Crianças indefesas contra um calafrio

«Era triste a atmosfera na sala do piano. Apenas tinham acendido um candeeiro, o que iluminava o cadeirão onde se encontrava Susan. Cinthia, Julius, Santiaguito e Bobby, elegantíssimos, enchiam um sofá que permanecia na penumbra. Fora, no corredor, os empregados sussurravam, como que deixando sentir a sua participação em tanta tristeza; calavam-se, e a ausência das suas vozes deixava as crianças indefesas contra um calafrio, pele de galinha no que dizia respeito à pobre Susan, muda; voltavam a começar, e os seus murmúrios eram como breves, frágeis pausas dum silêncio acumulado e total, um silêncio que gritava o seu nome, que avançou um pouco ou que se deteve ainda mais quando soaram as dez badaladas da noite num relógio, noutro salão, triste e obscuro também, porque no dia em que Cinthia partiu, desde o entardecer, as divisões do palácio tinham-se ido convertendo em vasos comunicantes de tristeza e profundidade. Vasos enormes como lagos para onde agora gotejavam lenta, desesperadamente, um por um, os tic-tac tic-tac tic-tac, meia hora mais para a partida; eles escutavam mudos, imóveis como o enfermo húmido de febre que descobre o caminho do sono na respeitosa aceitação da insónia, na mais atenta contabilidade das gotinhas duma torneira mal fechada, “esta noite não durmo, lixei-me”, diz e conta.
Assim, eles não se apercebiam que as malas iam passando para o Mercedes cor de ginja, lá fora, na noite. Susan suspirou funda, profundamente. A triste notícia tinha-a surpreendido numa época de particular beleza, de total elegância, e agora parecia um cisne ferido navegando, ou melhor, deixando-se levar pelo vento para uma margem que talvez alcançasse ao tocar o telefone para ela. “Pelo menos tu tens com que matar o tempo”, pensou Santiago, ao vê-la sair para o ir atender. Os serviçais aproveitaram a sua ausência, iam entrando em pontas de pés, Nilda diante, os outros seguiam-na, parece que ela ia falar por todos, Cinthia, Cintita, o resto não o sabiam dizer.»

[in Um Mundo para Julius, de Alfredo Bryce Echenique, trad. Miranda das Neves, Teorema, 2008]



Comentários

2 Responses to “Crianças indefesas contra um calafrio”

  1. ana cristina leonardo on Março 22nd, 2008 15:53

    Há uns anos entrevistei o Bryce Echenique para o espesso. É um grande senhor!!! Alheio a todos os clichés sobre os escritores daquelas bandas. Esse livro é muito bonito, espero que a tradução lhe faça justiça

  2. Sara Figueiredo Costa on Março 22nd, 2008 16:13

    Já acabaste de o ler? É um belo romance, como costumam ser todos os de BRyce Echenique.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges