Colina abaixo

O Livro Inclinado
Autor: Peter Newell
Título original: The Slant Book
Tradução: Rui Lopes
Editora: Orfeu Negro
N.º de páginas: 48
ISBN: 978-989-95565-3-9
Ano de publicação: 2008

No início do século XX, Peter Newell (1862-1924), um artista norte-americano que costumava colaborar com as revistas New York Graphic e Harper’s Bazaar, escreveu e ilustrou vários livros para crianças que se tornaram clássicos, mais pelo formato e pelo engenho das soluções gráficas do que propriamente pelo conteúdo, que se limita a reproduzir os jogos de palavras habituais nas rimas infantis da época.
Entre as invenções precursoras de Newell contam-se a série Topsys and Turvys (que obrigava o leitor a virar as páginas de pernas para o ar) e três livros atravessados, literalmente, por uma ideia que estilhaça a tradicional rigidez das pranchas. Em The Rocket Book, um rapaz maroto acende o rastilho de um foguete na cave do seu prédio e o projéctil vai abrindo caminho até ao telhado, através dos vários andares e respectivas cenas da vida doméstica. O mesmo se passa em The Hole Book, mas com um revólver que outro rapaz dispara sem querer, provocando o caos à medida que a bala fura as paredes, fazendo buracos verdadeiros nas páginas, partindo trelas e canas de pesca, rebentando com canos, bombos e balões, até se desfazer contra a forma de um bolo. E se nestas duas obras o eixo era vertical (The Rocket Book) e horizontal (The Hole Book), em The Slant Book, dado à estampa pela primeira vez em 1910, o eixo passou a diagonal, inclinando o próprio livro.
É justamente este Livro Inclinado que a Orfeu Negro acaba de editar, inaugurando a sua colecção Orfeu Mini. Colina abaixo, acompanhamos a descida vertiginosa de um carrinho de bebé que uma ama distraída deixou escapar, talvez por nunca ter visto a cena da escadaria do filme O Couraçado Potemkin. Feliz da vida, o bebé vai provocando toda a sorte de acidentes e deixando atrás de si um rasto de destruição: uma boca-de-incêndio a jorrar água, pessoas caídas com baldes de tinta ou dúzias de ovos acertando-lhes em cheio na cabeça, vidros partidos, melancias cortadas às fatias pelas rodas do carrinho, piqueniques arruinados, ordenhas interrompidas, etc., até que aparece um tronco salvador e o bebé aterra num monte de feno.
As ilustrações, muito expressivas e cinéticas, são uma delícia. E a tradução de Rui Lopes respeita quase sempre o tom divertido, embora datado, do texto original.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no número 74 da revista Ler]



Comentários

One Response to “Colina abaixo”

  1. X on Dezembro 2nd, 2008 13:21

    Útil introdução. Agora gostava de saber o que justifica a nota.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges