Crítica, rock’n roll & verborreia

Tudo começou nos comentários a este post. Melindrado com o ataque do Rui Manuel Amaral à linguagem críptico-hiperbólica de algumas recensões musicais do Ípsilon, o João Bonifácio saiu-se com uma frase sarcástica de gosto duvidoso e absolutamente injusta, em que apontava a Manuel Gusmão (extraordinário poeta, ensaísta e crítico) “uma verborreia inenarrável de referencialidade abusiva exclusivamente centrada em maus poetas e escrita apenas e só para gáudio onanístico de um pequeno salão de medíocres”. Impunha-se que alguém saísse em defesa do autor de Dois Sóis, A Rosa — A Arquitectura do Mundo e foi o Francisco Frazão que o fez, colocando os pontos nos iis. Entretanto, o Sérgio Lavos também se meteu ao barulho, aqui e aqui, merecendo a necessária réplica do Francisco. Isto para não falar dos vários lençóis de texto nas caixas de comentários (sobretudo a cargo de um auto-justificativo Bonifácio).
Enfim, apesar de alguns excessos, tiros ao lado e exemplos acabados de verborreia, inenarrável ou nem por isso, vale a pena acompanhar a polémica, muito ao estilo do que acontecia na blogosfera portuguesa em 2003 (na fase todos-lêem-todos) e aos poucos deixou de acontecer.
Não querendo lançar mais achas para a fogueira, limito-me a dizer que estou com o Francisco: “A maneira como Manuel Gusmão pensa é das melhores coisas que temos. [negrito dele] Reivindico para mim o tal gáudio onanístico e quero saber a morada desse salão de medíocres. Se é pequeno, melhor ainda: nem sabemos a sorte que temos por haver alguém assim a escrever no Ípsilon.”



Comentários

8 Responses to “Crítica, rock’n roll & verborreia”

  1. FF on Janeiro 10th, 2008 16:06

    Bolas, pá, não podemos estar sempre de acordo, já é praí a segunda vez!
    abraço
    Francisco

  2. José Mário Silva on Janeiro 10th, 2008 16:25

    Desculpa mas estás enganado, Francisco. Não é a segunda vez, é a terceira.
    Vês como não estamos sempre de acordo?
    Abraço

  3. Paulo Lopes on Janeiro 12th, 2008 9:00

    Seguindo todos os links e lendo todos os posts (incluindo os comentários) percebe-se que a frase do João Bonifácio sobre a obra do Manuel Gusmão é apenas a desmontagem do “ataque” inicial através do método de redução ao absurdo. O que é de estranhar (ou talvez não) é que depois surja alguém “melindrado” com isso e incomodado com a “verborreia”. Quanto ao resto: “much ado about nothing”.

  4. João Bonifácio on Janeiro 16th, 2008 22:37

    Ó Zé Mário (permite-me que te trate assim, apesar de não nos conhecermos), já expliquei o que pretendia com aquela frase, a ambiguidade que transportava, etc. Que não acredites em mim é outra coisa: cada um acredita no que quer e eu não discuto crenças.
    Mas diz-me: não achas caricato que tu, tendo blogues há tanto tempo, e escrevendo tanto sobre tanta coisa (e muito bem, escreves quanto quiseres sobre o que quiseres), deixes implícita essa caricatura dos lençóis auto-justificativos (e verborreicos, sei que essa era para mim e sinto-me quase vagamente honrado), quando, vendo bem as coisas, se juntarmos tudo o que escrevi na blogosfera e compararmos com o que até hoje tu escreveste, bem, digamos que é como comparar um tremoços a um carregamento de melões. (Acho que isto devia levar um ponto de interrogação.) Note-se que eu gosto de melões e nem por isso de tremoços, pelo que este é um comentário extremamente simpático.
    Ademais esclareço que não vontade alguma de me envolver em polémicas, e apenas retorqui na exacta medida e tom com que fui mencinado*. Espero que este lençol te sirva nestes dias frios.

    Atenciosamente,
    João Bonifácio.

    *Desculpa estar a justificar-me.

    PS: os lençóis eram, convenhamos, divertidos. Digamos que tinham um bom padrão.

  5. João Bonifácio on Janeiro 16th, 2008 22:38

    E não era “melindrado”. Era “ressabiado”. Irra. Levas já com outro lençol.

  6. João Bonifácio on Janeiro 16th, 2008 22:53

    E, foda-se, críptico-hiperbólica? Quantas vezes foste – nos jornais ou nos blogues – hiperbólico? Críptico? Levas já com a recensão ao tal disco nos National (que agora me parece vagamente profética) e diz-me lá onde sou críptico:

    Mesquinharia diária, uma introdução

    The National

    Boxer

    Beggars Banquet; distri. Popstock

    5*

    Uns séculos depois de Descartes ainda gatinhamos: andamos pelo mundo a separar razão e emoção numa tentativa não de entender esse mundo, mas sim de pateticamente nos retirarmos à ordem caótica das coisas. Esta nossa incapacidade de olharmos o “à volta” como um todo leva-nos a separar assuntos ditos sérios dos triviais, ou dividirmos a cultura entre alta e baixa. Como se a nossa inteligência só fosse legitimável pelos objectos que escolhemos e não por nós próprios.

    Olhemos “Boxer”, o mais recente álbum dos The National, disco de canções pop, logo coisa de baixa cultura. “Boxer” será, à partida, um disco de gente “emocional”, logo pouco racional, logo menor.

    Há uma voz grave em queixumes, violinos lacrimejantes, pianos à Satie, bateria que sobe e desce ao sabor de uma ciclotimia amorosa. O moço que canta alinhava historietas de desamores em que qualquer iletrado pode rever-se – do Iraque à criança do Algarve, passando pelas touradas há muito assunto “racional” a discutir (como aliás nas colunas semanais os “entertainers” da moral o continuam a fazer) em vez disto.

    Mas observemos de perto, por exemplo, a décima primeira canção, “Ada”: começa com uma frase de guitarra com um bordão marcado e uma harmonia de piano em fundo. Há sopros, alguns compassos depois acentua-se o bordão, ouve-se marcadamente o bombo, há uma quebra e usa-se um acorde menor de piano, ficando a voz “desapoiada”. Há uma pequena frase de piano e sopros a ascender. Apenas aqui a bateria entra por completo com o bordão da guitarra a ressurgir, mantendo-se os sopros. O tema terá ainda uma tuba em fundo, um shaker, a acentuação de cordas, vários arranjos de guitarra, sopros e metais, mudanças de ritmo.

    O que se passou da parte do ouvinte é da “simples” ordem do emocional – mas por trás há uma construção consciente que visa provocar um efeito sem que o ouvinte se aperceba da estrutura. Racionalidade? Emocionalidade? Impossível traçar uma linha.

    Sabemos no entanto que é disco de canções vagamente pop, herdeiras do cancioneiro da Tin Pan Alley tal como revisto por Randy Newman, e do cancioneiro da folk sinfónica tal como reescrito por Cohen e David Ackles, arquitectadas em pianos e guitarras acústicas, a servirem um só tema, aquele acerca do qual ninguém pode dizer nada: os meninos e as meninas. É, por azar, o mais importante de todos.

    Onde “Alligator” (2005), o precedente disco dos National, era um prodigioso exercício de tensão e explosões, decadentismo e auto-irrisão, “Boxer” opta por ruminar. Onde em “Alligator” haveria uma frase patética e espertalhona (quem escreve “I used to be carried in the arms of cheerleaders” só pode estar a gozar consigo mesmo) agora canta-se “We’ll stay inside ‘til somebody finds us/ do whatever the TV tells us” – como se se baixasse definitivamente os braços.

    O que isto significa é que “Boxer” não é um objecto que se propõe agarrar o mundo, antes diz-nos que já levámos com ele em cima e queremos paz e sossego.
    É isso que torna “Boxer” uma obra-prima de subtileza: nas suas historietas de casais em apartamentos, de gente que faz tartes pela noite dentro, reescreve-se (sem se tentar ser “realista”) a mais velha história do mundo: a queda, a terrível queda da idade, quando gritar já não é um direito nem é um luxo, é uma chatice que magoa a garganta (ou os ouvidos).

    Canção após canção (e não há uma aqui que não se revele extraordinária após meia dúzia de audições) recusa-se a epifania ou as certezas (supostamente racionais) sobre o mundo e fica-se com minúsculos estilhaços de amarguras e arranjos, construídos apenas e só para sublinhar cada palavra, arreigadamente discretos e recusando qualquer imediatismo.

    Toda a gente boa e sã deste mundo, toda a gente que põe pose grave quando fala (do Iraque aos touros, da licenciatura de Sócrates ao raio que nos parta) deve manter-se à distância de objecto tão mundano e epidérmico. Nós, os cá de baixo, podemos dar-nos ao único luxo que nos resta: reconhecer a nossa mesquinharia diária nesta música simultaneamente tão racional e emocionante.

    ***

    E pá, quem não percebe que uma canção pop – imediata, irreprimível, mundana – é muito diferente de um romance de 300 páginas e portanto com este temos uma maior lucidez e com a dita canção esse período de latência não existe, quem não percebe isso não conhece nem canções nem literatura suficiente. Ou então nunca leu o Lester Bangs. O que não acredito ser o teu caso.

    Cordialmente,

    JB.

  7. José Mário Silva on Janeiro 17th, 2008 19:40

    João,

    1) Até ficava ofendido se não me tratasses por Zé Mário (mesmo sem nos conhecermos).

    2) A famosa frase ambígua foi lida literalmente pelo Francisco (e por mim, que a considerei de facto injusta). As tuas explicações só vieram mais tarde. Se o Francisco não a tivesse lido como leu, não haveria polémica. E por isso a descrevi “em estado bruto” (digamos assim).

    3) Embora não o saibas, “lençol de texto” para mim não é um insulto. Muito pelo contrário. Em tempo de aperto gráfico nas revistas, jornais e suplementos, não há nada que me dê mais gozo do que mergulhar num texto quilométrico, desde que as ideias e o estilo do autor estejam à altura (como costuma ser o teu caso).

    4) Quem atacou o registo críptico-hiperbólico foi o Rui Manuel Amaral, não fui eu. Se leste os camiões de melão que espalhei pela blogosfera, sabes decerto que uma parte significativa dos meus posts conseguiram ser mais crípticos que os códigos dos serviços secretos ingleses durante a II Guerra Mundial. Quanto ao hiperbólico, paga-me uma cerveja e pede-me para falar das Vespro della Beata Vergine do Monteverdi e vais ver o que é ser hiperbólico.

    5) Por acaso até devo ser dos leitores do Ípsilon que mais textos sobre álbuns alternativos lê, mesmo quando depois não os vai ouvir por estar virado para outras coisas.

    6) Para constatares até que ponto consegues ser convincente, amanhã vou à FNAC comprar o disco dos National.

    Um abraço,
    ZM

  8. andremailindo on Janeiro 17th, 2008 20:51

    xiça se eu pensasse como o Gusmão, suicidava-me. Mas sabem afinal estou safo, o homem nunca pensou…primeiro foi o cunhal e agora é o sousa que pensa por ele

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges