Cinco miniaturas de Rui Caeiro

BORBOLETAS

Como o fogo, duram o tempo que duram
Duram pouco. Ninguém espera de uma labareda
que fique para sempre


SEREIAS

Brilham ao sol a negra cabeleira, a verde
opulência das ancas e a pele fria e morna
escorregadia como os limos que há nas rochas


LINCES

Para bem escutar o rumor do mundo, ou melhor
filtrar o pouco que importa ouvir, nada como
duas imponentes orelhas em bico de flecha


PAPAGAIOS

Dizem o que eu digo e dizem tão bem
que fico sem saber quem imita quem


VERMES

Nos negros labirintos do interior da terra
também sonham, sonham com a nossa carne

[in O Carnaval dos Animais, Letra Livre, 2008]



Comentários

One Response to “Cinco miniaturas de Rui Caeiro”

  1. Luís Graça on Janeiro 2nd, 2009 7:19

    Nem só de Albertos vivem os Caeiros.
    Este Rui é de boa colheita.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges