Comemoração

«Sete de cada lado, as mulheres assistindo, todos com barriga e pouco fôlego. Menos o Arruda. O Arruda em grande forma. Magro, ágil, boa cabeleira. Cinqüenta anos, mas conservadíssimo. E brilhando em campo.
Foi depois do Arruda dar um passe para ele mesmo, correr lá na frente como um menino, chutar com perfeição e fazer o gol, para delírio das mulheres, que todo o time correu para abraçá-lo. Que gol! O Arruda era demais. Empilharam-se em cima do Arruda.
Apertaram o Arruda. Beijaram o Arruda. O Arruda depois diria que alguém tentara morder a sua orelha. Quando o Arruda quis se levantar para recomeçarem o jogo, não deixaram. Derrubaram o Arruda outra vez. Quando ele parecia que estava conseguindo se livrar dos companheiros, veio o time adversário e também pulou no bolo para cumprimentar o Arruda.
O Arruda acabou tendo que sair de campo, trêmulo, amparado pelas mulheres indignadas, enquanto o jogo recomeçava, agora só com os fora de forma. Na hora do churrasco, o Arruda ainda não estava totalmente recuperado da comemoração. Para aprender.»

[in Orgias, de Luis Fernando Verissimo, Dom Quixote, 2008]



Comentários

2 Responses to “Comemoração”

  1. Luís Graça on Setembro 7th, 2008 22:56

    Conheço quase tudo dele. Já li o “Orgias”. Uma vez mais, genial.

  2. Bibliotecário de Babel – Um carnaval a meio-gás on Setembro 9th, 2008 11:23

    […] para um Carnaval que não chega a acontecer. Ou ainda miniaturas exemplares: O Nostálgico, Comemoração, Infidelidades, Seu Pompom, Sexo Sexo Sexo. Neste último texto, encontramos mesmo um vislumbre de […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges