Biblioteca de Siza em Viana, por Alexandra Lucas Coelho

A reportagem sobre as reacções dos habitantes de Viana do Castelo à primeira biblioteca pública desenhada pelo mais internacional dos nossos arquitectos — que a colocou, acendendo as polémicas do costume, junto à margem do rio Lima — vem hoje no suplemento P2 do Público (sem link directo).
Como todas as reportagens da Alexandra, seja na Faixa de Gaza ou noutro lugar qualquer do mundo, é de leitura obrigatória. Eis alguns excertos:

«Quem está virado para a biblioteca, tem atrás de si o casario histórico — telhados vermelhos, paredes brancas, varandas de ferro forjado, janelas de guilhotina — e vê o rio através do pátio relvado. É como se o edifício fosse a passagem da cidade para a água.
(…) Maria de Fátima [63 anos, “fotógrafa da Foto Nélita”, à vontade em tudo menos no digital — “puxo pelas orelhas, mas já é tarde, não tenho paciência para aprender computadores”] transpõe a discreta porta e dá por si num grande átrio de mármore cor-de-areia que parece irmão do Museu de Serralves, no geral e no particular — do desenho das letras (que ao nível dos olhos identificam cada zona) ao desenho das portas (para a zona de serviços ou para o auditório com o nome do poeta António Manuel Couto Viana, natural da cidade).
Subindo a escada para o corpo principal, suspenso, a luz entra através de grandes janelas horizontais, em cambiantes mais quentes ou mais suaves, consoante a posição do sol.
Maria de Fátima dá voltas em torno de si mesma, murmurando: “Sim, sim, sim…” Afinal de contas, é fotógrafa, trabalha com luz. “Sim, como paisagem está bonito.” Dois passos à frente, dois passos atrás: “Mas é amplo demais para o meu gosto…”
Neste andar suspenso, os espaços de leitura, Internet, áudio e vídeo formam um quadrado à volta do pátio, e é possível percorrer a biblioteca sem parar, vendo agora umas águas furtadas e depois o manso azul do Lima. A biblioteca é atravessada pela paisagem cá dentro, tal como lá fora é atravessada pelo olhar.
“Está bom, aceito”, anuncia Maria de Fátima. “Quer dizer, quando isto estava a ser construído houve uma revolta muito grande. O verdadeiro vianense sentiu-se quase ofendido com esta construção frente à nossa cidade velhinha. Para nós, era uma aberração.”
(…) Mesmo em frente à biblioteca mora por exemplo a Residencial Jardim. Primeiro, a recepcionista Lucília diz que “as pessoas aqui não gostam da biblioteca”, mas pelo sim pelo não chama a colega. “Agoniiiiia!” E Agonia vem em discórdia: “Eu gosto!” E segue-se uma desgarrada.
Lucília – Isto é uma zona histórica, e se nós temos que manter a nossa fachada, nem podemos pôr uma janela de metal, tá ali um edifício que pode ser de uma pessoa muito importante mas tirou-nos as vistas e tá horrível, pronto.
Agonia – Ah, mas a arquitectura é uma coisa bonita. Gosto e até me disseram que por dentro era um sonho. Ao 1º e ao 2º andar tirou vista, mas ao 3º e ao 4º não. E na inauguração o senhor primeiro-ministro acenou-me e disse que a cidade de Viana era linda. Não, a biblioteca estava a fazer muita falta, até quando foi aqui a União Europeia, estava lindíssima. Pronto, a gente já sabe que o sr. Siza Vieira faz umas coisas extravagantes.
Lucília – Mas eu só ouvi falar do homem quando fez a biblioteca, antes não conhecia.
Agonia – Por amor de Deus, no Porto há tanta coisa feita por ele! E em Espanha até houve uma polémica, que ele queria e não deixaram. Pronto, cada um é como cada qual.
(…) Das mesas aos puxadores das portas, tudo dentro da biblioteca é Siza, e está lá o nome, Álvaro Siza, até na perninha da cadeira de bebé. Há uma grande clareza de linhas, materiais e cores, entre cada objecto e a construção. E andando em volta, a cidade e o rio vão girando pelas janelas como num caleidoscópio.»



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges