Convite para uma aniquilação

O Original de Laura
Autor: Vladimir Nabokov
Tradução: Telma Costa
Editora: Teorema
N.º de páginas: 161
ISBN: 978-972-695-907-6
Ano de publicação: 2010

Há muito tempo que um livro não era tão comentado e questionado como este O Original de Laura, manuscrito inédito de Vladimir Nabokov que o filho, Dmitri, decidiu publicar no final de 2009, contrariando ostensivamente a vontade do autor de Fogo Pálido. Antes de morrer em Montreux, aos 78 anos, Nabokov exigiu a destruição do livro em que estava a trabalhar, caso este ficasse incompleto. Há mesmo uma folha, deixada junto às 138 fichas escritas a lápis que compõem o texto (felizmente também fac-similadas na edição portuguesa), com uma lista de sete verbos bastante explícitos: «apagar, erradicar, suprimir, anular, delir, limpar, obliterar». Em inglês, soa ainda mais forte: «efface, expurge, erase, delete, rub out, wipe out, obliterate».
Acontece que os testamentos dos escritores, como assinalou Milan Kundera, estão condenados a ser traídos. A viúva de Nabokov, Vera, que já salvara Lolita do incinerador umas décadas antes, recusou-se a queimar o trabalho do marido. Em vez disso, fechou-o no cofre de um banco suíço e deixou a decisão para o filho. Alguns anos após a morte da mãe, Dmitri parecia inclinar-se para o cumprimento da vontade paterna, mas acabou por autorizar a publicação do texto tal e qual, mesmo sabendo que este se encontrava num estado muitíssimo embrionário. A verdade é esta: se Nabokov e Kafka quisessem mesmo destruir as suas obras, tê-lo-iam feito por si mesmos. Ao delegar em Vera e Max Brod, a traição de que fala Kundera estava como que implícita.
Curiosamente, no esboço de narrativa que podemos encontrar em O Original de Laura, o tema central é a aniquilação. Não do próprio livro inacabado, como Nabokov desejava, mas do protagonista: Philip Wild, um professor de Psicologia Experimental, gordíssimo, incapaz de lidar com a promiscuidade sexual da mulher e atraído pela ideia do «suicídio feito prazer». Numa longa sequência de transes hipnóticos auto-induzidos, ele vai apagando partes do corpo (a começar pelos dedos dos seus pés «ridiculamente pequenos»; depois por aí acima, até ao umbigo) e descobrindo o maior dos êxtases nessa dissolução virtual, um êxtase que aos poucos vai sendo contaminado pela «ansiedade» e pelo «pânico». Segundo o narrador, esta forma de «cortejar» a morte pode ser «atípica», mas impunha-se ser contada «em honra da sua estranha lógica».
Como se depreende da introdução escrita por Dmitri, as tribulações físicas imaginárias de Wild reflectem o sofrimento real de Nabokov nos últimos anos de vida, o que confere a estas passagens uma carga quase metafísica, na desesperada tentativa de dar um sentido à consciência do fim próximo. Quanto a Flora, mulher de Wild e seu «objecto de terror e ternura», é uma beldade que aos 12 anos já despertava os instintos carnais do amante da mãe (chamado Hubert H. Hubert, piscadela de olho ao Humbert Humbert de Lolita). Aparentemente, o seu desígnio é humilhar Wild, que a vê transformada em Laura, a heroína adúltera do romance escrito por um dos muitos namorados ocasionais, «homem de letras neurótico e hesitante».
Pulsão de morte, ninfetas, sexo, livros dentro do livro, eis um território tipicamente nabokoviano. O problema é a escrita: sem brilho, quase sinóptica, muito em bruto. Há alguns bons fragmentos (por exemplo, a descrição da anatomia de Flora, com os seus «mamilos pálidos e estrábicos»), ocasionais rasgos de génio e pelo menos uma cena memorável (em que Philip dificulta o trabalho ao criado que o veste todas as manhãs), mas o tom geral é cinzento e a escrita desconjuntada, amorfa, quase banal. Nabokov era um perfeccionista que burilava estilisticamente os seus textos até à perfeição. Lê-lo assim, num estádio tão precoce do seu elaborado processo criativo e tão distante do que seria a obra final, não deixa de constituir uma violência.

PS – O fac-símile das 138 fichas manuscritas é o que salva esta edição e a torna algo mais do que uma curiosidade para fãs absolutos do escritor russo. À Teorema, agradece-se a qualidade do papel e das reproduções, que permitem apreciar a caligrafia cuidadosa e muito legível de Nabokov, bem como os seus erros ortográficos, as suas emendas e rasuras, os acrescentos e rectificações, enfim, o texto enquanto work in progress. Por outro lado, o facto de ser tão fácil cotejar o original com a versão portuguesa deixa Telma Costa em maus lençóis, porque rapidamente percebemos que a tradutora compromete (se não sempre, quase sempre) a musicalidade e elegância das poucas frases deste livro que são dignas do seu autor.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

2 Responses to “Convite para uma aniquilação”

  1. LM r on Julho 1st, 2010 17:10

    A bem da verdade, já as traduções de Sebald, com a mesma autoria, são descuidadas, ara dizer o mínimo. E depois há o enxame de pecadilhos como o “ter que” repetido até à náusea…

  2. O original de Laura « Autores e Livros on Julho 2nd, 2010 15:29

    […] Mário Silva, do blog Bibliotecário de Babel, resenhou O original de Laura, de Nabokov. Em Portugal, a edição é da Teorema, com tradução de […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges