Breve crónica de um suicídio colectivo

Foi no MusicBox que procurámos a morte. Eu, a Patrícia Portela e o João Leal. Ou melhor, as nossas personagens: Ismael Barros, Alva Ramalho e Luzia Fernandes. De início, havia só isto: três personagens resumidas em dez linhas, cada uma com a sua razão para se suicidar. Na sala às escuras, os portáteis ligados a um projector (dois Mac, um PC). Ideólogo da performance, o escritor e músico espanhol Alberto Torres Blandina, deus ex machina escondido na sombra mas atento a tudo. Foi ele que criou o conceito do espectáculo Suicida-me, foi ele que inventou as regras deste divertimento literário interactivo, aberto aos inputs do público. A gerir o ritmo da escrita e a evolução da história, um mestre de cerimónias: Nuno Costa Santos, também conhecido por Melancómico. Eis como ele explicou de forma sucinta a mecânica do jogo:

E lá nos aventurámos na escrita em directo, sem recuo, diante de um público que foi crescendo ao longo da noite. A Patrícia (com a sua convincente máscara de monstro) apresentou-nos Alva Ramalho, uma zombie que pretendia deixar cair a parte «viva» da condição de morta-viva. Ao centro, eu defendi as pretensões do Ismael Barros, um «atractor de desgraças» farto de espalhar tragédias à sua volta. E o João Leal introduziu-nos nos terrores de Luzia Fernandes, em pânico com a perspectiva de vir a ser apanhada por um Frank sempre quase a chegar, como o Jack Nicholson do Shining.
O jogo organiza-se em vários momentos de escrita, com uma duração compreendida entre os cinco e os dez minutos. Em cada um desses momentos, o público era convidado a escolher alguns elementos que cada escritor devia incluir na narrativa, ou uma pergunta a que o texto devia responder de forma coerente, etc. Por exemplo, logo no primeiro bloco, foram definidas uma geografia, uma influência cinematográfica e um objecto para cada personagem. Para a Alva: Paramaribo (capital do Suriname), Top Gun e enrolador de pestanas. Para a Luzia: Reikjavik, O Ninja das Caldas e telemóvel sem saldo. Para o Ismael: Barreiro, Laranja Mecânica e Bimby. Pode parecer fácil, mas não é. Por muito que nos concentrássemos na brancura dos nossos ecrãs, sabíamos que os espectadores, ali mesmo à nossa frente, estavam a acompanhar em tempo real a evolução de cada texto, as nossas hesitações, enganos, tentativas, recomeços, vai à frente e volta atrás. Uma exposição total.
Eis o aspecto da coisa:

Curiosamente, nenhum de nós bloqueou, nenhum de nós deixou um texto a meio. E lá fomos criando narrativas paralelas necessariamente irregulares e sinuosas, saltando a custo (mas creio que com engenho e por vezes com graça) as muitas dificuldades que nos iam colocando no caminho. Entre outras safadezas, obrigaram-me a vestir a pele de Berlusconi e a perorar sobre a Hello Kitty, enquanto o João teve de macaquear o estilo da Laurinda Alves e a Patrícia se viu constrangida a mencionar o tema Paixão, dos Heróis do Mar.
No final das histórias, progressivamente mais destrambelhadas, o público votou de braço no ar e deu a vitória (justa) ao João Leal. Coube-lhe então ler a morte de Luzia, mas a Alva e o Ismael (cujos desfechos era suposto ficarem no tinteiro digital) também acabaram por morrer no ecrã e na voz dos seus criadores, completando um suicídio colectivo que escapou ao guião do espectáculo mas satisfez os espectadores.
Conclusão: se a proposta era arriscada, o resultado acabou por superar as melhores expectativas. Para quem esteve no palco foi um divertimento absoluto, com bastante adrenalina criativa. Para quem assistiu, julgo que foram umas horas bem passadas.
A fórmula resultou. Os responsáveis pelo Festival Silêncio suspiraram de alívio. Para o ano repetimos, Alberto?



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges