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Campo de batatas

«Há um ano, voltei a escrever contos, mas sem me dar conta de que, na realidade, continuava com os hábitos de romancista. Continuava a utilizar um tempo moroso, nada adequado para o relato. As frases alargavam-se sem pressas e concentravam-se opressivamente nos pormenores. Até que compreendi que assim não ia a lado nenhum. Tinha de estar mais consciente de que havia regressado ao conto e que era obrigado a um sentido de brevidade que o romance não pedia. Mas o maior conflito não tinha origem unicamente nesse lastro de maus hábitos adquiridos como romancista. A tensão mais forte era provocada pelo duro esforço de contar histórias de pessoas normais e ter, ao mesmo tempo, de reprimir a minha tendência para me divertir com textos metaliterários: o duro esforço, resumindo, de contar histórias da vida quotidiana com sangue e fígado, tal como me tinham exigido os que me odeiam, que me haviam censurado excessos metaliterários e “ausência absoluta de sangue, de vida, de realidade, de apego à existência normal das pessoas normais”.
Sem saber que os que me odeiam me censurariam também o contrário, quer dizer, que me recriminariam por qualquer coisa que fizesse, entreguei-me com a melhor das vontades aos contos com pessoas normais, de carne e osso, sangue e fígado. Não é que fosse algo antinatural para mim, mas logo a partir do primeiro momento senti-me pouco à vontade com as vísceras, o suor, o odor, as frases vulgares e as lágrimas dos meus personagens. Não conseguia esquecer-me até que ponto me identificava com Paul Valéry, quando assegurava que a sua mente não estava feita para os romances tradicionais, uma vez que as suas grandes cenas, as cóleras, as paixões, os momentos trágicos, longe de o exaltarem, chegavam-lhe como reflexos miseráveis, estados rudimentares onde toda a estupidez anda à solta, onde o ser se simplifica até ao disparate.
Recriminavam-me também, os que me odeiam, que tivesse mitificado tanto o literário. Não me permitiam que dissesse o que, por exemplo, deixam dizer perfeitamente a Francisco Ayala, talvez porque fez mais de cem anos, idade em que se perdoa tudo: “Eu digo que a literatura é o essencial, o básico. Tudo o que não seja literatura não existe. Porque onde está a realidade? Uma árvore é-o, porque a nomeamos. E ao nomeá-la estamos a suscitar a imagem inventada que tínhamos. Mas se não a nomearmos a árvore não existe.”
Suei em bica com as secreções e exsudações dos meus personagens, fiz um esforço incrível para mostrar “apego à existência normal das pessoas normais”. E ultimamente já me sinto bem adaptado à minha nova asquerosa vida. No fundo, contistas como Raymond Carver sempre me impressionaram, com todas as suas histórias de empregadas de motel e camionistas e outros seres anódinos, perdidos no cinzento de um dia-a-dia sufocante. Reconheço que é um dos génios do conto. Também gosto desses autores que, por exemplo, descrevem um campo de batatas com uma precisão magistral. Eu, porém, tive sempre muita dificuldade em fazê-lo. Se tinha de descrever um campo de batatas, fazia-o, mas tratava-se de batatas a germinar numa cave, por exemplo, e acabava por ter de corrigir-me a mim mesmo, batendo sadicamente na mão com que escrevia esses surrealismos.»

[in Exploradores do Abismo, de Enrique Vila-Matas, trad. de Jorge Fallorca, Teorema, 2008]



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