Boca de alegria

edith
Edith Schiele sentada, de Egon Schiele (1915)

O VESTIDO DE EDITH

Um vestido de riscas usa Edith Schiele
as riscas vestem Edith Schiele de uma alegria
de que parece ausente o corpo – dos pés

ao pescoço –
mas estão pintalgados de encarnado a boca
(nela aflora um sorriso paciente,
ligeiramente vítreo) e o rosto

o cabelo, puxado para o alto, alonga-lhe a figura,
mas são inquietas as irrequietas curvas das riscas encarnadas
que se espalham em fusiforme flor

de pétala. A boca de Edith Schiele é de alegria
mas os olhos não

[in Lugares, 3, de Maria Andresen, Relógio d’Água, 2010]



Comentários

2 Responses to “Boca de alegria”

  1. O poder solar que há na beleza | Bibliotecário de Babel on Agosto 24th, 2010 23:33

    […] Boca de alegria […]

  2. leal maria on Agosto 25th, 2010 12:04

    Abaixo vos deixo um POEMA

    Quanto ao deste post: Incaracterizável.
    Quando muito, uma atenta observação de um quadro, registado com algum estilismo poético.

    Segue o poema:

    “Diz-me agora o teu nome
    se já dissemos que sim
    pelo olhar que demora
    porque me olhas assim
    porque me rondas assim

    toda a luz da avenida
    se desdobra em paixão
    magias de druida
    p’lo teu toque de mão
    soam ventos amenos
    p’los mares morenos
    do meu coração

    espelhando as vitrinas
    da cidade sem fim
    tu surgiste divina
    porque me abeiras assim
    porque me tocas assim
    e trocámos pendentes
    velhas palavras tontas
    com sotaque diferentes
    nossa prosa está pronta
    dobrando esquinas e gretas
    p’lo caminho das letras
    que tudo o resto não conta

    e lá fomos audazes
    por passeios tardios
    vadiando o asfalto
    cruzando outras pontes
    de mares que são rios
    e num bar fora de horas
    se eu chorar perdoa
    ó meu bem é que eu canto
    por dentro sonhando
    que estou em Lisboa

    dizes-me então que sou teu
    que tu és toda p’ra mim
    que me pões no apogeu
    porque me abraças assim
    porque me beijas assim
    por esta noite adiante
    se tu me pedes enfim
    num céu de anúncios brilhantes
    vamos casar em Berlim
    à luz vã dos faróis
    são de seda os lençóis
    porque me amas assim”

    Porque me olhas assim – Fausto

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges