De onde vem o verso

O mote para a mesa 3 saiu do primeiro texto do livro Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar (edição portuguesa da Ulisseia). Eis esse magnífico poema, sem a devida formatação gráfica (que o WordPress, hélas, não permite):

FICA O NÃO DITO POR DITO

o poema
antes de escrito
não é em mim
mais que um aflito
silêncio
ante a página em branco

ou melhor
um rumor
branco
ou um grito
que estanco
já que
o poeta
que grita
erra
e como se sabe
bom poeta (ou cabrito)
não berra

o poema
antes de escrito
antes de ser
é a possibilidade
do que não foi dito
do que está
por dizer

e que
por não ter sido dito
não tem ser
não é
senão
possibilidade de dizer

mas
dizer o quê?
dizer
olor de fruta
cheiro de jasmim?

mas
como dizê-lo
se a fala não tem cheiro?

por isso é que
dizê-lo
é não dizê-lo
embora o diga de algum modo
pois não calo

por isso que
embora sem dizê-lo
falo:
falo do cheiro
da fruta
do cheiro
do cabelo

do andar
do galo
no quintal
e os digo
sem dizê-los
bem ou mal

se a fruta
não cheira
no poema
nem do galo
nele
o cantar se ouve
pode o leitor
ouvir
(e ouve)
outro galo cantar
noutro quintal
que houve

(e que
se eu não dissesse
não ouviria
já que o poeta diz
o que o leitor
– se delirasse –
diria)

mas é que
antes de dizê-lo
não se sabe
uma vez que o que é dito
não existia
e o que diz
pode ser que não diria

e
se dito não fosse
jamais se saberia

por isso
é correto dizer
que o poeta
não revela
o oculto:
inventa
cria
o que é dito
(o poema
que por um triz
não nasceria)

mas
porque o que ele disse
não existia
antes de dizê-lo
não o sabia

então ele disse
o que disse
sem saber o que dizia?
então ele o sabia sem sabê-lo?
então só soube ao dizê-lo?
ou porque se já o soubesse
não o diria?

é que só o que não se sabe é poesia

assim
o poeta inventa
o que dizer
e que só
ao dizê-lo
vai saber
o que
precisava dizer
ou poderia
pelo que o acaso dite
e a vida
provisoriamente
permite



Comentários

2 Responses to “De onde vem o verso”

  1. Pedro Barros on Fevereiro 22nd, 2013 23:53

    Recomendo vivamente Zoologia Bizarra também de Ferreira Gullar que está editado na Caminho, é uma delícia.

    Abraços

    Pedro Barros

  2. Valter Ego on Fevereiro 23rd, 2013 14:30

    “Eis esse magnífico poema, sem a devida formatação gráfica (que o WordPress, hélas, não permite)”.
    Se me é permitida a dica (e se bem entendi o problema pois não conheço o texto na sua forma original), sugiro que utilize pontos, hífens, ou mesmo letras (na verdade, qualquer coisa serve) para colocar as palavras onde são supostas. Depois é só seleccionar os caracteres que são supostos não existirem e formatá-los com a mesma cor do fundo, neste caso branco. Deixo este exemplo onde, se seleccionar o quarto verso até ao princípio, pode ver a linha que utilizei para levar o “-me” até onde queria: http://amendual.blogspot.pt/2009/02/pelagus-xi.html

    Caso isto não ajude, peço desculpa por ter metido o nariz onde não era chamado.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges