Da dignidade institucional (ou sua falta)

No jogo de hoje contra a Coreia do Norte, os jogadores da selecção portuguesa vão usar um fumo negro no braço, em memória de José Saramago. Quer isto dizer que até a Federação de Futebol, a nossa tão parola Federação de Futebol, revela maior consciência dos seus deveres institucionais (isto é, dos deveres associados a quem representa o país) do que o Presidente da República. Felizmente, não sou só eu que me escandalizo com a indiferença de Cavaco Silva, entretido a mostrar aos netinhos as belezas naturais dos Açores e incapaz de interromper as férias, como era sua obrigação. Dois comentadores políticos à direita (aliás, muito à direita) também consideram que este é um erro grave. Carlos Abreu Amorim vai mesmo ao ponto de dizer: «Concorde-se ou não com a figura humana, com o passado ideológico de Saramago, a atitude do Presidente é a de um homem minúsculo que não foi capaz de um gesto de grandeza institucional.»
Homem minúsculo, sim, menos que minúsculo. Homem politicamente liliputiano.



Comentários

3 Responses to “Da dignidade institucional (ou sua falta)”

  1. csd on Junho 21st, 2010 9:01

    pois é.

    cssd

  2. maradona on Junho 21st, 2010 10:18

    bem, não vamos exagerar. também acho (deixo portanto aqui a minha opinião ao país) que o presidente da republica deveria ter estado presente (e, com isso, representado o regime e portugal na ultima homenagem), mas as declarações de cavaco não deixam antever o pior (e que, admito, cheguei a recear): cavaco confundiu a sua relação pessoal com saramago com a de representante do estado, mas as suas declarações deixaram claro que a sua opção tem a ver com essa confusão, e não com uma vingança pessoal metafisica. cavaco é um gajo simples e tendencialmente mesquinho (a maior parte das vezes inconscientemente), mas não mais simples e inconscientemente mesquinho que a grande maioria das pessoas complexas que choraram na morte de saramago: sinceramente que me pareceu que cavaco entendeu que a sua presença numa cerimonia daquelas seria interpretada mais como uma colagem hipócrita que com uma representação do estado portugal (que ele aliás não vetou). a mesquinhês dos actos humanos, ao contrário do que o josé mário talvez deixe transparecer, a maioria das vezes não procede de um plano racionalmente idealizado, mas de um complexo e escuro processo psicologico quase sempre por completo inacessivel ao próprio, levando-o a achar justificações perfeitamente logicas para decisões que têm motivações bem menos nobres. a condescendencia intelectual com que as elites urbanas imemorialmente tratam cavaco silva nunca falhou em nutrir as tendencias cavaquistas de muita gente, e esta diminuição crua e rudimentar da logica que levou cavaco silva a recusar ir ver o saramago a arder pela ultima vez é maius uma página na ecumenica superficialidade, ligeireza e paternalismo com que toda a vida o trataram no interior dos circulos chatos e auto-comlacentes semi-intelectuais, e que ele brilhantemente utilizou para vencer eleições atrás de eleições. a incapacidade da esquerda demagogica representada, por exemplo, por francisco louçã (falo nele porque o ouvi proferir umas inacreditaveis declarações no funeral) em vencer umas eleições a cavaco deveria faze-los pensar que, talvez, algo de diferente esteja em jogo na personalidade de cavaco silva, algo talvez mais complexo e inteligente que a matéria que utilizam para o desprezar intelectualmente. é natural, portanto, que volte a votar novamente no professor doutor anibal antónio cavaco e silva, quanto mais não seja para que as suas vitórias continuem a confundir quem nunca coloca a hipótese de que para o compreender talvez tenham que subir, em vez de descer. comi uma pizza familiar de anchovas ao pequeno almoço, isto pode não ser bom.

  3. jleal on Junho 21st, 2010 17:59

    Parece-me um pouco exagerado.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges