Cinco bilhetes-postais de Fernando Bonassi

cachorros suicidas

Almir insiste para observarmos os cães mortos na estrada. Nenhuma música consegue distraí-lo. Há mesmo muitos, inchados como balões, junto ao guard-rail. Argumento que é apenas por estarmos numa dessas cidades ainda não completamente deterioradas, onde as pessoas acumulam bichos nos quintais, e que, na verdade, estamos vendo tantas carcaças porque ficamos paranóicos com a coisa. Almir não aceita. Pede que eu repare como são cães velhos. Afirma que eles sentem quando está chegando a sua hora e o atropelamento é a única forma de suicídio que conhecem.

(Londrina - Brasil - 1993)

os indolores

Ninguém da família de Piero sente dor. Alguma disfunção química na transmissão dos impulsos, de forma que a mente não se dá conta do que o corpo está sofrendo. A coisa é passada de geração pra geração sem nada que a interrompa. Ficam semanas com ossos quebrados, tumores supurados e raízes dentárias expostas sem se darem conta. Foram tema de mais documentários que as mais vaidosas personalidades poderiam suportar. Na verdade dariam tudo por uma dorzinha. Não podem entender essa cara estranha, entre enjoada e triste, que as pessoas fazem quando sentem tal coisa.

(Praga - República Checa - 1998)

nem dez marcos

Herbert entrou com um pedido na polícia de Berlim pra fazer uma instalação na Rosa Luxemburg Platz. Ele queria forrar um bom pedaço de parede da estação de metrô com notas de dez marcos, de forma que se as pessoas quisessem pegá-las teriam de pular na linha e ter a sorte de não ser atropeladas. Herbert chamou o projeto de “Darwinismo”. Claro que o seu pedido foi recusado, mas ele não perdeu a chance de responder que os alemães fizeram coisas bem piores nesses últimos noventa anos, tudo por muito menos que a grana que ele está oferecendo.

(Berlim Oriental - Alemanha - 1998)

red dorian gray

Antes de taxista, Zbigniew era dos melhores pintores de Cracóvia. Não fez dinheiro porque dinheiro não era o que valia nos anos 50. Fez Bierut, Gomulka e boa parte da União dos Patriotas Poloneses. Melhorava pessoas sem incomodá-las, o que considera a maior habilidade do retratista. Problema é que as tintas que recebia da Geórgia começaram a sumir, deixando nas telas apenas manchas encardidas sobre traços brutais de carvão. Clientes satisfeitos viraram-lhe a cara de um dia pro outro. A Polônia nunca teve história fácil, mas Zbi acha que foram aquelas tintas que o desgraçaram.

(Cracóvia - Polônia - 1998)

ouro e maldição

Seis meses floresta adentro, os dois fazem sinal da cruz antes de mergulhar. Roupas de câmara de pneu, oxigênio por mangueira de jardim. Pesos de chumbo num cinto de arame. Cogumelos de poeira levantam em câmara lenta, quando o fundo do rio é tocado pelos pés descalços. Um deles aponta algo. A três metros de distância na água suja, o outro pode ver. Rapidamente o primeiro trara de fazer a sucção, apontando pra pedra brilhante a boca do cano de PVC. Mas a coisa é tão grande que entala. O segundo a pega, sobe à superfície e corta o oxigênio do primeiro.

(Jiparaná - Brasil - 1987)

[in Passaporte, Cosac & Naify, São Paulo, 2001]

Comentários

One Response to “Cinco bilhetes-postais de Fernando Bonassi”

  1. Bibliotecário de Babel – As fronteiras do parágrafo on Novembro 14th, 2008 21:27

    [...] que o também cronista do jornal Folha de São Paulo parece respeitar são as do parágrafo. Tudo o que é preciso ser dito, é dito num único bloco: cerca de doze linhas de prosa concentrada, frases curtas, imagens fortíssimas e finais que mais [...]

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