“Demoro, sei lá, dez vezes mais a rever uma página do que a escrevê-la”

O blogue Orgia Literária publicou uma extensa e interessante entrevista (em bruto, sem edição) a Gonçalo M. Tavares, feita por Gonçalo Mira.
Um excerto:

Li já há bastante tempo uma entrevista, creio, em que falavas desse tempo dos 20 anos, quando começaste a escrever a sério. Tinhas uma grande disciplina. Ias para o café cedo e lias, escrevias. Continuas a ter essa disciplina tão rigorosa?
Sim. Menos. Continuo a ter disciplina, mas não essa disciplina, por exemplo, ligada às manhãs. O Água, Cão, Cavalo, Cabeça, por exemplo, foi escrito à noite. Ou seja, continuo a ter disciplina, mas não é uma disciplina que seja repetida. Às vezes num mês tenho uma determinada disciplina, escrevo a determinadas horas, e se calhar passados uns meses mudo. Realmente dos 20 aos 30 foi uma coisa de regularidade completa. Agora, por determinadas circunstâncias, não é possível ser tão — eu acho que não é disciplinado, eu continuo a ser disciplinado — mas não é possível manter esses horários todos com rigidez.

E ainda escreves em cafés?
Menos. Ainda escrevo, mas bastante menos do que escrevia. Ou seja, gradualmente — e é interessante que é quase também a entrada nos romances que corresponde a isso, porque eu escrevo os romances em computador — fui deixando de escrever em cafés para passar a escrever no computador, em casa. É interessante porque isso também correspondeu a uma mudança. Vários escritores, no passado e ainda hoje, escrevem romances em cafés, à mão. Eu não consigo isso. A escrita à mão é uma escrita mais fragmentada. E portanto ultimamente tenho escrito mais a computador. Mas continuo a ir a cafés. O que faço nos cafés é mais a segunda fase da escrita, cortar, rever, etc. Isso faço muito em café. A primeira escrita, que é o mais importante, porque fica a pedra bruta, faço em casa. E depois é dar retoques, que são muito importantes. Eu demoro horas e horas. Demoro, sei lá, dez vezes mais a rever uma página do que a escrevê-la. E esta parte de revisão, corte, é em cafés. A escrita, agora, é mais em casa.



Comentários

15 Responses to ““Demoro, sei lá, dez vezes mais a rever uma página do que a escrevê-la””

  1. Margarida F. on Fevereiro 2nd, 2008 14:44

    É interessante. Mas eu não lhe chamaria entrevista, antes “transcrição de conversa”.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges