Citação (2)
«Frida está deitada sob o espelho que lhe devolve a sua imagem imóvel, o rosto encerrado na paz da morte, o frágil corpo vestido como para uma última festa, a saia negra e a longa camisa branca de Yalalag – é assim que surge na última foto feita por Lola Alvárez Bravo na tarde de terça-feira, 13 de Julho de 1954, em que se vê Frida estendida na cama, rodeada dos objectos familiares, o ramo de rosas, os livros de través na estante, as bonecas, as fotos, com essa mosca insolente poisada no seu braço, como se tudo isso não passasse de um sonho, e ela fosse voltar a respirar, a despertar, a recomeçar a viver. Então a Casa Azul entra suavemente na lenda. Lá fora, os cães esperam diante da porta fechada, enquanto uma chuva miúda faz tremular os charcos no jardim silencioso.

Nos últimos tempos, Frida já não saía desta casa, deste jardim. Tinha feito deles uma réplica do mundo, ao mesmo tempo imaginária e enraizada na realidade através dos laços da dor. Para ela, a Casa Azul era como o templo do amor por Diego, que devia durar para lá das vicissitudes da vida, para lá da morte.
Quando Frida partiu, Diego nunca mais voltou a Coyoacán. Quis que a Casa Azul se tornasse não um museu – a ideia teria sido bastante horrível – mas um santuário, uma casa aberta em que cada um pudesse receber um pouco de beleza que emanava de Frida e que impregnara as paredes, os objectos familiares, as plantas do jardim.
Tudo aqui está imóvel, parado como que à espera do despertar da niña.»
[in Diego & Frida, de J.M.G. Le Clézio, trad. de Manuel Alberto, Relógio d'Água, 1994]
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