Casamento entre editoras do mesmo sexo

Foi com uma piada que Manuel Alberto Valente anunciou, esta tarde, em conferência de imprensa, a aquisição da Sextante pelo grupo Porto Editora: «Esperámos pela nova lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo para concretizar este namoro, que já tinha uns meses, porque a Porto Editora e a Sextante são do mesmo sexo.»
Brincadeiras à parte, e sem entrar em grandes detalhes sobre o negócio, MAV explicou que teria sido mais fácil à Porto Editora contratar o editor João Rodrigues do que adquirir a Sextante. «A nossa ideia, porém, é que o projecto da Sextante continue o seu caminho, com toda a autonomia e mantendo os seus critérios editoriais, mas beneficiando de outra força comercial e de marketing, de outra segurança que lhe é dada pela estrutura da Porto Editora.»
João Rodrigues mostrou-se muito feliz com a nova situação, explicando que «jogar o jogo do mercado» se vinha tornando cada vez «mais difícil». No novo cenário de concentração em grandes grupos, as editoras médias, como a Sextante, ficam encurraladas. Por um lado, não têm a leveza das microeditoras (que conseguem subsistir com tiragens diminutas). Por outro, ficam sempre aquém dos argumentos comerciais dos grandes grupos. Há mesmo quem preveja um cenário, a breve prazo, em que só existirão grandes grupos e editoras de nicho. Antes que esse cenário se concretize, a Sextante escolheu a asa protectora da Porto Editora e MAV já a aponta como a «editora-boutique» do grupo, aquela que tem como público-alvo os leitores com gostos literários mais exigentes.
O anúncio das novidades para os primeiros meses de 2010 confirmou, de resto, esta distribuição de papéis. Do lado da Porto Editora, tanto os autores estrangeiros (Kate Morton, Dorothy Koomson, Paul Hoffman, Florencia Bonelli, Anita Shreve, Eric Frattini, C.J. Sansom, Katherine Neville) como os nacionais (Tânia Ganho, Inês Botelho, João Pedro Marques e o estreante J. Pedro Baltazar) enquadram-se numa linha claramente mainstream. Excepções: Ricardo Menéndez Salmón (com Derrocada) e uma nova edição, ilustrada a cores, da História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Luis Sepúlveda. Com muito menos títulos, a Sextante tem muito mais apostas que à partida me interessam ou, nalguns casos, me deixam em pulgas. Exemplo: o monumental Submundo, de Don DeLillo (desde já um forte candidato a livro do ano). Mas também o segundo volume dos Contos Completos de John Cheever e os romances Acerca de Roderer, de Guillermo Martínez, e Bute daí, Zé, de Filomena Marona Beja.

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Submundo

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Comentários

3 Responses to “Casamento entre editoras do mesmo sexo”

  1. Pedro on Janeiro 21st, 2010 19:06

    Com alguma sorte a Porto Editora adopta o grafismo da Sextante.

  2. AMC on Janeiro 23rd, 2010 14:27

    Finalmente o Underworld. Estou feliz por isso, DeLillo faz parte do meu íntimo Olimpo literário. O Volume II dos “Contos” de Cheever também é uma excelente novidade.
    Agora, José Mário, apelo à tua possível influência (entenda-se, fazer chegar a nossa voz, amantes da literatura, a quem edita) para convencer alguma editora (e porque não a Sextante? Porquanto, pelo que se entende do teu texto, vai publicar os livros para um público mais exigente) a publicar e reparar a falta grave no meio editorial português da não reedição há mais de 3 décadas de 3 obras fundamentais de Bellow: The Adventures of Augie March de 1953, Humboldt’s Gift de 1975, e de The Dean’s December de 1982 (O fabuloso 1.º romance Na Corda Bamba, Dangling Man de 1944, ainda se pode encontra nos alfabrrabistas) e uma vez que a Texto depois de adquirida pela LeYa descontinuou a sua série “Grandes Autores – Prémio Nobel”, que publicou importantes obras do judeu Nobel de 1976.
    Abraço,
    André

  3. henedina on Janeiro 24th, 2010 10:55

    Eu só “casava” com a Porto Editora após o Submundo. Há que mostrar a força antes da perda de autonomia.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges