Camiões, bocarras e a nova China

Mudanças
Autor: Mo Yan
Título original: Change
Tradução: Vasco Gato (a partir da versão inglesa)
Editora: Divina Comédia
N.º de páginas: 155
ISBN: 978-989-863-3002
Ano de publicação: 2012

Vencedor do Prémio Nobel de Literatura deste ano, o escritor chinês Mo Yan, até agora praticamente desconhecido no Ocidente, está longe de ser consensual – sobretudo entre os compatriotas que têm coragem para levantar a voz contra o governo de Pequim. Quando a Academia Sueca anunciou a sua escolha, houve logo quem apontasse Yan como um autor alinhado com o poder. Ao contrário de outros artistas, forçados ao exílio ou sujeitos a prisão domiciliária (como Ai Weiwei, não por acaso um dos críticos mais ferozes da atribuição do Nobel), Yan nunca levantou ondas nem manifestou solidariedade com as vítimas de perseguição política. Em 2009, afirmou: «Alguns poderão querer gritar nas ruas, mas devemos tolerar aqueles que se escondem nos seus quartos e usam a literatura para transmitir as suas opiniões.»
Uma obra como Mudanças, autobiografia romanceada escrita em 2010 para a colecção “O que foi o comunismo?” (dirigida por Tariq Ali), podia trazer mais luz sobre o percurso de Yan e o modo como se posiciona na sociedade chinesa. Em vez disso, este livrinho que marca a estreia de uma nova editora portuguesa (a Divina Comédia, de Alexandre Vasconcelos e Sá, ex-director editorial da Objectiva), só consegue aprofundar as dúvidas. Miúdo «inseguro», muitas vezes «demasiado esperto para o seu próprio bem», bode expiatório das asneiras alheias, acabou expulso da escola, por ter supostamente inventado uma alcunha para o professor de matemática que sublinhava a dimensão da sua bocarra (logo ele, Yan, que também sofria dessa desproporção física). Na mesma altura, um outro aluno farta-se do «controlo asfixiante», desafia a autoridade dos professores, rasga os livros e vai-se embora. «Quase parecia que havia feixes de luz dourada a irradiar do corpo do He e, embora eu não soubesse o que iria na cabeça dos demais, na minha cabeça, naquele momento, ele era uma personagem decididamente heróica à medida que avançava, instigado pela honra a não voltar para trás.» O paradoxo é este: ao ver a atitude de He, Yan sonha «com a concretização de proeza semelhante um dia», mas quando o expulsam da escola ele fica «destroçado» e admite que foi um suplício «ter de a abandonar».
O livro acompanha dois tipos de mudanças, intercaladas numa narrativa ágil, rápida, mas dispersa, cheia de derivações, saltos no tempo e uma assumida «verbosidade» («Tenho a cabeça atulhada de lembranças variegadas que, não sendo minha intenção anotá-las, brotam de moto próprio»). Por um lado, acompanhamos as muitas incidências da vida de Yan: o trabalho numa fábrica de algodão; o receio de ficar «entalado no degrau mais baixo da sociedade»; o fascínio infantil por camiões (sobretudo um certo Gaz 51, de fabrico soviético e «rápido que nem uma flecha»); o alistamento no exército, sempre com funções menores; e por fim a redenção pela escrita literária. Para Yan, «os acontecimentos estão em fluxo permanente», num cortejo de «acidentes», «estranhezas» e «curiosidades», narrado com a volúpia dos melhores contadores de histórias. As outras mudanças são as de um país que nos anos 60 não tinha um único quilómetro de auto-estrada mas se transformou, em poucas décadas, numa potência económica à escala mundial. Yan lembra-se de temer a «perdição» da China após a morte de Mao Tsé-Tung. Pelo contrário, não só a China continuou a existir «como começava a prosperar». Onde antes havia apenas restaurantes públicos («com o seu abominável serviço») e cooperativas de abastecimento, apareceram pequenos empresários e bancas privadas despontaram «como o bambu após um aguaceiro primaveril». Dito isto, quando em 1990 se vê forçado a dormir num depósito de sucata, à mercê das ratazanas, o que ele dispõe na soleira da porta e junto da cama, à laia de sentinelas, são estatuetas do Presidente Mao.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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