Cinco poemas de Catarina Nunes de Almeida
As noites eram aquele enxame desperto as noites
eram noites bem bebidas
a elevação dos lábios interiores dos cálices
o pôr das mãos nos caminhos.
***
Começávamos o dia por baixo
pelo tempo da pedra. A escarpa muscular
onde ia gastando os teus sapatos.
Manhãs compridas que chegavam ao mar.
Trazíamos as letras inclinadas trazíamos
na ponta da língua o nome dos naufrágios
e estávamos à mesa como um corpo de baile.
Uma subsistência sonora era esse
o estado da arte: éramos as claves do sul
de lábios estendidos à medida das máscaras.
Eu ia de rastilho, de árvore acesa. Ia iluminando a mão
com que batias no fundo. Traçava as águas
juntava as pernas para as covas do teu dente.
Passavam orlas e orlas e nós naquela descoberta
naquela terra toda à vista brincando ao verão
aos redemoinhos na chávena.
***
Quarentena longe das ondas.
Partiu-se de mim prazer
desamparada de meus ventos.
Meu ventre foi na última infância
declive talhado pelos peixes
muito afeito a coita de mar.
Aqui existe só o uivo dos cactos bravos
raros fumos lembrando barbatanas –
crostas levíssimas
na levedura das torres.
Gente esquecida dos remos
da fundura das mãos que traziam
os astros aos lábios.
***
CÂNTICO DAS NERVURAS
São tão largas as noites
para a concisão de um corpo.
Tão escuro o sorriso que as pernas abrem
ao mundo.
E no entanto animal que passe
aloira-se nas águas e geme
de uma alegria que tem flores e frutos.
***
CÂNTICO DOS CÂNTAROS
Voltando um pouco atrás
à costura das fotografias
àquelas escuridão pulmonar onde te vi
pela primeira vez onde eras
mais que certo quase cavalo
quase branco
a galope nos meus dentes.
Fotografias do tempo em que chamavas
árvore de rapina ao instrumento
que te educava os dedos.
Um dedilhar de amigo
à beira do vinhal.
Um encantar de amigo.
Se te deixasse ficar à sombra
haveria ainda as linhas da tua mão
tão irregulares tão imponderáveis
como a chuva nas boas noites.
Haveria ainda o perfume das grainhas
na primeira curva da manhã.
Era no tempo das fotografias.
Agora, dizes tu, há o orvalho dos murtais
um cesto silencioso e humano.
Nunca saberás que isso a que chamas
silêncio orvalho
eu chamo música
e toco-a.
[in Bailias, Deriva, 2011]
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