Boca de alegria

Edith Schiele sentada, de Egon Schiele (1915)
O VESTIDO DE EDITH
Um vestido de riscas usa Edith Schiele
as riscas vestem Edith Schiele de uma alegria
de que parece ausente o corpo – dos pés
ao pescoço –
mas estão pintalgados de encarnado a boca
(nela aflora um sorriso paciente,
ligeiramente vítreo) e o rosto
o cabelo, puxado para o alto, alonga-lhe a figura,
mas são inquietas as irrequietas curvas das riscas encarnadas
que se espalham em fusiforme flor
de pétala. A boca de Edith Schiele é de alegria
mas os olhos não
[in Lugares, 3, de Maria Andresen, Relógio d'Água, 2010]
Comentários
2 Responses to “Boca de alegria”
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[...] Boca de alegria [...]
Abaixo vos deixo um POEMA
Quanto ao deste post: Incaracterizável.
Quando muito, uma atenta observação de um quadro, registado com algum estilismo poético.
Segue o poema:
“Diz-me agora o teu nome
se já dissemos que sim
pelo olhar que demora
porque me olhas assim
porque me rondas assim
toda a luz da avenida
se desdobra em paixão
magias de druida
p’lo teu toque de mão
soam ventos amenos
p’los mares morenos
do meu coração
espelhando as vitrinas
da cidade sem fim
tu surgiste divina
porque me abeiras assim
porque me tocas assim
e trocámos pendentes
velhas palavras tontas
com sotaque diferentes
nossa prosa está pronta
dobrando esquinas e gretas
p’lo caminho das letras
que tudo o resto não conta
e lá fomos audazes
por passeios tardios
vadiando o asfalto
cruzando outras pontes
de mares que são rios
e num bar fora de horas
se eu chorar perdoa
ó meu bem é que eu canto
por dentro sonhando
que estou em Lisboa
dizes-me então que sou teu
que tu és toda p’ra mim
que me pões no apogeu
porque me abraças assim
porque me beijas assim
por esta noite adiante
se tu me pedes enfim
num céu de anúncios brilhantes
vamos casar em Berlim
à luz vã dos faróis
são de seda os lençóis
porque me amas assim”
Porque me olhas assim – Fausto