Calafrio, torpor & o resto

A Parte pelo Todo
Autor: João Luís Barreto Guimarães
Editora: Quasi
N.º de páginas: 45
ISBN: 978-989-552-403-7
Ano de publicação: 2009

«First – Chill – then Stupor – then the letting go» («Primeiro – Calafrio – depois Torpor – depois o deixar ir»). A partir deste verso de Emily Dickinson, escrito «após uma grande dor», João Luís Barreto Guimarães construiu o seu mais recente livro de poemas, o primeiro editado com chancela das Quasi Edições. No caso de JLBG, a «grande dor» foi a perda do pai, morte que instaurou um vazio que é antes do mais uma cesura (termo clínico particularmente adequado, já que o poeta também pratica medicina e traz amiúde a sua experiência profissional para dentro dos poemas). Estamos então no território da mais extrema vulnerabilidade, seguindo a voz de quem começa por se revoltar contra a evidência dos factos mas, aos poucos, vai aceitando uma ausência que será para sempre. «Calafrio», «torpor», «deixar ir», escreveu Dickinson. Choque, indiferença e aceitação, explicam os manuais. São as fases do luto, as etapas necessárias para admitir o inadmissível.
O principal mérito de JLBG, na arriscada deambulação por uma paisagem emocional instável, é não ceder um milímetro que seja ao sentimentalismo. Em vez de pathos, um desalento que nos chega através de elipses bem trabalhadas e da sintaxe precária, sempre à beira de esboroar-se. A atenção concentra-se nos pormenores: o fato «para levar no esquife» pousado sobre a cama; a barba que continuou a crescer depois da morte; recordações felizes da intimidade (o filho, de joelhos, cortando as unhas dos pés ao pai); a SMS enviada para um telemóvel agora sem préstimo (porque nem sequer vale a pena ligar para Deus); o antidepressivo que se toma como uma «hóstia alegre», uma «unidose de euforia».
A lenta saída do labirinto passa também por um reencontro com o lado luminoso da vida. Ter coragem de pedir a uma paciente polaca que recite Wislawa Szymborska, em voz alta, no hospital. Molhar o pão no azeite da Grécia. Reencontrar o sabor «perene» de uma maçã assada. Explicar ao leitor, como se explica a um amigo, o caminho para a casa do poeta, em Leça da Palmeira. A morte, como tudo o resto, é uma coisa que se ultrapassa, que é preciso ultrapassar («tens que o fazer pelos vivos»), às vezes até literalmente, como quando o carro funerário de súbito barra o caminho e só o «pedal a fundo desperta da letargia».

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no n.º 81 da revista Ler]



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