Comentário aos três prémios da APE
- Grande Prémio da Crónica para José Cutileiro: indiscutível.
Podia ter sido o ano do Pedro Mexia (Nada de Melancolia, Tinta da China) ou do António Sousa Homem (Os Males da Existência – Crónicas de um Reaccionário Minhoto, Bertrand), mas as vinhetas bucólicas de Kotter são as vinhetas bucólicas de Kotter. Ou seja, um clássico.
- Grande Prémio de Poesia para Armando Silva Carvalho: aceitável.
Embora não seja um dos melhores livros de Armando Silva Carvalho, O Amante Japonês foi sem dúvida um dos melhores volumes de poesia de 2008 (cf. a minha lista aqui). Acontece que, em 2008, Herberto Helder voltou a publicar inéditos num livro extraordinário (A Faca Não Corta o Fogo, Assírio & Alvim). A perder para alguém, e não devia ter perdido para ninguém, Herberto só podia perder para Manuel Gusmão (A Terceira Mão, Caminho).
- Grande Prémio de Romance e Novela para Julieta Monginho: duvidoso.
Não posso estar abertamente contra, porque não li A Terceira Mãe. Contudo, tendo lido Myra, de Maria Velho da Costa (Assírio & Alvim), inclino-me a apoiar a declaração de voto de Armando Silva Carvalho e Fernando Pinto do Amaral.
Comentários
25 Responses to “Comentário aos três prémios da APE”
- Por uma Esquerda que não permaneça, de braços caídos, passiva e mole, a assistir ao colapso de todas as suas conquistas em 16 de Maio de 2012
- Carlos Fuentes (1928-2012) em 16 de Maio de 2012
- Noites do ‘Mauritânia’ em 15 de Maio de 2012
- As praias do Arizona em 15 de Maio de 2012
- Balanço da Feira do Livro em 14 de Maio de 2012
- O que aí vem (Cavalo de Ferro) em 14 de Maio de 2012
- A ‘Leitura Furiosa’ em voz alta em 13 de Maio de 2012
- Primeiros parágrafos em 13 de Maio de 2012
- Queres que te faça um desenho? em 13 de Maio de 2012
- A última noite do mundo em 12 de Maio de 2012


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Que relação há entre Julieta Mãoginho e Manuel Gusmãe? São ambos açoreanos da Ilha Terceira.
Na verdade, eles são a mesma pessoa. Ou não acham estranho que Julieta Mãoginho tenha escrito ‘A Terceira Mãe’ e Manuel Gusmãe ‘A Terceira Mão’?
O Herberto recusou o Prémio Pessoa, alguma vez na vida aceitaria este? Provavelmente nem entrou a concurso.
Com estes o Eduardo Pitta não se indignou. Ele só se indigna com títulos com nomes de capitais estrangeiras.
Mas depois pede desculpa pelas ilusões de óptica.
É uma boa questão, Miguel Amaro. Vou tentar saber se o livro do Herberto estava entre as obras a concurso ou não.
Estou com muita curiosidade relativamente ao romance vencedor. Deve ser muitíssimo bom para ter sido preferido a Myra, o melhor romance que li nos últimos tempos.Onde é que podemos ler a tal declaração de voto?
Obrigado.
Não li a declaração de voto, José Catarino. Apoio apenas a escolha que fizeram ASC e FPA.
[...] Cutileiro, Escritores, Grande, josé, Julieta, mário, Monguinho, Portuguesa, prémio, silva José Mário Silva comentou no seu blog os três grandes prémios da Associação Portuguesa de Escritores. São [...]
Essa senhora, Julieta Monginho, magistrada de profissão, é já a segunda vez que recebe o GRANDE Prémio da APE. E, por acaso, é casada com José Manuel Mendes, que foi presidente da APE até ao ano passado.
Isto é mesmo verdade? Confirma-se que a Julieta é casada com o JMM? Se realmente se confirmar, está definitivamente lançada a suspeita sobre a atribuição deste prémio
P.S. – Na página da DGLB atribuída à lista de vencedores do Grande Prémio de Romance e Novela não consta nenhuma Julieta Monginho, portanto é mesmo a primeira vez que recebe este prémio.
por uma vez, o seu comentário parece-me infeliz, josé mário. considera duvidosa a escolha quando reconhece só ter lido um dos livros em questão. apoia a declaração de voto apesar de a não conhecer. e ainda diz que não pode estar “abertamente contra” porque não leu o livro, deixando o leitor inferir que, caso o tivesse lido, estaria mesmo e de forma definitiva “abertamente contra”.
todos sabemos como é difícil escolher um livro muito bom e preterir outro igualmente muito bom. entre a duras e a yourcenar, que fazer? eu direi sempre: duras, a academia : yourcenar. e no entanto, tudo isto está para além da qualidade evidente da escrita, da consistência da intriga, do rigor da palavra.
gostar muito da myra não significa, não pode significar (porque isso seria negar o que entendemos por literatura) que não gostemos muito de outros livros, de outros textos, de outras formas de ver o mundo. e a escrita de julieta monginho é, desde o primeiro livro livro, um labirinto de transgressões mas também de afectos, profundamente simbólica enquanto leitora crítica dos valores nacionais e construtiva porque as personagens se multiplicam e desmultiplicam até que a juventude, os ideais, a força e a esperança as levem a lutar por um futuro diferente e melhor.
MM
Aceito os seus reparos, Maria Manuel, e tenho realmente pena de não ter lido o romance de Monginho para opinar sem reservas. Vou tentar, no meio de tantas leituras em curso e planeadas, arranjar um tempinho para ‘A Terceira Mãe’ e então direi de minha justiça.
Grato pelo comentário.
É de facto incrível o comentário de José Mário Silva. Parece que, para atribuir um prémio, já não precisamos de ler os outros livros, tendo lido um que nos agradou.
O preconceito de José Mário (é disso que se trata, naturalmente) terá de certo fundamentos — do seu ponto de vista —, mas de um crítico a sério espera-se outro tipo de abordagem. Designadamente, que pondere as obras, não as expectativas quanto aos autores.
Talvez seja interessante referir que não se trata de recomendar uma leitura (aceito que não recomendemos alegremente leituras de um escritor de quem não esperamos nada). Trata-se de um livro premiado. Importaria, antes do comentário juvenil (também é disso que se trata, duma certa imaturidade), considerar, mesmo que apenas academicamente, a possibilidade de a maioria do júri (mesmo que a maioria de que não gostamos) ter um ponto de vista a levar em consideração. Ou seja, importaria espreitar o livro antes de abrir a boca.
Caro angelo,
Tenha calma. Não se excite. Em momento algum sugeri que para «atribuir um prémio, já não precisamos de ler os outros livros, tendo lido um que nos agradou». Eu próprio já fiz parte de vários júris literários e sei bem o complicado que é ler todos os originais a concurso (primeiro) e decidir qual o melhor (depois). Também sei, por via dessas experiências todas, que a atribuição de um prémio não é uma ciência exacta. Depende de uma conciliação de vontades, da luta contra os preconceitos (pessoais ou alheios) e, muitas vezes, de compromissos.
É evidente que não ter lido o livro em causa me retira legitimidade para juízos definitivos, mas o facto de o júri (cuja composição nunca é anódina) ter decidido que esse livro que não li é o melhor também não faz dele, automaticamente, o melhor.
Por esta ordem de razão, nunca ninguém poderia comentar prémio nenhum. O facto de não termos lido os livros de Pär Lagerkvist (Prémio Nobel de Literatura 1951) ou de Shmuel Yosef Agnon (Prémio Nobel de Literatura de 1966), por exemplo, impedir-nos-ia de sugerir que o dito Prémio Nobel de Literatura podia ter sido atribuído nesses anos a, digamos, Jorge Luis Borges.
No meu comentário, eu não disse que o prémio estava mal atribuído a Julieta Monginho. Disse que tinha dúvidas. Creio que ainda é legar ter dúvidas, ou não? E sempre que tiver dúvidas, direi aqui que as tenho. E depois procurarei dissipá-las, como já disse que farei.
Dito isto, convém ter presente que um júri é apenas um conclave de humanos falíveis, não um oráculo.
[...] recentes José Mário Silva em Comentário aos três prémios da APEangelo gonçalves em Comentário aos três prémios da APEEhEh em Comentário, também numa linha, [...]
A propósito de prémios e polémicas, sugere-se a leitura de Os Meus prémios, de Thomas Bernhard (Quetzal).
Cumprimentos, um abraço a todos.
O melhor romance do ano foi O Apocalipse dos Trabalhadores, de Valter Hugo Mãe. A Maria Velho da Costa é chata, a outra é ligeira. Estes prémios andam fora da realidade. São autistas. Só vêem amigos à frente.
O melhor romance do ano foi o “Dizer-te depois do Mundo” de Nuno Viana. Um puto que é admirado por todos os grandes escritores e a crítica ignora. Talvez por fazer parte de uma pequenina editora. Mas será pequenina, a editora que só edita obras de Nuno Higino, Luandino Vieira, José Rodrigues e ….Nuno Viana? Para além deste já ouviram falar num “Aprender a Rezar na Era da técnica”? Mete os outros todos no bolso. Mas o melhor, na minha humilde opinião e SEM DÚVIDAS pessoais foi o do Nuno Viana.
Dai um pulo à praia. Um mergulho no mar. É mais fresquinho. Vê-se lá cada rabo.
abraço.
Só um pormenor, Armando Silva Carvalho, um dos elementos do juri que votou em Myra, não é o companheiro de Maria Velho da Costa? Sei que Portugal é pequeno e a promiscuidade é dificil de evitar mas não será isto um exagero e a falta total de escrúpulos?… Não estou a por em causa o livro de Maria Velho da Costa mas ter o seu parceiro a votar no seu livro não é ir contra a decência mínima nestas coisas… E o mais estranho é o José Mário Silva omitir algo que ele sabe e que todos sabem.
Eu gostei bastante do livro da Maria Velho da Costa (o único que li dos romances que foram a concurso) , e ao contrário do que aqui já foi dito, não acho nada maçador, antes pelo contrário. Agora se a senhora é companheira do Armando Silva Carvlaho, desconheço, mas é uma questão pertinente, é bom que haja ética nas coisas.
Em relação a poesia, li todos os livros, e só me resta dizer que se HH estivesse a concurso teria de ser ganhador, ou se não, teria escolhido a terceira mão do Manuel Gusmão, apesar de preferir um outro do autor que se intitula Migrações do Fogo; não obstante acho o Amante Japonês um bom livro de poesia, bastante original nas metáforas em torno de um veículo alimentado a comoção. E já que se fala de troféus, fica bem relembrar um poema dessa mesma obra:
Altos ciprestes, esses poemas
Que se perfilam ao longe na planície escrita dos meus dias.
Negras presenças do mundo, dos homens, da rosa
Incendiada nas palavras.
Recusados troféus que sabem agonizar
E sobem livres da terra
Num rouco, musculoso grito de transfiguração
Pela natureza.
Que mãos, que olhos, que sexos,
Que espáduas, beijos, que fragilidades nuas, venenosas,
Que fibras, febres, pugilatos,
Que murmúrios, hossanas, que traições, que crimes?
Vê-los no ar denso da memória,
A sua tenebrosa sombra acabrunha-me.
Não posso recusar o sangue que me trazem
Não posso recuar da morte que me acenam.
Versos do começo e do fim
Fábulas de nervos ao redor do cérebro
Quem vos traz aqui ao sabor do vento imoderado
De encontro ao vidro sujo do meu rosto e do carro?
Armando Silva Carvalho
O Amante Japonês
Assírio & Alvim, 2008
Francamente, não sei se o Armando Silva Carvalho e a Maria Velho da Costa são companheiros. Julgo que não, mas não tenho a certeza. Sei apenas que são amigos: escreveram a quatro mãos ‘O Livro do Meio’, diálogo epistolar editado pela Caminho em 2006.
Não posso omitir aquilo que ignoro, caro J. Urbano.
Precisamente na entrevista que ambos deram, suponho que ao suplemento de sexta feira, em redor desse diálogo epistolar pareceu-me que eram muito mais que amigos. Mas devo ser eu que sou cegueta ou altamente sugestionável. Se o José Mário Silva, que pertence ao meio, não sabe de nada nem depreende nada mais que uma relação de amigos, quem sou eu para lançar uma tal suspeita sobre um poeta que também é membro do juri e que na mesa ao lado é premiado.
E o que dizer do facto da Julieta Monginho ser mulher (e aqui não existem dúvidas nenhumas, mulher) do José Manuel Mendes, que é ou foi o presidente da APE e era o presidente do Júri do Grande Prémio de Romance e Novela? Quer mais promiscuidade que isto, ó Urbano? Razão tem o Herberto em manter-se afastado deste lodaçal pútrido e portuguesinho que são os prémios literários no nosso país.