Canto do cisne

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Campo Santo
Autor: W. G. Sebald
Título original: Campo Santo
Tradução: Telma Costa
Editora: Teorema
N.º de páginas: 224
ISBN: 978-972-695-748-5
Ano de publicação: 2008

Publicado em 2003, quase dois anos após a morte de W. G. Sebald num acidente rodoviário em Norwich (Reino Unido), onde leccionava há mais de três décadas, Campo Santo é um volume que deixará nos admiradores do escritor alemão um travo de melancolia. Isto porque os textos nele reunidos, por muito que reflictam as suas obsessões e o seu estilo singular – feito de subtis questionamentos, sínteses poderosas e derivas tanto geográficas como mentais –, não deixam de ser uma espécie de canto do cisne, o derradeiro legado de um autor que desapareceu, aos 57 anos, no auge das suas capacidades criativas.
O livro abre com uma sequência de quatro textos, independentes uns dos outros, sobre a Córsega. Sebald tencionava inclui-los numa obra dedicada à ilha francesa, mas o projecto foi suspenso para a escrita do seu magnum opus (Austerlitz). Na primeira das “prosas”, o escritor cumpre o seu desígnio de explorador dos “abismos sem fim do passado” e deambula por Ajaccio em busca dos traços de Napoleão na cidade que o viu nascer. Não por acaso, Sebald foca-se na visita à Casa Bonaparte, em tempos descrita por Flaubert, um museu onde a grandeza extinta do Império se cristalizou, com os seus mitos e símbolos. Dos objectos mencionados pelo autor de Madame Bovary, “somente a capa imperial com abelhas douradas que ele vira reluzir no chiaroscuro já não estava lá”. O que interessa ao visitante é perceber como era Napoleão antes de ser Napoleão. Ou seja, o vislumbre da História enquanto entidade “que se move e muda de direcção no seu movimento (…) por causa de minudências imponderáveis, por uma mera corrente de ar quase imperceptível”. No texto que dá título ao livro, um velho cemitério rural torna-se o palco para uma meditação sobre a decadência do culto dos mortos e os perigos de vivermos o “presente sem memória”, enquanto em Os Alpes no mar o tom é de lamento pelo abate progressivo das florestas corsas e pela “febre” da caça, reflexo da “infâmia que é a violência humana”.
A segunda parte do livro compõe-se de artigos, ensaios e discursos que abrangem um vasto arco temporal (a começar na crítica, escrita em 1975, à peça Kaspar, de Peter Handke). Além de analisar a problemática relação da literatura alemã com a destruição do país durante a II Guerra Mundial, Sebald revela-se um leitor muitíssimo atento de autores consagrados (Kafka, Nabokov, Bruce Chatwin) e menos conhecidos (Peter Weiss, Jean Améry). Os melhores textos, porém, são aqueles em que evoca a sua infância em Wertach im Allgäu, nos Alpes bávaros, seja através de uma melodia de clarinete (Moments musicaux), seja através de um jogo de cartas onde as cidades em ruínas, como Estugarda, permaneciam intactas (Uma tentativa de restituição).

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]



Comentários

One Response to “Canto do cisne”

  1. Bibliotecário de Babel – Listas on Janeiro 5th, 2009 1:44

    […] Paris, de Julien Green, Tinta-da-China Um Mundo para Julius, de Alfredo Bryce Echenique, Teorema Campo Santo, de W. G. Sebald, Teorema Como a Raiva ao Vento, de Rawi Hage, Civilização O Filho Eterno, de […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges