Cinco poemas de Tomas Tranströmer

CARRIL

Duas da madrugada: noite luarenta. O comboio detém-se
no meio da campina6. Bem ao longe, pontos luminosos, urbanos,
tremulam friamente a perderem-se de vista.

O mesmo sucede quando sonhamos tão profundamente
que nunca havemos de nos recordar onde estivemos
ao regressar ao nosso quarto.

Ou como alguém com uma doença tão adiantada
que todos os anos vividos passam a ser pontos trémulos,
um enxame frio e sem importância no horizonte.

O comboio continua sem se mexer um milímetro.
São as duas da madrugada: luar intenso, poucas estrelas.

***

ABRIL E O SILÊNCIO

A primavera mostra-se deserta.
A valeta, de um escuro aveludado,
rasteja ao meu lado
sem reflexos.

A única coisa que brilha
é o amarelo de flores.

Sou levado na minha sombra
como um violino
no seu estojo negro.

O que apenas quero dizer
tremeluz fora do meu alcance
como prata
em montra de casa de penhores.

***

UM CÉU POR ACABAR

O desânimo interrompe o seu curso.
A angústia interrompe o seu curso.
O abutre interrompe o seu voo.

A luminosidade impaciente escoa-se,
até os fantasmas pedem um copo de três.

Pinturas rupestres vêm à luz,
animais em ocre vermelho de um ateliê glaciar.

Todo o existente olha à sua volta.
O astro-rei é adorado.

Cada ser humano é uma porta entreaberta
que conduz a um quarto para todos.

O solo imenso no qual caminhamos.

Por entre o arvoredo, a água da chuva ilumina.

Lagos são janelas com vista para a terra.

***

O CASAL

Apagam a luz, o globo branco treme
um instante antes de se desvanecer
como um comprimido num copo de escuridão. Às escuras,
as paredes do hotel elevam-se, atingem o negrume celeste.

Os movimentos do amor esmorecem, eles dormem,
mas os pensamentos mais íntimos encontram-se
como duas cores que esbarram e se misturam,
tal papel humedecido da pintura de um garoto na idade escolar.

Ainda não é dia e há silêncio. Esta noite, porém, a cidade acercou-se.
Com janelas apagadas, as casas estão ali.
Juntas umas às outras, à espera, muito perto,
uma multidão com rostos sem expressão.

***

MEADOS DO INVERNO

Um rasto de luz azulada
irradia da minha roupa.
Decorrida está metade do inverno.
Música de choques de mil blocos de gelo.
Fecho os olhos.
Há um mundo sem ruídos,
uma fissura,
onde os mortos,
como contrabando, são passados para o além.

[in 50 Poemas, tradução de Alexandre Pastor, Relógio d’Água, 2012]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges