Cinco poemas de Renata Correia Botelho

falhámos tudo: entregámos
os livros ao sepulcro
das estantes, ao amor

demos um colo de horas
certas, deixámos de abrir
janelas para cheirar a noite.

já nada nos lembra
que o poema só se forma
no fio da navalha.

***

as mãos medindo a palmo
o desejo, esse engano

fundo e breve
que alarga a noite.

***

um seixo em cada mão e o mar
às costas. a tua ausência será

um calendário de pedras.

***

ponho entre aspas o teu nome,
metáfora arisca,
tão inútil como um circo
no nevoeiro.

***

o vento agita as sombras
na minha mão, lança-me
vultos, um nome em chamas, versos
afiados contra os dedos.

sempre pressenti a distância mínima
entre o poema e o medo
de não saber regressar a casa.

[in Um Circo no Nevoeiro, Averno, 2009]



Comentários

2 Responses to “Cinco poemas de Renata Correia Botelho”

  1. Maria das Mercês on Janeiro 6th, 2010 13:39

    Excelente escolha!

  2. leal maria on Janeiro 24th, 2010 12:58

    Confirma-se… que belíssimos poemas!!

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges