Brilhos de Minas
Ontem à noite, foi bem bacana o serão mineiro na Casa da América Latina. Prisca Agustoni, suíça italiana que vive há muitos anos no Brasil, apresentou de forma concisa a antologia Oiro de Minas — a nova poesia das Gerais, por si organizada (com chancela da Ardósia, colecção Pasárgada). Além da leitura de poemas dos dez autores antologiados, houve música (duas canções de Milton Nascimento, uma a abrir, outra a fechar, interpretadas com o corpo todo por um cantor de quem não fixei o nome) e muitas conversas no final, como explica o Luís Filipe Cristóvão.
A mim, impressionou-me a elevada qualidade destes poetas mineiros de agora, completamente desconhecidos em Portugal: Eustáquio Gorgone de Oliveira, Donizete Galvão, Júlio Polidoro, Ricardo Aleixo, Maria Esther Maciel, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Edimilson de Almeida Pereira, Iacyr Anderson Freitas, Wilmar Silva e Fabrício Marques. Pensar que representam apenas a geração mais nova da poesia feita num só dos 26 estados do Brasil, ainda por cima fora da órbita centrípeta dos dois grandes pólos culturais do país (Rio de Janeiro e São Paulo), dá uma ideia do abismo de desconhecimento que temos em relação ao que se passa, em termos literários, lá no outro lado do Atlântico.
Como amostra, deixo aqui quatro poemas da antologia:
SILÊNCIO
De pedra ser.
Da pedra ter
o duro desejo de durar.
Passem as legiões
com seus ossos expostos.
Chorem os velhos
com casacos de naftalina.
A nave branca chega ao porto
e tinge de vinho o azul do mar.
O maciço da rocha,
de costas para a cidade
sete vezes destruída,
celebra o silêncio.
A pedra cala
o que nela dói.
Donizete Galvão
***
DOIS
dois irmãos no começo. o que sabe o
caminho e o outro: dois. e não há
retorno. dois irmãos desde nunca. um,
o que vê e conta. outro, o que ouve.
dois. não se separam. por onde passam,
o mundo: o coração de um pássaro,
desvios, carcaças de antílopes, cidades
riscadas do mapa, o dorso tigrino de um
presságio, o tempo mais velho, um deus
trocando a pele. dois irmãos ainda agora.
Ricardo Aleixo
***
AULA DE DESENHO
Estou lá onde me invento e me faço:
De giz é meu traço. De aço, o papel.
Esboço uma face a régua e compasso:
É falsa. Desfaço o que fiz.
Retraço o retrato. Evoco o abstrato
Faço da sombra minha raiz.
Farta de mim, afasto-me
e constato: na arte ou na vida,
em carne, osso, lápis ou giz,
onde estou não é sempre
e o que eu sou é por um triz.
Maria Esther Maciel
***
CÓLERA
sem dúvida essa fadiga me entardece
é mais forte do que o vento
o vento que não é da família dos chacais
e me procura com uma lente invisível
o vento que racha as paredes
e atravessa a pintura
o vento que atravessa a pintura
e diz que os decibéis
das flores que lhe oferto
estão em anomalia
Wilmar Silva
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