Correntes d’Escritas – um mês depois

A 10.ª edição das Correntes d’Escritas acabou faz hoje um mês e, como de costume, não coloquei aqui nem um décimo do que poderia ter colocado. As notas soltas estão a um canto, as fotografias não chegaram a ser tratadas e o ritmo diário depressa afastou a ilusão de que «um dia destes passo isto a limpo». Ainda assim, acho que se justifica recuperar, nem que seja para que conste no arquivo, o texto de balanço que publiquei no Expresso logo no sábado seguinte (21 de Fevereiro):


Mesa 10 (“A Literatura é o sentido último das coisas”) Da esquerda para a direita: José Manuel Fajardo, Hélia Correia, Xosé Maria Alvarez Cáccamo, Maria Flor Pedroso (moderadora), Miguel Real, Maria Teresa Horta e Onésimo Teotónio de Almeida

O MILAGRE DA PÓVOA

«Isto é uma improbabilidade, um verdadeiro milagre», disse, visivelmente embevecida, a escritora Hélia Correia. E disse-o logo a abrir a sua intervenção numa das dez mesas-redondas que voltaram a levar, durante quatro dias (11 a 14 de Fevereiro), centenas de espectadores por sessão ao Auditório Municipal da Póvoa de Varzim, palco principal da 10.ª edição das Correntes d’Escritas. Em ano redondo, que permitiu aumentar o orçamento, este encontro de expressão ibérica reuniu de novo autores portugueses, espanhóis, latino-americanos e africanos (desta vez, mais de 120) em animadíssimos debates sobre temas literários.
Ano após ano, o espanto dos convidados repete-se ao verem a plateia repleta, mesmo nas palestras que começam às dez e meia da manhã, em dias de semana. Ou ao aperceberem-se do interesse despertado nos espectadores pelas comunicações, que suscitam quase sempre saraivadas de perguntas no final, por vezes contidas a custo por quem tem a função de moderar as conversas. Mais difícil de explicar ainda é o facto deste «fenómeno raríssimo» acontecer precisamente numa pequena cidade do norte do país, periférica em relação aos grandes centros culturais.
Manuela Ribeiro, uma das co-organizadoras do encontro, reconhece que há algo de inexplicável à volta das Correntes, um ambiente único que propicia o convívio informal entre os escritores e o público, que adere em massa, mas sublinha que «por trás disso tudo há muito trabalho». De 2000 para cá, a equipa, formada integralmente por funcionários da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim – que durante o resto do ano assumem tarefas que nada têm a ver com estas –, foi-se aprimorando. «Costumo dizer que esta é uma estrutura profissional composta por amadores», diz Manuela, para logo acrescentar: «Amadores no sentido em que amam aquilo que fazem».
O empenho e a eficácia são reconhecidos, de forma por vezes ditirâmbica, pela maioria dos participantes. Mia Couto, por exemplo, afirmou certa vez que «o encontro está tão bem organizado que até nos esquecemos de que existe uma organização». Já este ano, o escritor brasileiro Moacyr Scliar, depois de se referir a Manuela Ribeiro como «a nossa musa lusófona», lançou uma pergunta: «O que seria da literatura em língua portuguesa sem ela?» A visada, a quem o angolano Manuel Rui também chamou «a abelha-mestra das Correntes», não dá demasiada importância aos elogios, que chegam a deixá-la desconfortável. «É óbvio que o ego agradece, mas este é sobretudo um trabalho de equipa. Além disso, o entusiasmo dos participantes apenas representa, para nós todos, um acréscimo de responsabilidade.»
Ao perfazerem dez edições, as Correntes d’Escriras voltaram a crescer. Houve mais convidados (perto de 130, contra apenas 70 em 2008), mais editores presentes, mais lançamentos de livros, mais actividades paralelas, mais visitas de escritores às escolas do concelho (passaram de nove para 24, quase o triplo) e mais público (de 6000 em 2008 para cerca de 8500). «Houve pessoas que vieram de Sintra, de Coimbra, de Aveiro, nalguns casos tirando dias de férias, para poderem estar aqui», lembra Manuela, para quem as expectativas, «que já estavam lá bem no alto», foram todas superadas. «Foi perfeito, não podia ter corrido melhor. E, se havia algum risco neste crescimento, a verdade é que era um risco calculado, calculadíssimo.»
Recuperando tópicos de outras edições, as dez mesas-redondas discutiram temas que eram cada um mais ardiloso do que o outro: “Os desafios da escrita”, “Estou farto de palavras”, “O olhar escreve ou melhor a caneta vê”, “O medo ou o fascínio do desconhecido”, “Por onde me levam os livros”, “É literatura tudo o que não é evidente”, “A rua faz o livro”, “Escritas no vento, a universalidade da literatura”, “A literatura é o sentido último das coisas” e “O desafio da folha em branco”. Face a estes verdadeiros bicos-de-obra, a maior parte dos escritores, depois de se queixarem da tarefa inglória que lhes coube em sorte, optaram por contar histórias pessoais ou relatos concretos das suas experiências literárias. Também houve interpretações teóricas e densas, mas o “espírito” das Correntes privilegia o depoimento vivo, com ritmo, sentido de humor e capacidade de improviso.
Foi o que aconteceu, por exemplo, na mesa 8 (“A rua faz o livro”), moderada por Carlos Vaz Marques, com Eloy Santos, Santiago Gamboa, Fernando Pinto do Amaral, Sergi Doria, Francisco José Viegas e Gonçalo M. Tavares. Enquanto os dois primeiros oradores leram textos reflexivos sobre a matriz homérica (Santos) ou a arte de ficcionar (Gamboa), os dois últimos deambularam pelos respectivos universos: Tavares falando como escreve, atento aos achados e paradoxos da linguagem comum; Viegas partilhando histórias deliciosas sobre as reacções dos leitores aos seus romances, muitos deles (os leitores, mas talvez também os romances) incapazes de distinguir a fronteira que separa a realidade da ficção.
Outros momentos altos aconteceram na mesa 1 (Juan José Millás a lembrar que um dia destes os escritores podem ser obrigados a “desescrever”, como os agricultores que destroem as suas colheitas), na mesa 2 (uma brilhante performance do colombiano Hector Abad Faciolince, que o ajudou decerto a tornar-se o escritor que mais vendeu durante os quatro dias) e na mesa 4 (a história oral de Paulina Chiziane, que transformou o auditório num coro moçambicano).
Apesar do êxito desta 10.ª edição, as Correntes d’Escritas podem ter atingido o seu próprio limite. Se o encontro crescer ainda mais, temem alguns participantes, corre-se o risco de perder a leveza e a informalidade no convívio entre os escritores, um dos segredos do sucesso. «Temos consciência disso», diz Manuela Ribeiro. «A partir daqui, aumentar a dimensão logística será difícil, mas podemos evoluir de outras formas.» Para 2010, está previsto um downsizing, porque o orçamento excepcional deste ano de comemoração não se repetirá e «porque ainda se farão sentir, quase de certeza, os efeitos da actual crise».
Para Francisco Guedes, o outro co-organizador das Correntes, também responsável pelo encontro “Literatura em Viagem” (cuja quarta edição decorrerá entre 18 e 21 de Abril, em Matosinhos), o modelo destes acontecimentos literários pode e deve estender-se ao resto do país. «Se resulta na Póvoa e em Matosinhos, por que não há-de funcionar nas outras 306 autarquias?» Para já, Guedes estuda a possibilidade de organizar um terceiro encontro, ainda este ano, em Vila Nova de Famalicão. «O potencial é imenso. Se dependesse só de mim, se ganhasse o Euromilhões, comprava uma tenda de circo e andava em digressão, levando os escritores ibero-americanos e as suas histórias até às pessoas. Tenho a certeza de que, à semelhança do que se passa aqui na Póvoa, a tenda estaria sempre a abarrotar.»



Comentários

7 Responses to “Correntes d’Escritas – um mês depois”

  1. pmramires on Março 25th, 2009 22:34

    As melhores intervenções foram mesmo do FJV e do Bibliotecário de Babel. Qualquer dia também escrevo sobre isso.

    O Bibliotecário de Babel tinha um ar mais aprumado e uns jeitos mais ‘betinhos’ do que eu estava à espera; mas para um pai de família é bom sinal. Só espero é que o FJV, um bon vivant, não o desencaminhe.

    Tive pena de não ter coragem para o cumprimentar (e trocar dois dedos de conversa); mas fica para a próxima, se cá vier.

  2. pmramires on Março 25th, 2009 22:35

    (se cá voltar)

  3. José Mário Silva on Março 26th, 2009 14:20

    Ó pm,

    Aprumado ainda vá (disseste o mesmo do Malcolm Lowry há uns dias), mas jeitos betinhos? JEITOS BETINHOS? Não era preciso partir para a ofensa, pá.
    :)
    Quanto ao resto, foi mesmo pena a falta de coragem para me falares. É que eu não sou o Lowry, sou só um ordinary guy (não confundir com gajo ordinário).
    Abraço

  4. pmramires on Março 27th, 2009 14:05

    Desculpe lá, desculpe lá :)
    Quando escrever um post sobre isso, explico-me melhor

    Eu nem estava sozinho – estava com o Belmiro, amigo e companheiro de blogue, que veio de Braga para o ouvir – mas sabe como é: vai não vai e tal, e depois não acabe-se por não se conhecer.

    Mas está combinado. Para a próxima não falha.

    Abraço

  5. pmramires on Março 27th, 2009 14:08

    ‘não acaba-se por não se conhecer’ – enfim, quando é que eu vou aprender a escrever decentemente à primeira? – desculpe lá mais uma vez.

    (e depois acaba-se por não se conhecer, claro)

  6. José Mário Silva on Março 27th, 2009 16:32

    Tudo bem. Só o tratamento por você é que se dispensa. Por muito que os meus “jeitos” criem uma falsa impressão, não sou mesmo betinho.

  7. pmramires on Março 27th, 2009 18:37

    Ainda bem, eu também não sou. Também prefiro tratar as pessoas por tu, mas antes de o fazer, fico sempre à espera que seja a outra pessoa a tomar a iniciativa, para depois poder vestir o meu fato informal com todo o à-vontade. Muito Obrigado.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges