Cena 3
«O HIPNOTIZADOR e o PAI estão de pé lado a lado. Lêem os dois de papéis na mão.
HIPNOTIZADOR Aquele fim de tarde. Crepúsculo.
PAI Aquele fim de tarde.
Ver a Claire a sair — o walkman ligado, as pautas enfiadas num saco. Cinco minutos a pé para a lição.
HIPNOTIZADOR O meu percurso era este. Uma festa de alguém que fazia 50 anos num pavilhão desportivo. Tive de telefonar a desmarcar. Disse que tinha havido um acidente, não dei pormenores.
PAI Aquela noite. Aquela noite tem uma cor, uma sensação ao tacto e um som. A Dawn tinha voltado. Esperámos pela Claire para jantar. A Marcy estava a ver os Simpsons.
Azul. Esperámos para jantar em azul. Tocámo-nos ao de leve em cinzento-ardósia. Olhámos para os relógios em amarelo.
HIPNOTIZADOR Eu estava a conduzir um Renault Laguna Estate. 1,6 Litros. Bom carro. Bons travões. ABS. Airbags. Lá atrás, colunas, mesa de som, microfones, figurinos. Tinha os faróis ligados. Novembro.
PAI Roxo. As nossas pulsações aceleraram em roxo. Telefonámos à professora de piano em castanho. Ficámos com um nó no estômago em verde. O polícia avançou pelo carreiro em cinzento. Vimo-lo da janela em cor-de-laranja. Tirou o chapéu em dourado. Branco. Os joelhos da Dawn cederam em branco.
HIPNOTIZADOR Este é o ponto no mapa. Esta é a referência na grelha do Instituto Geográfico. Esta é a curva na estrada. Estas são as folhas junto ao passeio.
PAI A morte. A morte entrou para o hall. Pôs o capacete no banco do piano, falou connosco em prateado. Proferiu depois dois blocos de cimento em preto e deixou-os pendurados na minha caixa torácica, a fazerem-me pressão nos pulmões. Ainda hoje lá estão. Há pouco tempo perguntei à Dawn se ela achava que eu devia ir ao médico e marcar uma operação para os tirar. “Onde é que está o meu homem?” gritou ela. “Para onde é que foi o meu marido, foda-se?”
HIPNOTIZADOR Estas são as linhas amarelas, as linhas brancas. Esta é a qualidade da luz. Esta é a árvore junto à berma. Esta é a vista do Norte. Esta é a vista do Sul. Esta é a minha mão, que vai buscar um cigarro. Por um segundo. Um segundo a 57, 58, 59, 60. Vinte metros. Ao crepúsculo. Esta é a rapariga. O walkman ligado. Música de piano. A caminho da lição.
Ouve-se o Bach, depois pára.
Ouve-se o Bach. O HIPNOTIZADOR fornece as seguintes instruções ao PAI:
“Fantástico. Excelente. Vem para aqui. Vamos voltar àquele momento em que eu estava de joelhos e continuamos a partir daí. Vou buscar mais um bocadinho de texto.”
O HIPNOTIZADOR vai buscar o texto apropriado.
“Agora trabalhamos juntos. Representamos juntos. Começamos quando a música parar.”
Continua a ouvir-se o Bach.
[Terceira cena de Um Carvalho, de Tim Crouch, editada juntamente com INGLATERRA, uma peça para galerias, do mesmo autor, na colecção Livrinhos de Teatro (Cotovia/Artistas Unidos). Textos traduzidos por Francisco Frazão.]
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Gosto muito deste bocado. E apesar de a peça ter sido apresentada cá em inglês pelo Tim Crouch, esta cena era bilingue sempre que o/a actor/actriz a fazer de Pai era português/portuguesa. Portanto metade da tradução já foi feita há quase dois anos! Decididamente demoro mais do que o Graça Moura.