Cordão sanitário

O crítico António Guerreiro viu o booktrailer em que António Lobo Antunes fala do seu último romance e não gostou mesmo nada, ao ponto de sugerir a necessidade de um «cordão sanitário» entre o discurso público do escritor e a sua obra. Eis o texto completo da pequena crónica, publicada hoje no jornal Expresso:

«Há um booktrailer do último romance de António Lobo Antunes que é doloroso de se ver. O escritor, carregando todo o peso do mundo e torcendo-se sobre si, fala com voz lutuosa e diz: “Ninguém escreve como eu.” E daí passa a uma arte poética: “encher os livros de silêncio”; “os livros tratam todos de uma paisagem interior”; “a angústia do homem no tempo”; “a procura da natureza do homem”. Estes derrames de uma banalidade tão excessiva e enfática não podem, seguramente, ser interpretados em primeiro grau. Ou o escritor representa diante de nós uma comédia ou há algo de indecifrável. Mas em nenhum caso aquele que fala assim sobre os seus livros pode ser o mesmo que os escreveu. Mas como esta dissociação é difícil de fazer, como é difícil evitar a contaminação recíproca dos dois planos, A. Lobo Antunes devia ser protegido de si mesmo, devia-se erguer um cordão sanitário entre o seu discurso público e a sua obra, entre os seus livros e o que diz sobre eles. Eu, que tenho sempre grandes hesitações quando leio os seus romances, e quando os acho maus não consigo deixar de pensar que talvez não os tenha sabido ler, gostaria de remover o obstáculo deste booktrailer



Comentários

5 Responses to “Cordão sanitário”

  1. Pedro Lérias on Novembro 13th, 2008 19:39

    Saudosos os tempos em que as escritoras usavam pseudónimos e se podia ler um livro sem ter a mente cheia da imagem da autora.

    Prefiro as minhas autoras mortas e enterradas. Ou não saber nada sobre elas.

    (Porque é que soa estranho escrever os plurais no feminino e não no masculino? Será machismo? Deverá um plural feminino poder passar a significar conjunto de elementos masculinos e femininos?)

  2. Leonor on Novembro 13th, 2008 22:23

    Também li este artigo na Actual. Esta moda dos booktrailers pode provocar demasiado ruído entre o livro e o leitor. Se tivesse visto o booktrailer de A Mulher que escreveu a Bíblia duvido que tivesse lido o livro.

  3. joao leal on Novembro 14th, 2008 10:23

    Há nitidamente um culto da personalidade com ALA. Os livros são hoje indissociáveis do autor. Talvez porque ande a escrever o mesmo livro há mais de uma década separado em vários volumes, não sei. Este discurso hermético e desfasado da realidade só pode fazer parte de uma estratégia de culto da imagem (no que é perfeitamente respeitável uma vez que o tipo vive da literatura). Ou isso, ou tem um sentido de humor fenomenal e ande a gozar com isto tudo há anos e anos, o que pela pinta do personagem me parece bastante possível.

  4. A Seve on Junho 24th, 2009 14:56

    Seve disse…

    Mas ALA tá fechado numa caixa há muitos anos….. depois de ter escrito 3/4 bons livros (os primeiros) pensou mesmo que ninguém escrevia como ele e daí……que pena passou ao lado duma grande carreira, como dizia o outro…..

  5. Julia Gomes on Agosto 7th, 2009 21:32

    Discordo do último comentário feito a Lobo Antunes. Li todas as suas obras e devo admitir que acho o escritor fantástico.
    Lobo Antunes, sim, parece entender o humano em toda a sua plenitude e, gentilmente, nos presenteia com todos.
    Aqui, em Paraty, no Rio de Janeiro, foi ovacionado por todos os presentes.
    Fiquei emocionada ao constatar que Lobo Antunes além de primoroso, é um cavalheiro acima de tudo, uma determinada senhorita que o diga, aliás, é bem possível que se transforme numa musa inspiradora, quem sabe?

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges