o que é jornal, revista e blog dos amici, e depois retribuem, como é de ver.

  35. Jorge Pereira on Outubro 24th, 2008 17:50

    Gosh! This is getting out of hand!!!!

    Joao Leal concordo com a aquilo que disse as 15:13.

    (Desculpem-me a falta the acentos, estou a escrever num teclado americano)

  36. joao leal on Outubro 24th, 2008 18:00

    Sr. Alvaro,

    a grande questão com estes “amigalhaços” todos que se coçam as costas é se poderia mesmo ser de outra forma. Por um lado, a cultura, e particularmente a literatura, é algo que os directores de jornais, de radio ou de televisão generalistas têm como parente pobre da informação, daí que seja natural contratar um gajo que depois vai perguntar aos amigos se não querem escrever umas criticas. Por outro, o meio é tão pequeno que e tão insignificante no nosso pais, que é uma daquelas coisas perfeitas para a mentalidade da troca de favores. Se ninguém olha, é como senão existisse.

    Acho que não poderia ser de outra forma, sinceramente.

    Assim, pessoas como o JMS gozam com tudo o que mexa do outro lado da barricada e os do outro lado da barricada estão-se a lixar para o que os JMS deste mundo dizem deles porque têm leitores em barda. Todos continuarão com a sua vidinha, nos seus jantares, entrevistas e debates publicos. e eu acho muito bem.

  37. Maria das Mercês on Outubro 24th, 2008 18:04

    O facto é que o homem em causa, o JRS, escreve mal. Ponto final. Nem estou a falar de estilo. Estou a falar de português. Escreve mal. Mas vende. É o país que temos. E 120 anos passados de Os Maias, pouco mudou. O retrato social é praticamente o mesmo. Cansaço!

  38. joao leal on Outubro 24th, 2008 18:15

    Caro Luis Fonseca,

    6000???? LOL se já tiverem sido 600 já é muita sorte para o Borboleta : ) E olhe que sei do que falo.

  39. Ana cristina leonardo on Outubro 24th, 2008 21:17

    ora eu que tinha perdido estas pérolas…

  40. Patti on Outubro 24th, 2008 22:33

    Bem, que silêncio.
    Não me digam que foram todos ler a obra do JRS?

  41. lili on Outubro 25th, 2008 0:25

    “Is nao acontece se uma pessoar tentar ler ”Que Farei Quando Tudo Arde?” de Antonio Lobo Antunes”. Jorge Pereira, fale por si! Eu leio António Lobo Antunes e penso que vou percebendo o que leio, agora há uma certeza que eu tenho: não lerei Rodrigues dos Santos, nem que mo ofereçam. Tento manter a minha higiene mental, o mais possível. Ah, e aconselho-o a ler Gonçalo M. Tavares, em França foi considerado, por alguns críticos, tão bom como Kafka ou Victor Hugo. http://www.instituto-camoes.pt/franca/critica-compara-goncalo-m.-tavares-a-victor-hugo-e-kafka.html

  42. De Puta Madre on Outubro 25th, 2008 4:13

    Fascinante as enormidades que se podem dizer num só golpe.
    Bem. As notas foram muito benevolentes. Tanta delicadeza para quê?

  43. José Mário Silva on Outubro 25th, 2008 9:35

    Ena, ena, isto já parece o BdE II. Uma pessa distrai-se, sai para trabalhar, deixa o blogue entregue a si mesmo durante umas horas e quando regressa até se perde na avalanche.
    Pelos vistos, há quem se preocupe com o meu Ego (com maiúscula) e eu agradeço. O Ego pode ter maiúscula mas não é ingrato.
    Os equívocos e exageros nem merecem refutação. Já existiam e hão-de existir, independentemente do que eu diga ou faça. É o eterno problema dos estereótipos e do preconceito.
    Quanto aos que, além de se preocuparem com o meu Ego, se preocupam com as minhas vendas (pelos vistos até mais do que eu próprio), deixo o esclarecimento: nem 6000 nem 600, a coisa andará algures pelo meio, mas mais perto dos 600 do que dos 6000 (como 98% dos livros de ficção que se publicam em Portugal).

  44. lavinia on Outubro 25th, 2008 11:20

    Por favor tornem este tipo de apreciação pública, já não há paciência para tanta publicidade a este senhor e à sua literatura de trazer por casa..

  45. lili on Outubro 25th, 2008 11:40

    Lavínia, desculpe, mas em minha casa não trago literatura desta. Isto não é snobeira é que anda para aí tanto lixo literário que, ultimament, e só leio os que sei de antemão que gosto.
    De qualquer modo, e desculpe-me o cinismo, não creio que o JRS tivesse tanto êxito se não fosse uma figura da TV.

  46. lili on Outubro 25th, 2008 11:49

    Sabe Luís Fonseca a Corin Tellado, ler con pronúncia portuguesa, também vendia imenso, assim como a Barbara Cartland, e, por cá, a Odete Saint-Maurice, que não me lembro de mais nenhum neste momento, hoje em dia, temos a Luísa Castelo Branco, a Margarida Rebelo Pinto, o José Rodrigues dos Santos e outros, todos eles têm um ponto em comum, não exigem ao leitor nenhuma ginástica mental, que pensar cansa. Os primeiros tinham um ponto a seu favor escreviam sem erros gramaticais, por isso satisfaziam um serviço público, quem os lia aprendia a usar a gramática mais correctamente.

  47. Pop Paulo on Outubro 25th, 2008 12:16

    Senhores, elegi este como o mais covarde argumento de todos tempos: tentar (sim, tentar, nada mais) descredibilizar (a verdadeira intenção será mesmo ridicularizar, mas proponho que sejamos condescendentes) uma opinião crítica sobre uma entrevista (e não sobre a obra, ó distraídos) atacando o resultado comercial de uma obra do autor da crítica.
    Quanto teria vendido o Gogol nos meses imediatos às suas publicações, tivesse ele nascido num país acima de dez vezes mais pequeno?
    E poderá a melhor e mais bem escrita história vender aboslutamente nada?
    O dono do argumento saberá do seu desespero de razões, espero que sejamos poupados.
    Aposto aqui, sem qualquer medo de perder e ter de pagar, cem belos Euros como o parturiente desse troféu intelectual não leu ainda o livro do JMS. Assim sendo, seria sua grande obrigação estar calado, mas não está, e deixa-nos a todos perplexos com isso.
    Tudo o resto é fado.

  48. lili on Outubro 25th, 2008 12:39

    Pop Paulo, nunca leu o livro ”Como Falar dos Livros que Nunca Lemos”, do Pierre Bayard?
    Sinopse

    Trata-se de uma análise feita sobre o acto de ler ou melhor; sobre a acto de não ler! Este livro é, sobretudo, um ensaio inteligente sobre as várias formas de apreciar um livro. A leitura da primeira à última página, em ordem e sem saltos, é apenas uma entre inúmeras possibilidades – e nem sempre a mais compensadora. O livro largado a meio, ou nas primeiras páginas, ou lido aos pedaços, ou apenas folheado – todos eles fazem parte do histórico do leitor. Isto é válido não apenas para os clássicos mais portentosos como também para as obras de consumo rápido. As quase-leituras são, de acordo com Bayard, tão válidas quanto a leitura integral. Aliás, a ideia de que se pode ler um livro por inteiro é ilusória. As pessoas começam a esquecer uma página quando começam a ler a seguinte. Com o tempo, vão confundindo as obras, ou esquecem-nas totalmente e quando são chamados a dar a sua opinião, acabam por falar não do livro efectivo, mas da lembrança imperfeita e distorcida que guardaram dessas mesmas obras. O título é polémico e dá a sensação que a opinião do autor é a de incentivar à não leitura, mas o que se pretende é ensinar a “ler”, não é ler por ler (sem reter), mas saber ler de forma a conseguir falar daquele livro e de outros, sem ter lido tudo. É um livro paradoxal. O autor pretende desmistificar a ideia de que ler um livro é uma coisa que leva muito tempo e apresenta técnicas para não ler, levando assim à leitura. Como já dizia Óscar Wilde «A crítica literária é uma forma de autobiografia. Fale sempre do significado pessoal que um livro tem para si – mesmo que não o tenha lido».
    In http://www.webboom.pt/ficha.asp?ID=169383

  49. Álvaro Góis Santos on Outubro 25th, 2008 12:46

    Sobre o argumento comercial, só posso dizer que editei alguns livros que, além da qualidade insuspeita, passe a imodéstia, tinham um potencial comercial interessante e nem aos 600 exemplares vendidos chegaram.
    É claro que não tiveram direito a entrevista na RTP2, nem na 1, nem na SIC nem na TVI, nem espaço nos media “especializados”, donde se depreende que: a) tenho poucos amigos; b) terei talvez mais jeito para editar livros do que para os vender.

  50. lili on Outubro 25th, 2008 16:20

    É fácil dizer-se que não é um grande livro. Mas que qualidade lhe faltará? Talvez a de nada acrescentar à nossa visão de vida. [Virginia Woolf]

  51. Joao leal on Outubro 25th, 2008 21:01

    Nunca hei-de perceber a vontade de meter coisas diferentes com a mesma etiqueta.
    A literatura de classe intelectual é gerada por uma perspectiva artistica e raramente é de massas.
    A literatura de classe popular é gerada por uma perspectiva comercial e de entertenimento.
    O facto de estarem à venda no mesmo suporte (livro), e muitas vezes ao lado uma da outra nos pontos de venda, não retira que são criações com ambições e propósitos diferentes.
    Criticar um dos tipos é esquisito e não faz sentido, uma vez que não se toma em considerações este tipo de diferenças fundamentais.
    Nem toda a gente consegue (e isto é natural) gostar do Saramago, ou similar autor dificil. E o mesmo com os JRS deste mundo. É natural, uma vez que se procuram coisas diferentes.
    Agora, o que se passou com este post, e respectivos comentários, é de que se goza com as palavras de JRS, e com a sua obra, quando escritores consagrados intelectualmente pelos JMS deste mundo dizem coisas absolutamente mais espantosas e estapafurdias, como o Lobo Antunes ou o José Luis Peixoto, do qual a frase do ALA “Sou o melhor escritor português” e “se não escrever morro”, do JLP, nunca serão gozadas como assim.

  52. lili on Outubro 25th, 2008 21:19

    João Leal,
    Não sei qual é a sua geração, mas na minha e na dos meus pais, as pessoas liam bons livros. O meu pai não tinha mais do que a quarta classe, mas era um homem muito inteligente e que me deu a conhecer muitos bons autores como Stefan Zweig, hoje um autor um tanto ou quanto mal tratado por alguma crítica menos esclarecida.
    Estamos na era da banalidade, é isso que “as elites” dão às pessoas e a maioria dos cidadãos não está para se ralar, vê-se pelo elevado número do insucesso escolar. Li que uma vez o Bill Wilder disse que as pessoas andam a trabalhar, estão cansadas, querem, à noite, em casa, algo que as divirta sem terem de pensar muito e, como tal, não se lhes pode oferecer Fassibinder. Sim, concordo, não posso é concordar em só lhes seja oferecido isto.
    Se não viu ou não leu, aconselho-lhe vivamente ”Carta A Uma Desconhecida”, o filme do mestre Max Ophüls é belíssimo e o livro do Stefan Zweig também.

  53. Mapas De Espelho on Outubro 25th, 2008 21:26

    Todos os que escrevem padecem de Autismo-da-Qualidade. uando começam a editar e a ter leitores esse Autismo é incurável, e o mais fácil mesmo é apontá-lo aos outros.
    É como se vivessem numa casa sem espelhos…

  54. Joao leal on Outubro 25th, 2008 23:34

    lili,

    é simpático da sua parte e agradeço-lhe as sugestões.
    Compreendo o que quer dizer mas não percebo.
    Parece que acha que há alguém intelectualmente superior com a responsabilidade de educar as outras pessoas. Eu não acho que dar essa responsabilidade a alguém seja necessária.
    Os livros existem e espelham sempre as tendências dos movimentos culturais em voga na altura em que são escritos.
    Há cem anos, quem lia? Quase ninguém. A literatura era, e continuou a ser durante muito tempo, coisa de elites. Democratizou-se com a maior literacia na segunda metade do século passado e abriu-se exponecialmente nas últimas décadas em virtude dos avanços tecnológicos e de uma ainda maior taxa de literacia da população.
    Leio Corman MacCarthy e Stephen King, Carlos Oliveira e policiais manhosos. Outros haverá que escolherão diferente. Não melhores nem piores. O que existe é o tempo que se gasta a ler o que quer que seja.

  55. lili on Outubro 25th, 2008 23:46

    João,
    Compreende, mas não percebe. E eu estou cansada.
    A literatura oral nunca foi coisa de elites. Mas por mais que nos custe há boa e má literatura, há bons e maus escritores, costumo usar este argumento contra aqueles que reclamam por uma literatura gay, ou feminina.
    Já não leio há muitos anos Stephen King, a idade não perdoa e tenho de me poupar para ler outros que gosto mais.
    Também gostei de policiais manhosos,aliás creio que os livros policiais tiveram muita importância na minha formação literária, sobretudo os livros da colecção Vampiro, e na ficção científica a colecção Argonauta.
    Gostei muito de ler Uma Abelha Na Chuva, depois fui-me distanciando do Neo-Realismo.

    Não acho que tenha de haver “educadores da classe operária”, credo, esse era o Arnaldo Matos! Mas sabe muito bem como se movem os cordelinhos das editoras, é como com as audiências na televisão.
    Mas desde que o Eduardo Lourenço, o homem que ensina Portugal a pensar(?!) defendeu a escrita do Paulo Coelho já nada me surpreende.

  56. amélia pais on Outubro 26th, 2008 9:37

    CONFESSO:NUNCA LI NENHUM LIVRO DESTE CAVALHEIRO.MAS SÓ APETECE DIZER:«PRESUNÇÃO E ÁGUA BENTA CADA UM TOMA A QUE QUER»…

  57. Jorge Pereira on Outubro 26th, 2008 19:47

    Lili,

    Claro que falo por mim, mas tenho um palpite que muitos nao entendam ”Que Farei Quando Tudo Arde?” de Antonio Lobo Antunes. Ora mesmo a traducao em ingles faz pouco sentido. O stream of consciousness estilo, e uma coisa um tanto velha. Eu acho! Kafka e Vitor Hugo entendem-se, muito mais que muitos escritores por esse mundo fora. As grandes obras da literatura mundial nao sao necessariament complicadas. “Ana Karenina” e uma obra espectacular mas acessivel, o mesmo digo dos Sem Anos de Solidao do Garcia Marques, entre outras.

    Esta conversa sobe o JRS nao passa de uma certa ciumeira sobre o sucesso do homem. Vaidoso e ele, but so what?

    (Falta de acentos culpa do meu teclado americano.)

  58. lili on Outubro 26th, 2008 20:11

    Não tem importância, a falta de acentos:)

    Quanto a mim não é ciumeira nenhuma, que não escrevo, nem tenho tenção de escrever, seja o que for. Não gosto e acabou, no entanto, gostei de ler o Rio das Flores do Miguel Sousa Tavares e alguma crítica tem sido bastante severa com ele.

    Ah, Ana Karenina, ainda um dia destes trouxe-o da biblioteca com uma tradução do Saramago, estava mesmo para ficar com ele e dizer à biblioteca que o tinha perdido, mas faltou-me a coragem. É um dos clássicos que levaria para uma ilha deserta, se fosse obrigada a permanecer numa. Esse e o “Crime e Castigo”.

  59. Jorge Pereira on Outubro 26th, 2008 22:46

    Queria dizer “Cem Anos de Solidao.” Desculpem-me o erro.

  60. não sou politicamente correcta.* « verde-ervilha. on Outubro 28th, 2008 12:15

    […] […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges