Cinco criaturas de Paulo Rodrigues Ferreira

BALDUIN

Balduin passava os dias escondido debaixo da cama. Se alguém lhe pedia explicações pelo seu estranho comportamento, a criança limitava-se a esboçar um fraco sorriso. Balduin dormia debaixo da cama. Balduin lia debaixo da cama. Balduin vivia debaixo da cama.
Um dia, quando a cama caiu, Balduin morreu, como se fosse um gafanhoto debaixo de um sapato.

EVA

Uma senhora velha queria voltar a ser bela e jovem. Arrancou os dentes ao seu cão e com eles fez um fio. Embora tenha continuado velha, a senhora ficou estranhamente bonita.

FERDINAND

Empoleirada numa varanda de sétimo andar, uma rapariga sorri para Ferdinand, o seu namorado. Este, despreocupado, pensa: «Se ela cair, eu vou junto.»

FRIEDER

Em certas manhãs de nevoeiro, Frieder entretinha-se a contar as pessoas que passavam por debaixo da sua varanda.
«Uma pessoa. Uma pessoa. Uma pessoa.»
As pessoas passavam mas Frieder não as via.
«Só vejo a mulher que me deixou.»

BLOCH

Duas crianças incendiaram o corpo de um mendigo e, durante sete dias, alimentaram o fogo a gasolina e a petróleo. Dir-se-ia que, em pouco menos de uma semana, duas crianças fundaram uma nova religião.

[in A Prisão do Ético, Livrododia, 2009]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges