Cinco poemas de Fernando Eduardo Carita

Fernando Eduardo Carita (n. 1961) é um poeta português praticamente desconhecido em Portugal, o que se explica pelo facto de ter publicado por cá apenas um livro em edição de autor e há muito fora de circulação (A obscura espiritualidade da matéria, 1988). Os dois livros seguintes, que correspondem na verdade à emergência da sua voz poética, surgiram na Bélgica, em edição bilingue da Le Taillis Pré (poemas traduzidos para francês por Marie Claire Vromans).
Do primeiro destes livros, A salvação pelo vazio (2005), retirei três poemas:

Só de deus em diante é possível
ouvir o eco dos seus passos dirigindo-se para ti,
só de ti em diante é possível
ouvir o eco dos teus passos dirigindo-se para ele;
mas de deus para trás é já possível
ouvir os teus passos,
tal como de ti para trás é já possível
ouvir os seus passos.
E dos passos em diante
estão também os passos para trás
e vice-versa,
exactamente os mesmos passos.
De quem, não se sabe agora ao certo,
nem qual a sua direcção.
Subsiste, contudo, a hipótese:
que exista uma direcção que tome a iniciativa
de acertar todos os passos uns pelos outros;
daqueles que já aqui caminharam,
daqueles que caminham ainda aqui
e ate mesmo daqueles que um dia hão-de aqui caminhar.
Não me perguntes como,
sei apenas que uma mesa está posta
e aguarda a chegada de todos para um brinde final
ao nada e
a ninguém.

A Roberto Juarroz, celebrando o nosso encontro no Convento da Arrábida

*****

Espreita agora para dentro dos olhos dos mortos
Que os tenham deixado abertos,
Neles teus olhos reflectidos
Vêem-te primeiro que tu a eles.

*****

Meio-dia:
A sombra do fruto tem agora
O mesmo sabor do fruto.


De A Casa, o Caminho (2008), mais estes dois poemas:

Metade de uma vida para pronunciar mera sílaba de silêncio,
A outra metade só para a desnomear,
E ter depois uma morte inteira
Para rebaptizar por uma vez todas as coisas do mundo.

*****

Há no amor uma qualquer força mortífera
Que põe os amantes um contra o outro,
Bastará que a libertem;

Há no amor uma qualquer força vital
Que põe os amantes a favor um do outro,
Bastará que a mantenham em cativeiro;

Há no amor uma qualquer força inumana
Que há-de preservar os amantes
De sucumbirem nas margens um do outro,
Bastará que a coloquem já onde o amor os não alcança.



Comentários

One Response to “Cinco poemas de Fernando Eduardo Carita”

  1. Tiago Varanda on Maio 12th, 2009 20:25

    Eu sabia!
    Esta homem foi meu professor. Deu-me aulas de língua portuguesa. Deixou-me às avessa, completamente. Depois de chumbar no 10º ano precisamente a esta disciplina, matou-me de desejo de a saber mais.

    Obrigado pela informação que à tanto procurava.

    Tiago Varanda

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges