Cecília

«Assim, a sombra de Cecília paira sobre mim e o Meu Amigo, dois conversadores nocturnos sentados sob o alpendre duma casa de praia. É por enquanto uma sombra, um contorno de mulher, se quiserem. Esse contorno compõe-se de instantes de memória, deslocados no tempo e na distância, tal como sucede com os farolins das embarcações de pesca que andam ao largo: existem mas levantam-se e desaparecem ao sabor da ondulação. É necessária a memória (esse terceiro plano ou esse poder de recriar que é, ainda, memória, cheiro e reconhecimento) para situar os farolins dos barcos no verdadeiro lugar em que se encontram e construir, para além dos nossos olhos, todo um rosário de luzes boiando nas águas em trevas. Então poderemos traçar o desenho exacto de um cerco de pesca, uma companha de homens sonolentos, o enorme saco de rede que devora os peixes no próprio ventre do mar…»

[in Lavagante — encontro desabitado, de José Cardoso Pires, Edições Nelson de Matos, 2008]

Comentários

23 Responses to “Cecília”

  1. Ente Lectual on Fevereiro 26th, 2008 13:58

    José Mário Silva, sem querer marroquinizar (vem de Marrocos) este espaço, permita-me:
    http://www.orgialiteraria.com/

    Obrigado.

    • Ana Cristina Leonardo on Fevereiro 26th, 2008 17:50

      Alguém que me explique como é que se pode gostar disto e do Peixoto ao mesmo tempo.

      • fallorca on Fevereiro 26th, 2008 17:58

        Ehehehe…

        • C on Fevereiro 26th, 2008 23:33

          Ãe que cosa mai linda.

          • José Mário Silva on Fevereiro 27th, 2008 8:03

            É fácil, Ana. Basta ler o Peixoto todo e não apenas uns excertos tresmalhados.

            • fallorca on Fevereiro 27th, 2008 9:08

              Zé Mário, e quantos leitores do blog terão lido o Zé Cardoso Pires TODO e não apenas este excerto (com a devida vénia) tresmalhado? ;)

              • José Mário Silva on Fevereiro 27th, 2008 10:23

                Nem mais, Jorge. Quando escolhes um determinado excerto (bom ou mais fraquinho) estás a condicionar a ideia com que o leitor desse excerto fica de um livro que não leu.

                • Ana Cristina Leonardo on Fevereiro 27th, 2008 12:29

                  É fácil, Ana. Basta ler o Peixoto todo e não apenas uns excertos tresmalhados.
                  Primeiro: os “excertos tresmalhados” são parte da obra e se eu me pusesse a citá-los dava mais de um volume
                  Segundo: Leu o Peixoto todo?!
                  Terceiro: O que pensaria o Zé (neste caso o Cardoso Pires) sobre o lirismo à beira do derrame?
                  Quarto: Podemos gostar de géneros, estilos, autores diferentes, não podemos é dizer que uma coisa é um bife do lombo quando não passa de um hambúrguer (e não sou sequer muito carnívora)

                  • José Mário Silva on Fevereiro 27th, 2008 13:01

                    Ana,
                    Li o Peixoto todo, sim. E se também o tivesses lido todo (podemos tratar-nos por tu, certo?), perceberias que ele não se esgota (muito pelo contrário) nesse lirismo à beira do derrame que é a principal armadilha da sua escrita. Ainda não está ao nível do Philip Roth? É claro que não, nem sei se alguma vez estará. Mas diz-me honestamente quantos escritores portugueses contemporâneos, mesmo entre os veteranos, é que estão.
                    Perdoa a franqueza, mas há certas comparações que se revelam, logo à partida, desonestas.

                    • fallorca on Fevereiro 27th, 2008 13:49

                      Zé Mário, não se trata (pelo meu lado) de fazer comparações entre quem quer que seja. Cada escritor é o leitor que tem, e cada leitor tem o escritor que merece. Ainda não li nada, creio que mesmo nada do Peixoto, como também não li um livro inteiro do GM Tavares, e acho um bocado redutor afirmares «quantos escritores portugueses contemporâneos, mesmo entre os veteranos» estarão ao nível do P. Roth.
                      O Roth está ao seu próprio nível, como o Saramago, o Cardoso Pires, o Lobo Antunes, o Carlos Oliveira, e a lista seria infindável.
                      O que me parece preocupante (mas eu sei que tenho feitio de bicho do mato) é a facilidade com que os novos autores cedem aos caprichos das editoras para, digamos, se porem a jeito… ;)
                      Mas cada um….

                      • fallorca on Fevereiro 27th, 2008 14:09

                        Só mais uma achega, ok? Dizes tu, é a tua posição, portanto, «quando escolhes um determinado excerto (bom ou mais fraquinho) estás a condicionar a ideia com que o leitor desse excerto fica de um livro que não leu.»
                        Permite-me rectificar, mas a minha ideia não consiste em condicionar a apetência do leitor, mas sim dizer-lhe: Gostei disto, se também te agradou então lê o livro todo.
                        Quanto ao «Cada escritor é o leitor que tem, e cada leitor tem o escritor que merece», não há aqui nada de bombástico nem agressivo (quero é charros e descanso ehehe), foi-me segredado pelo Ricardo Piglia que tu tão bem leste e postaste um “excerto tresmalhado”.
                        Anima-te, pá, o teu blog tem sempre as mesas cheias e com boas dicas. Abraço, ainda te vou contactar antes de ires a Punta Umbria

                        • José Mário Silva on Fevereiro 27th, 2008 15:01

                          Ó Jorge, quando mencionei o condicionamento do leitor pelo excerto escolhido estava a meter-me com a Ana Cristina, que noutra caixa de comentários colocou um fragmento do Peixoto escolhido a dedo para lhe colar um rótulo. Eu sou mais como tu: quando selecciono um “excerto tresmalhado” é mais para partilhar um entusiasmo e abrir apetites.
                          Quanto ao resto, contacta-me quando quiseres. Tens recados para os nossos amigos espanhóis, é?
                          ;)

                          • fallorca on Fevereiro 27th, 2008 15:44

                            Perdi o contacto do Manuel Moya (Violeta Parra em edição portuguesa do falecido Augusto Mendes) e sei que é arriscado ir a Fuenteheridos ao fds, porque ele anda sempre a laurear a pevide literária por todo o lado.
                            Quando chegar a altura mando-te um mail com os contactos e que eles te sirvam de GPS para passares pelo Monte Alto, no regresso ou quando e se te apetecer ;)

                            • Ana Cristina Leonardo on Fevereiro 28th, 2008 0:29

                              Ainda não está ao nível do Philip Roth? É claro que não, nem sei se alguma vez estará. Mas diz-me honestamente quantos escritores portugueses contemporâneos, mesmo entre os veteranos, é que estão.
                              Perdoa a franqueza, mas há certas comparações que se revelam, logo à partida, desonestas.

                              Bom, vamos lá então tratarmo-nos e tratar as coisas por tu.
                              Não se trata aqui de comparações. Por exemplo, nunca me passaria pela cabeça comparar o Roth com o Lobo Antunes. Cada escritor é o que é e é um mundo.
                              Quando na Pastelaria coloquei uns parágrafos do Roth, e dei ao post o título de «fartos de peixotos e de trapezistas de marketing vamos a coisas sérias», fi-lo, não só por considerar o Roth um SENHOR escritor, mas também porque no caso concreto se tratava de um livro sobre a morte, tema de que Peixoto também fala abundantemente, mas que em «Património» é tratado com sobriedade e maturidade, ao contrário do que acontece em Peixoto que faz crochet com as palavras. E nem vamos falar da sua “poesia” que é mesmo inqualificável.
                              O tal lirismo à beira do derrame de que falas, além de pobre em vocaculário, é pobre em mundo. Fará as delícias de adolescentes à beira do desmaio, e mesmo assim tenho dúvidas, mas não é defensável por um crítico. Porque a questão aqui não é fazer comparações. A questão aqui é a Literatura. E a literatura não nasceu ontem, quando alguém começou a passar ao papel os seus estados de alma. Como disse Vila Matas, os livros exigem leitores inteligentes, e um leitor inteligente, e continuo a citar Vila Matas, é um leitor que quando lê uma história de adultério escrita hoje, já leu Madame Bovary e, portanto, tem exigências. São essas exigências que eu, como leitora de muitos livros, e suponho que tu, tem de ter quando lhe surge um texto à frente. Se já lemos Lobo Antunes, não vai ser um Peixoto qualquer que nos convence. Se já lemos Faulkner, se já lemos Lowry, Celine, se já lemos Flaubert, Tolstoi, Borges, Rulfo, se já lemos Saul Bellow, Cabrera Infante, ou Cardoso Pires, ou Eça, ou Camilo, ou Raul Brandão, ou, ou, ou, a exigência impõe-se. Naturalmente. Este é um ponto. O outro é a tal mentira que é verdade e mentira ao mesmo tempo, de que falava Pessoa.
                              Peixoto não convence. Peixoto vende livros fáceis, pejados de frases que não querem dizer nada, a apelar ao sentimento, escreve banalidades com uma roupagem pretensamente barroca que nem chega ao rocócó. Não sou eu que não sou honesta. Peixoto, como escritor, é que não é honesto.
                              E desafio-te a encontrares em Cardoso Pires um parágrafo que seja piroso a metade do que aquele que te citei. O que me irrita aqui, e não demasiado, digo já, porque na realidade o que eu gosto é de ler e o resto é conversa, é que a Rebelo Pinto, que é uma pirosa coitada, leve pancada de toda a gente, mas que gente tão desinteressante como Peixoto, Possidónio Cachapa e etc. sejam levados a sério. E dir-me-ás também quem é o escritor sério que aceitaria alguma vez infantilizar «Os Maias», demonstrando assim o maior desrespeito por Eça, a não ser por marketing, vaidade e cifrões. E eu é que não sou honesta?! E depois dizem-se admiradores do outro Peixoto?! Na realidade, isto só tem importância por uma única razão: na literatura, e se calhar na vida, não há medíocres inocentes.

                              • José Mário Silva on Fevereiro 28th, 2008 12:18

                                Ó Ana, o exemplo da Rebelo Pinto não me parece muito feliz. Tirando o célebre caso das alforrecas do João Pedro George, o que a rapariga mais recebe não é pancada, é indiferença (merecida). Já o Peixoto, se me permites, mais parece um saco de boxe e não só para os teus ‘uppercuts’.
                                Tens todo o direito de detestar um autor mas parece-me que és injusta na apreciação que fazes do Zé Luís (”vende livros fáceis, pejados de frases que não querem dizer nada, a apelar ao sentimento, escreve banalidades com uma roupagem pretensamente barroca que nem chega ao rocócó”).
                                Pergunto-te só isto: leste o romance ‘Nenhum Olhar’? E o ‘Cemitério de Pianos’? E o texto teatral para a peça ‘Quando o Inverno Chegar’?

                                • Ana Cristina Leonardo on Fevereiro 28th, 2008 13:54

                                  A Rebelo Pinto foi só um exemplo extremo, até parece que já lhe passou a veia, mas referi-a porque nessa é fácil bater…
                                  Quanto ao José Luís Peixoto, com tanto prémio, tanto convite, tanta entrevista, tanto autógrafo, não vejo como se possa queixar
                                  Quanto ao ódio, eu não odeio nada (talvez o Goebbels…) nem os sentimentos são para aqui chamados, estou a falar de textos que não me merecem respeito literário, só isso
                                  Quanto aos livros que citas, não li a peça de teatro, mas num autor com tanto obra e a tocar tantos géneros (romance, conto, poesia, teatro, crónica, e agora até adaptações do Eça…), estranho que só tenhas esses para citar
                                  Bom, agora vou almoçar que se faz tarde, mas talvez volte a esses títulos de que falas para retirar de lá alguns excertos ou para lhes dissecar o esqueleto inteiro, se tiver tempo…
                                  E quanto a excertos, achei curioso que meu citasses apenas o resumo e esquecesses a argumentação ou a valorização que faço daquilo que considero literatura

                                  • José Mário Silva on Fevereiro 28th, 2008 15:56

                                    Não esqueci a valorização do que consideras literatura. Se queres mesmo saber, concordo com ela. Apenas acho que a exigência que a leitura dos grandes autores do passado nos inculca não deve ser paralisante.
                                    Quanto aos três textos, citei estes porque me parecem os melhores que o Peixoto escreveu até hoje. Mas se vais fazer a exegese página a página, em busca de fragilidades (que as há em todos eles), boa sorte. Recuso-me a entrar nesse jogo e não me parece que o Zé Luís precise de um defensor oficial.

                                    • Paulo Pinto on Fevereiro 28th, 2008 22:34

                                      Não sou defensor de ninguém, nem mesmo de mim próprio. Parece-me, contudo, que a forma como a escrita do José Luís Peixoto tem vindo a ser apreciada pela Ana Cristina Leonardo é um pouco preconceituosa. O elitismo em qualquer manifestação cultural é formado, na minha opinião, pela autoexclusão, atitude essa que não pratico nem praticarei com o intuito de atacar quem não se baliza pelos meus padrões de qualidade. Ao colocar a faísca tão alta, a Ana Cristina Leonardo usa os seus, embora não me pareça necessário aborrecer-se com o facto de os outros, como eu, gostarem de ler José Luís Peixoto.

                                      “Uma Casa na Escuridão” é um bom exemplo de como a sua escrita pode ser universal.

                                      Dizer-se que JLP escreve banalidades, parece-me um pouco pretensioso, desculpe-me a franqueza.

                                      • Ana Cristina Leonardo on Fevereiro 28th, 2008 23:57

                                        Meu caro Paulo Pinto, acabei agora mesmo de clicar no seu nome e fui parar ao seu blogue. É curiosa a forma como começa o post com o qual me deparei: «Acabei de ler o anjo literário de Enrique Vila-Matas, perdón, de Eduardo Halfon».
                                        Ora bem, eu também andei a folhear o mesmo livro e vou ser franca consigo: Vila Matas é muito melhor. Por isso, porquê ler Halfon quando se pode ler o original? Bom, dir-me-á, todos os escritores têm uma genealogia. De acordo. Há autores demasiado colados ao pai e que depois descolam. Mas o que faz um grande escritor? Mantendo a imagem psicanalítica, disciplina de que não sou fão, adianto já, um bom escritor se não mata o pai está tramado (e isto vale, naturalmente, para a literatura e para a vida). Talvez seja a isso que chama uma posição elitista, não sei. Sê-lo-á, sem dúvida, e toda a literatura que se preze tem de excluir para se afirmar, porque senão estamos ao nível da citação e não da criação. Auto-exclui, porquê? Um escritor não pratica esses caminhos, escrever não é uma actividade mundana, é uma actividade solitária. E não há em mim nenhum preconceito, nem sei quem é o Peixoto. Mas já li muitas coisas e sei o que é literatura dark. Quer comover-se com o amor? Leia Anna Karenina, A Casa e o Mundo ou o Debaixo do Vulcão, por exemplo. Quer comover-se com a morte do pai? Leia Património de Roth. Quer comover-se com os camponeses pobres? Leia os Contos de Juan Rulfo. Quer prosa poética? Leia Herberto Helder, Lobo Antunes. Há tanta coisa para ler… Faça um favor a si próprio. Esqueça o Peixoto. Não vai crescer com os livros dele. E a literatura também serve para isso: para nos dar mundo. E se achar o meu tom paternalista, peço-lhe desculpa, não era minha intenção. Então, a literatura morreu, está acabada. Não, claro que não. Mas é preciso que as novas vozes provoquem mais do que um efeito de eco, que no caso de Peixoto ainda por cima é muito, muito pobre. Elitista? Talvez. Mas apenas no sentido da frase de Lobo Antunes, «saber ler é tão difícil como saber escrever».

                                        .

                                        • José Mário Silva on Fevereiro 29th, 2008 8:38

                                          “Porquê ler Halfon quando se pode ler o original [Vila-Matas]?”

                                          Por favor. Mas será que leste ‘O Anjo Literário’ com atenção? Ou só os clássicos merecem escrutínio atento? Mais do que elitista, Ana, parece-me que és literariamente muito conservadora. Só vais pelo seguro, tens medo de perder tempo com sucedâneos e às vezes escapam-te leituras que talvez te surpreendessem, se lhes desses uma oportunidade.
                                          Descartares o Halfon dessa maneira, com essa displicência, e colocá-lo no mesmo saco do Peixoto é o melhor elogio que podias fazer ao Peixoto.

                                          • Paulo Pinto on Fevereiro 29th, 2008 10:02

                                            Cara Ana Leonardo,

                                            Obrigado pela resposta. Não acho o seu tom paternalista e pode estar absolutamente tranquila no que diz respeito às palavras e ideias que quer passar. Deste lado está uma pessoa que sabe ouvir opiniões e que as leva em conta. Concordando ou discordando. Das obras que cita, li-as praticamente todas, mas vejo nas suas palavras algum equívoco.

                                            Cito-a.

                                            “Quer comover-se com o amor? Leia Anna Karenina, A Casa e o Mundo ou o Debaixo do Vulcão, por exemplo. Quer comover-se com a morte do pai? Leia Património de Roth. Quer comover-se com os camponeses pobres? Leia os Contos de Juan Rulfo. Quer prosa poética? Leia Herberto Helder, Lobo Antunes.”

                                            A Ana coloca a literatura no campo da objectividade. Entendo as suas palavras como uma receita universal. Quer atingir um “orgasmo literário”, clique no “ponto G da página x do livro y”. O que a si a comove não será o que a mim me comove. A emoção é estritamente do domínio pessoal e intrínseco. Reconheço nas suas palavras razão. Também eu acho que cada autor deve descolar-se da sua génese literária, sob pena de viver sempre “à sombra” do seu mentor. Mas também esta apreciação é do âmbito subjectivo. Quando, por exemplo, comparo Halfon com Vila-Matas, é porque eu, como a Ana provavelmente, detectamos a imagem de Vila-Matas projectada no espelho de Halfon. Mas impõe-se perguntar. Será que se tivessemos lido primeiro Halfon e posteriormente Vila-Matas não se inverteriam os raciocínios? É uma questão interessante.

                                            Quando me diz para esquecer Peixoto (ou qualquer outro) porque não vou crescer com os livros dele, está a tentar condicionar o meu caminho através dos seus parâmetros. Não vejo nenhuma intenção menos clara nesse conselho. Não acho é que deva tomar como adquirido que o meu processo de aprendizagem, qualquer que ele seja, possa ser rapidamente modificado pela sua sugestão, não reflectindo ela a minha opinião.

                                            Agradeço esta discussão de ideias e estou sempre receptivo a ela.

                                            • Ana Cristina Leonardo on Fevereiro 29th, 2008 20:47

                                              1. A literatura não é uma ciência assim como não o é a Teoria da Literatura
                                              2. Ainda assim, a literatura tem uma história
                                              3. Um objecto literário é uma coisa difícil de definir - a intencionalidade não chega com certeza
                                              4. Cada um faz as leituras por si próprio; os títulos ou autores que adiantei foram aqueles que me vieram à cabeça, podia ter citado outros, mas há níveis a que não é possível baixar quando já se lerem esses
                                              5. Quando, por exemplo, comparo Halfon com Vila-Matas, é porque eu, como a Ana provavelmente, detectamos a imagem de Vila-Matas projectada no espelho de Halfon. Mas impõe-se perguntar. Será que se tivessemos lido primeiro Halfon e posteriormente Vila-Matas não se inverteriam os raciocínios? É uma questão interessante.
                                              Também acho uma questão interessante. Até podia dar uma novela. Mas é uma questão ficcional e hipotética. Na realidade, ambos sabemos qual é o original (lá está, a literatura tem uma história). Por isso é que adiantei, sem com isso querer dizer que Halfon é desprezível, que preferia Vila Matas (e não, claro, por uma questão cronológica…)
                                              6. Isto é uma conversa, o seu caminho é o seu caminho

                                              • António on Março 1st, 2008 10:41

                                                Em relação ao «Anjo Literário», de Eduardo Halfon, concordo em parte com a Ana: é impossível lê-lo sem ser remetido para Vila-Matas e perceber que Vila-Matas faz aquilo muito melhor.

                                                Porém, não senti no livro do Halfon ponta de presunção; segundo – e muito mais importante – deu-me imenso prazer ler «O Anjo Literário». Não tomei o meu tempo por perdido: não foi uma grande refeição, é verdade, mas, no mínimo, um canapé agradável.

                                                Aliás, gosto muito deste tipo de livros, uma espécie de «literatura corrente», que, não sendo obras primas, não deixam de ser literatura; e, não me fazendo saltar a tampa, mantêm-me aconchegadinho, num banho-maria feliz, pronto para levantar fervura quando for o caso.

                                                Got something to say?





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