Dentro da casa

amada vida

Amada Vida
Autora: Alice Munro
Título original: Dear Life
Tradução: José Miguel Silva
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 267
ISBN: 978-989-641-355-2
Ano de publicação: 2013

Na página 213, depois de dez histórias que voltam a revelar, em todo o seu esplendor, a mestria narrativa de Alice Munro, o leitor de Amada Vida depara com a seguinte nota: «Os últimos quatro trabalhos deste livro não são propriamente contos. Formam um conjunto à parte, autobiográfico no sentimento, embora nem sempre no que concerne aos factos. Penso que são as primeiras e últimas – e mais íntimas – coisas que tenho a dizer sobre a minha vida.» O que mais surpreende nestes fragmentos biográficos, construídos a partir das memórias de infância, é a afinidade evidente com os temas, situações e personagens da sua escrita ficcional, por muito que a autora procure estabelecer uma barreira entre os dois domínios.
Ao evocar uma prostituta muito vistosa que viu certo dia num baile, Munro acrescenta: «Penso que se estivesse a escrever ficção em vez de recordar algo, eu nunca lhe teria dado aquele vestido.» Mais à frente, ao referir os primeiros sintomas de Parkinson na mãe, coincidentes com o falhanço profissional do pai, assume uma certa inverosimilhança na acumulação de infortúnios: «Talvez pensem que isto era excessivo. O negócio arruinado, a saúde da minha mãe arruinada. Em ficção não daria resultado.» A ironia é que os contos de Munro fazem questão de desmentir esta última frase. Os pais da escritora não são assim tão diferentes das personagens que sofrem, se perdem ou se agigantam nos seus textos. Ela própria, ao escrever sobre os conflitos surdos com a mãe, sobre insolências e respectivos castigos, sobre demónios inconfessáveis (houve uma altura em que sentiu o impulso de estrangular a irmã mais nova), coloca-se num lugar de espanto e desalento, fúria de seguir em frente e melancolia, que é o lugar ocupado por quase todas as suas protagonistas. Muitas delas transportam uma «falha», uma «falta», ou então um «peso» que se desloca «à volta do coração». São «peritas em perdas» e conhecem demasiado bem o vazio «espantoso» de quando subitamente tudo acaba, mas a vida continua. Umas superam-se, outras afundam-se, outras nunca saem do «buraco» em que se meteram na infância – e «continuam a cavar».
Quando uma destas mulheres explica ao amante a verdadeira razão da morte do pai (atirou-se para debaixo de um comboio, depois de contemplar a nudez da filha e não saber lidar com isso), há uma súbita leveza associada à partilha do segredo e à eliminação da culpa: «Sinto um alívio tão grande. Não é que tenha deixado de sentir a tragédia, mas é como se a visse de fora. São simplesmente os erros da natureza humana.» Os erros inevitáveis da natureza humana: eis a matéria-prima de Alice Munro. Nas suas histórias, há como que uma cartografia dos abalos que transfiguram a existência das pessoas comuns, criando inesperadas zonas de luz ou de sombra. De repente, algo acontece que não era suposto acontecer e duas pessoas ligam-se, envolvem-se, separam-se, partem para nunca mais voltar, regressam quando já ninguém as espera. Ou então, muitos anos depois, reencontram-se a atravessar uma rua cheia de gente, descobrindo no outro a verdade dos seus «rostos deteriorados pelo tempo» e a forma como se foram fechando, uma a uma, «as possibilidades da vida».
Na introdução a Selected Stories (Vintage, 1996), Munro explicou que uma história não é tanto um caminho que se segue. É antes uma casa: «Entramos e ficamos ali um bocado, a deambular, descobrindo como as salas e corredores se relacionam, como o mundo exterior fica diferente se contemplado daquelas janelas. (…) Podemos voltar muitas vezes, mas a casa, a história, conterá sempre mais do que vimos da última vez.» As casas de Amada Vida – talvez o derradeiro, e belíssimo, livro da escritora canadiana (n. 1931) – são inesgotáveis.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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