Cinco poemas de José Saramago

PAISAGEM COM FIGURAS

Não há muito que ver nesta paisagem:
Alagadas campinas, ramos nus
De salgueiros e choupos eriçados:
Raízes descobertas que trocaram
O natural do chão pelo céu vazio.
Aqui damos as mãos e caminhamos,
A romper nevoeiros.
Jardim do paraíso, obra nossa,
Somos nele os primeiros.

***

PROTOPOEMA

Do novelo emaranhado da memória, da escuridão dos nós cegos, puxo um fio que me aparece solto.
Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os dedos.
É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos, e tem a macieza quente do lodo vivo.
É um rio.
Corre-me nas mãos, agora molhadas.
Toda a água me passa entre as palmas abertas, e de repente não sei se as águas nascem de mim, ou para mim fluem.
Continua a puxar, não já memória apenas, mas o próprio corpo do rio.
Sobre a minha pele navegam barcos, e sou também os barcos e o céu que os cobre e os altos choupos que vagarosamente deslizam sobre a película luminosa dos olhos.
Nadam-me peixes no sangue e oscilam entre duas águas como os apelos imprecisos da memória.
Sinto a força dos braços e a vara que os prolonga.
Ao fundo do rio e de mim, desce como um lento e firme pulsar de coração.
Agora o céu está mais perto e mudou de cor.
É todo ele verde e sonoro porque de ramo em ramo acorda o canto das aves.
E quando num largo espaço o barco se detém, o meu corpo despido brilha debaixo do sol, entre o esplendor maior que acende a superfície das águas.
Aí se fundem numa só verdade as lembranças confusas da memória e o vulto subitamente anunciado do futuro.
Uma ave sem nome desce donde não sei e vai pousar calada sobre a proa rigorosa do barco.
Imóvel, espero que toda a água se banhe de azul e que as aves digam nos ramos por que são altos os choupos e rumurosas as suas folhas.
Então, corpo de barco e de rio na dimensão do homem, sigo adiante para o fulvo remanso que as espadas verticais circundam.
Aí, três palmos enterrarei a minha vara até à pedra viva.
Haverá o grande silêncio primordial quando as mãos se juntarem às mãos.
Depois saberei tudo.

***

Estou onde o verso faço, e erro o verso
Porque a fuga do tempo, ao núcleo escasso,
Tira a carne do fruto até ao osso.
Rilho no fel o dente e o desafio,
Tal, vagaroso, o bicho em jaula morde,
No travor do caroço, a memória do mel.

***

Aqui a pedra cai com outro som
Porque a água é mais densa, porque o fundo
Tem assento e firmeza sobre os arcos
Da fornalha da terra.
Aqui reflecte o sol, e tange à superfície
Uma ruiva canção que o vento espalha.
Nus, na margem, acendemos convulsos
A fogueira mais alta.
Nascem aves no céu, os peixes brilham,
Toda a sombra se foi, que mais nos falta?

***

Tenho um irmão siamês
(Há quem tenha, mas o meu,
Ligado à sola dos pés,
Anda espalhado no chão,
Todo mordido da raiva
De ser mais raso do que eu.)

Tenho um irmão siamês
(É a sombra, cão rafeiro,
Vai à frente ou de viés
Conforme a luz e a feição,
De modo que sempre caiba
Nos limites do ponteiro.)

Tenho um irmão siamês
(Minha morte antecipada,
Já deitada,
À espera da minha vez.)

[in Provavelmente Alegria, Caminho, 1987, 3.ª edição; 1.ª edição, Livros Horizonte, 1970]



Comentários

4 Responses to “Cinco poemas de José Saramago”

  1. Raquel Agra on Junho 21st, 2010 8:02

    Caro José:
    É hora de nos despedirmos do homem, do cidadão e da obra ainda possível que viu um fim sem ter tido tempo sequer de principiar.
    É hora de louvarmos a obra, imensa, que nos ajuda a compreender um pouco melhor a necessidade humana de pensarmos e reflectirmos sobre quem somos, para onde vamos e o que queremos ser.
    E é hora de prestarmos homenagem ao génio, Saramago, por nos ter levado tão longe na sua viagem.
    Isto é o importante. Não perca tempo com cavaquices e rancores, é que não passa disso, uma desnecessária perda de tempo.
    Bem haja e obrigada pela divulgação literária que faz,
    Raquel

  2. csd on Junho 21st, 2010 9:00

    estou absolutamente triste. sem palavras.

    csd

  3. ana on Junho 21st, 2010 9:29

    Descobri há pouco tempo a vertente poética de Saramago que me encantou.
    Estou a seguir o seu blogue porque é muito interessante.
    Se quiser visitar o meu é (IN) Cultura. O meu nome no blogue é ana.

    Grata por este pedaço de tempo à volta da poesia de Saramago. Tenho pena que ele não encontre o seu lugar ao pé da oliveira de que gostava e que os outros decidam por ele.

    Bom dia.
    Ana

  4. henedina on Junho 21st, 2010 21:27

    Eu não gosto especialmente de ler Saramago. Dizem que eu escrevo a Saramago (e não o dizem como elogio mas sim “consegues ler as tuas frases sem perder o folego?”). Mas há livros e parte de livros dele que me marcaram.
    Gosto de homens de convicções (concorde, ou não, com elas).
    Vi uma reportagem após a morte de Saramago que era um hino ao amor. Acabei de ler um livro que dizia que um homem após os 30 anos já não acredita no amor (ensaio: Do Amor, do autor da Cartucha de Parma). A minha irmã diz que um homem após os 40 anos já não ama de novo.
    Saramago fez-me acreditar que se pode amar completamente, com respeito, admiração, amizade, amor, cumplicidade mesmo aos oitenta. Esta é uma lição de vida, não de literatura.
    Com a morte deste homem que tb era prémio Nobel da literatura o país e o mundo ficaram mais pobres.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges