Cinco poemas de José Manuel de Vasconcelos

A CABEÇA DE DIOGO ALVES*

Estranha forma de olhar a vida eterna
dentro de um exíguo frasco, cor de pânico,
exposto às cozeduras do chiste
cheio de uma luz disfórica
tão longe já das pequenas glórias
do Aqueduto e dos sobressaltos
que vivificavam a míngua
Agora, a entediante eternidade
intercalada de visitas
como nos hospitais ou nas prisões
E quando há mais pessoas
estala no altifalante, irónico, o «Halleluia»

* Numa exposição que teve lugar no Museu Nacional de Arte Antiga, intitulada Passagens, 100 peças para o Museu da Medicina, exibia-se uma cabeça, dentro de um frasco com líquido conservante, como sendo a de Diogo Alves, o famoso criminoso que, entre outras «façanhas», assaltava pessoas no cimo do Aqueduto das Águas Livres, atirando-as depois dele abaixo.

***

TEATRO

Passam as personagens principais,
bons e maus actores
muitos figurantes
tudo se reduz a marcações, cenários
e inúteis figurinos

interminável, a representação
às vezes entusiasma
mas no geral é o supremo tédio
o rasgado bocejo

tem pequenos intervalos
um sopro de outra realidade
mas afinal não passa de ilusão
e a peça não acaba nunca –
alguém fechou as portas do teatro
pelo lado de fora

***

NUMA EXPOSIÇÃO DE GERARDO RUEDA

Olhavas para um quadro de Rueda
com um ar curioso mas displicente
procurando acolher aquelas três ou quatro
massas de cor na desorganização do teu olhar
que bem reflectia a tua vida
e eu contemplava-te apenas a pensar em sexo
e colocava-te mentalmente nas posições
em que gostaria de te possuir nessa noite
quando na efémera paisagem do quarto de hotel
organizássemos a relação do desejo
com os objectos que o habitavam (cama, cadeiras, espelhos,
e até o armário)
No fundo, no teu corpo
inscrevia-se a indecifrável vertigem
que une a arte e a vida

***

PAISAGEM COM CORVOS

Van Gogh
atirava pedras aos corvos
para os esmagar contra o céu
dos seus quadros

***

MUSEU ANNE FRANK

Anne Frank foi sempre
um pequeno peixe num aquário,
primeiro às voltas com um impiedoso anzol,
agora olhada através dos grossos vidros
por turistas desengonçados

[in A Mão na Água que Corre, Assírio & Alvim, 2011]



Comentários

2 Responses to “Cinco poemas de José Manuel de Vasconcelos”

  1. Martim Pizarro on Abril 15th, 2011 11:37

    Um Pequeno Monstro

    Boa noite minha senhora, não quer ajudar o pobre
    Que não come há três dias na rua?
    Não tenho nada na vida que me sobre
    Para além de uma velha gazua
    Com que entro à noite em sua casa
    Onde discurso para o seu faqueiro de prata,
    Para os saleiros de porcelana e o cinzeiro de lata,
    Sento-me na sua retrete enquanto dorme
    Já de saco cheio a prender a porta,
    Deixo uma pequena nota na mesa torta
    E corro em direcção à mata.

    Não queira saber.

    Antes, a vida era uma praça de cravos dourados
    Nunca antes vistos, um mar de rosas.
    De resto a vida tem sido uma conferência de delícias
    Mil sonhos, liberdades e carícias,
    No jardim lá de casa havia mariposas
    E à tarde cheirava a alecrim.

    Está farta de saber. Tenho muitos nomes,
    E nasci em 1976 após a morte do meu pai
    Que mal cheguei a conhecer.
    Desde pequeno me lembro
    De brincar na varanda em Novembro
    E dos bonecos que o meu pai me dava,
    Soldadinhos e guerrilheiros por mim pintados
    E posicionados na selva dos cactos e das cameleiras,
    Enjeitadas com pequenas palmeiras e vasos antiquados.

    A minha mãe chamava-me de estragadão
    Por partir as pernas dos soldadinhos
    Que deixava espalhados no chão,
    Batia-me com a palmatória na mão
    E eu tinha medo, coisa comum lá em casa.

    Quando o meu pai morreu prometi que ia acabar com o medo.

    Vê como o medo acabou e todos falam do que querem?
    Vê como adivinhou?
    Não tenha medo!
    Sou o filho único do Estado Novo,
    Ilustre pai que me nomeou
    De Estado Renovado!
    Ora aí está, cara senhora, muito obrigado!

  2. Uma haste de assombro | Bibliotecário de Babel on Abril 21st, 2011 10:32

    […] grega, mas os seus melhores poemas acabam por ser os mais irónicos. Como aquele que descreve a «entediante eternidade» da cabeça de Diogo Alves (o assassino do Aqueduto), presa num frasco de formol «cor de pânico». Ou aquele outro que […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges